Inspiração e trabalho
O conceito de inspiração na criação artística em geral, e literária em particular, esteve em voga até aos anos sessenta do século XX. Dizia-se, por exemplo, que quando um escritor tinha um bloqueio diante da página branca estava sem inspiração. E a expressão ainda é de usada vulgarmente quando a obra de determinado artista deixa muito a desejar e alguém comenta que ele estava decerto pouco inspirado quando a realizou. Mas à questão da «inspiração» vieram vários artistas responder com a da «transpiração», querendo com isso dizer que as obras de arte não caem do céu e sem trabalho e persistência nada se consegue. Parece, aliás, que o celebérrimo Picasso terá respondido a um jornalista que lhe perguntou donde lhe vinha a inspiração para os seus quadros: «Inspiração? Não sei quem é. Quando aparece encontra-me sempre a trabalhar.»
O conceito de inspiração é-me estranho, tenho sempre muito mais ideias do que aquelas que consigo realizar, é antes o ânimo que me condiciona. Há dias em que escrever se me apresenta como qualquer coisa de mágico e outros em que penso "para quê?". Nunca transpiro, talvez por não ter metas definidas. Se considerasse escrever um trabalho, nunca lhe tocava.
ResponderEliminarOs gregos inventaram as Musas, filhas de Zeus e da Memória.
ResponderEliminarOlha, desta resposta, eu gostei!
ResponderEliminarA inspiração traduz o jogo de alegoria e sentidos, palavra em movimento que ascende pela ternura ao outro. Querer conquistar é ser implacável, somente a conquista é tão terrível e arrebatadora. Absorver é sorver pelos laços da acção. Há, quem idealize a comiseração do outro, de si ou, dos tempos, dos lugares; como há, quem nem saiba da circunstância, importância e necessidade da expressão ativa.
ResponderEliminarO descontrole, incontinência, incredulidade. Nada, sou eu. Então, quem sou eu? Um sopro. Ser que respira, expira, inspira e inspira-se. Contemplar a vida, inspiração.
Lua
EliminarTão azul tua cidade e nua
que canta meus olhos
de noite escura
de desejo e pura
saudade,
de ter
de ter
e ver
nos teus olhos a lua
Eis, da alma tua figura
são olhos
são olhos de ter
que tens, oh lua,
para mim de noite escura
ser tua cidade mais pura
onde a saudade
quer um azul de lua
e vem, te ver...
Contemplando o dia internacional da mulher.
Das ferramentas que o mundo conspira: oferece ao longo da existência a formação por trajetória da vivência, o aprendizado é ocaso, é o confronto com a natureza inquieta do ser, por dominar o desconhecido, de maneira minimizada, pois ao longo da infância e adolescência, até a fase adulta, tem-se a vaga noção de quão adequamos o espírito de compreensão por descobrir-se ao mundo e integrar-se a realidade; porém da maturidade, depara-se com o mundo imaginário à parte, enquanto a realização dos sentidos correspondera à expressão do que fora nossa lembrança, da ousadia perante as primeiras experiências ou acções de: medo, prazer, dor e amor.
EliminarO simples, 100% de inspiração.
A formação de uma criança é arte pura e experimental, e como criança invencível de imaginação, a boa nova é que, todos nós já passamos por isso, sabendo reconhecer na arte, a beleza da vida.
Inspiração e trabalho!
ResponderEliminar25% de inspiração, 75% de trabalho.
EliminarSe isso fosse assim qualquer pessoa era escritor. 50% talento inato, 25% gin, 20% perturbação psicológica, 5% trabalho
EliminarApoiado!! Tenho dúvidas quanto à distribuição das percentagens, mas concordo com essas variáveis (quase todas) e ...talento é fundamental!!
EliminarIsabel
Absinto!
EliminarO grande Rubem Fonseca também acha que a perturbação psicológica é fundamental. A percentagem é que parece ser bem maior do que a apontada pelo Courinha...:)
EliminarOra confira aqui, neste vídeo,que roubei no youtube, feito pelo José Mário Silva do Bibliotecário de Babel. Mostra parte de brilhante intervenção do Rubem Fonseca, nas Correntes d´Escritas. Para ele a loucura é o fundamental num escritor, depois tem de ser um pouco alfabetizado ( não precisa muito...), tem de ser paciente, motivado e imaginativo. Genial!:)
http://youtu.be/A8hrrqNqUKk
Talento é fundamental. Mas apenas com talento não se vai a lado nenhum. Como a autora deste blogue já aqui disse: escrever, reescrever, apagar, tornar a escrever, corrigir - isso sim. Essa persistência é que acaba por fazer o escritor. Se bastasse o talento, haveria mais escritores, como haveria mais músicos, mais cantores, mais pintores, mais bailarinas, etc. Penso que será isso que Picasso quis dizer com a sua frase. A inspiração poderá ser útil num determinado momento, mas, depois, vem o trabalho. E aí só a concentração e a disciplina ajudam.
EliminarTambém não me parece que o álcool seja boa solução, só se for com dose controlada (fora festas e outras ocasiões de excesso, para quem gosta).
Perturbação psicológica? Sem dúvida. Mas isso temos todos. O escritor será aquele que a reconhece, a aceita e que acaba por usá-la para seu benefício. Explorar as nossa perturbações psicológicas pode até ser uma fonte de inspiração.
Uma dose certa de "um pouco de tudo" faz qualquer um "bom em qualquer coisa", talvez não um génio... Para isso é preciso capacidade de evoluir, talento para saber desistir quando esse não é de facto o caminho, persistência para procurar as melhores pessoas para nos ajudar a conseguir a qualidade que um dia se pretende ter.
EliminarHá um momento em que as palavras fluem com mais facilidade, talvez os distúrbios e a necessidade do escritor se expressar, contribua. Concordo que isso, por si só, não faz um grande escritor...
Isso misturado com uma quantidade de esforço, e uma teimosia pela perfeição, podem fazer a diferença entre a moda, e a eternidade de uma obra...
Tudo o que é arte, já nasce connosco... Fazer evoluir, construir e permanecer no mercado a fazer mais se gosta, isso é qualidade de vida... mas ninguém disse que essa qualidade de vida é fácil de alcançar. ;)
Hum... interessantíssima discussão!
ResponderEliminarTendo a concordar com a Cristina T. mesmo que não me atreva a quantificar.
Não tanto com o
J. Courinha, se bem que o entenda. E entendo porque somos amadores, logo a inspiração prepondera... já o mesmo não posso dizer quanto às dezenas de artigos que escrevi (pagos) para revistas... ou até dos relatórios. Esses são trabalhados, são feitos com mais ou menos inspiração, mas são trabalho e às vezes encomendados... há então que puxar pela idéia; e ela ocorre... ou não! É trabalho...
Então a inspiração não conta?
Sem dúvida que sim! Atrevo-me a dizer.
Acredito que é aquilo que distingue o génio do homem comum - ainda que inteligente.
Mas a inspiração não se alcança por graça divina nem a esperar por ela, seja através de estímulos (álcool) ou quando as Tágides decidem salpicar-nos... Tenho para mim que ela também se procura, e tudo o que tenho ouvido ou lido, me conduz a essa idéia.
A inspiração pode ter origem ao nível do subconsciente (génio) ou do inconsciente (aquele que tem um rasgo). E resultar de estar atento, interpretar as mensagens que o cérebro ou os sentidos recebem, assim como a maçã caiu na cabeça de Newton e o pôs a pensar!
Não sei se me estou a fazer entender?
O escritor, sendo-o de ocasião pode bastar-se da inspiração? Talvez, mas sendo profissional se calhar não pode... digo eu na minha ignorância.
Não me parece que a obra de Camilo Castelo Branco fosse "de inspiração"... ou seja, era, mas a inspiração vinha porque era o seu trabalho, ver, observar e inspirar-se onde os outros apenas veriam um caso... ele via um romance!
Estarei a tropeçar nos meus pés, e a falar do que não sei? Certamente que sim, e perdoem!
Mas é um tema muito interessante e estimarei ouvir quem sabe disto mais do que eu.
Saudações inspiradas!
Perdoem: a tal "loucura", a perturbação que referem, é uma fonte de inspiração, julgo que ao nível do inconsciente, mas é natural! O que se passa é que seres perturbados se entregam ao alcool e drogas. Não se espere que a genialidade venha desse consumo... só a imbecilidade!
EliminarDigo eu...
Ontem vi um filme de terror tão mal escrito que agora estou a escrever um guião!
EliminarNão resisto o pôr aqui a versão integral da intervenção do Ruben Fonseca: Foi brilhante e divertidíssima!
ResponderEliminarE vem muito a propósito!
http://youtu.be/QqjLOOs8h5k
Foi um dos momentos altos das Correntes: Magistral!!
Quanto à inspiração, implorava Sophia :
ResponderEliminarPudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Quanto ao trabalho, propõe-nos Ramos Rosa:
Aprender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a própria sede
talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria
Bem vistas as coisas, para responder ao que verdadeiramente interessa, que são os convites da vida suspensos na surpresa dos instantes, há que voltar atrás e viver a sombra enquanto a palavra não existe. Só assim as palavras serão inicialmente matéria fiel à matéria.
Estou a ver bem as coisas?
Joaquim Jordão
acima da inspiração e da transpiração, está o talento.
ResponderEliminardepois virá a inspiração e a transpiração, cujas doses variam sempre da qualidade do artista. :)
Luís muito obrigado pelo livro e pela dedicatória! Quando acabar de ler digo o que achei. Um abraço!
EliminarJoão, também agradeço o livro, que lerei logo que possível (estou a acabar a "anatomia dos mártires", do João Tordo (nem de propósito...) e também tenho de ler "As minas de salomão", para ajudar o meu filhote na escola...
Eliminara seguir será o Frederico Garcia e também direi alguma coisa. :)
abraço
Crispando permanente semblante
ResponderEliminarviajam aguçadas falenas
eternas lyras, cantantes
encantos, seixos, Helenas
são naves, são naves
flamejantes estrelas e cidades
abrem-se em férteis horizontes
retratam, santas idades
descrevem, cavaleiros aos montes
candeias respiram este fogo
ardis e milenares oliveiras
meditam revezes do rogo
caminhantes nuvens das eiras
e todo raio que desce
encontra no solo a paz
em pedras sagradas da prece
saberes de vórtice capaz
são aves, são aves
fora este solstício criança
outrora, canções da catedral
porta heráldica da esperança
que teu seio amamenta, oh Portugal!
A mim parece-me que o talento inato é fundamental. A boa loucura também.
ResponderEliminarMas também os tempos de ócio. A ociosidade prolongada leva-nos à inspiração ou, pelo menos, à vontade de fantasiar/criar. Depois vem o trabalho prático.
E aí, são necessários mecanismos que levem à concretização das ideias. O pegar no pincel ou o colocar de uma folha por entre as hastes da máquina de escrever.
Depois vêm os "auxiliares". Hemingway apreciava o whisky; já Anton Tchekhov criticava ferozmente o consumo de álcool. Não creio que seja essencial. Mas pode ajudar, assim como o ar puro, os banhos frios (como Ruy Belo fazia), as corridas, a música, etc
Um dos meus melhores "auxiliares" são os passeios com a minha cadela Lucy.
EliminarE a chuva, essa riqueza...
ResponderEliminarE que falta faz, à terra, aos artistas...
Tudo depende sempre do trabalho e do empenho, mas se a inspiração estiver distraída...
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