Inspiração e trabalho

O conceito de inspiração na criação artística em geral, e literária em particular, esteve em voga até aos anos sessenta do século XX. Dizia-se, por exemplo, que quando um escritor tinha um bloqueio diante da página branca estava sem inspiração. E a expressão ainda é de usada vulgarmente quando a obra de determinado artista deixa muito a desejar e alguém comenta que ele estava decerto pouco inspirado quando a realizou. Mas à questão da «inspiração» vieram vários artistas responder com a da «transpiração», querendo com isso dizer que as obras de arte não caem do céu e sem trabalho e persistência nada se consegue. Parece, aliás, que o celebérrimo Picasso terá respondido a um jornalista que lhe perguntou donde lhe vinha a inspiração para os seus quadros: «Inspiração? Não sei quem é. Quando aparece encontra-me sempre a trabalhar.»

Comentários

  1. O conceito de inspiração é-me estranho, tenho sempre muito mais ideias do que aquelas que consigo realizar, é antes o ânimo que me condiciona. Há dias em que escrever se me apresenta como qualquer coisa de mágico e outros em que penso "para quê?". Nunca transpiro, talvez por não ter metas definidas. Se considerasse escrever um trabalho, nunca lhe tocava.

    ResponderEliminar
  2. Os gregos inventaram as Musas, filhas de Zeus e da Memória.

    ResponderEliminar
  3. A inspiração traduz o jogo de alegoria e sentidos, palavra em movimento que ascende pela ternura ao outro. Querer conquistar é ser implacável, somente a conquista é tão terrível e arrebatadora. Absorver é sorver pelos laços da acção. Há, quem idealize a comiseração do outro, de si ou, dos tempos, dos lugares; como há, quem nem saiba da circunstância, importância e necessidade da expressão ativa.
    O descontrole, incontinência, incredulidade. Nada, sou eu. Então, quem sou eu? Um sopro. Ser que respira, expira, inspira e inspira-se. Contemplar a vida, inspiração.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Lua

      Tão azul tua cidade e nua
      que canta meus olhos
      de noite escura
      de desejo e pura
      saudade,
      de ter
      de ter
      e ver
      nos teus olhos a lua

      Eis, da alma tua figura
      são olhos
      são olhos de ter
      que tens, oh lua,
      para mim de noite escura
      ser tua cidade mais pura
      onde a saudade
      quer um azul de lua
      e vem, te ver...




      Contemplando o dia internacional da mulher.

      Eliminar
    2. Das ferramentas que o mundo conspira: oferece ao longo da existência a formação por trajetória da vivência, o aprendizado é ocaso, é o confronto com a natureza inquieta do ser, por dominar o desconhecido, de maneira minimizada, pois ao longo da infância e adolescência, até a fase adulta, tem-se a vaga noção de quão adequamos o espírito de compreensão por descobrir-se ao mundo e integrar-se a realidade; porém da maturidade, depara-se com o mundo imaginário à parte, enquanto a realização dos sentidos correspondera à expressão do que fora nossa lembrança, da ousadia perante as primeiras experiências ou acções de: medo, prazer, dor e amor.
      O simples, 100% de inspiração.
      A formação de uma criança é arte pura e experimental, e como criança invencível de imaginação, a boa nova é que, todos nós já passamos por isso, sabendo reconhecer na arte, a beleza da vida.

      Eliminar
  4. Inspiração e trabalho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. 25% de inspiração, 75% de trabalho.

      Eliminar
    2. Se isso fosse assim qualquer pessoa era escritor. 50% talento inato, 25% gin, 20% perturbação psicológica, 5% trabalho

      Eliminar
    3. Apoiado!! Tenho dúvidas quanto à distribuição das percentagens, mas concordo com essas variáveis (quase todas) e ...talento é fundamental!!
      Isabel

      Eliminar
    4. O grande Rubem Fonseca também acha que a perturbação psicológica é fundamental. A percentagem é que parece ser bem maior do que a apontada pelo Courinha...:)
      Ora confira aqui, neste vídeo,que roubei no youtube, feito pelo José Mário Silva do Bibliotecário de Babel. Mostra parte de brilhante intervenção do Rubem Fonseca, nas Correntes d´Escritas. Para ele a loucura é o fundamental num escritor, depois tem de ser um pouco alfabetizado ( não precisa muito...), tem de ser paciente, motivado e imaginativo. Genial!:)

      http://youtu.be/A8hrrqNqUKk

      Eliminar
    5. Talento é fundamental. Mas apenas com talento não se vai a lado nenhum. Como a autora deste blogue já aqui disse: escrever, reescrever, apagar, tornar a escrever, corrigir - isso sim. Essa persistência é que acaba por fazer o escritor. Se bastasse o talento, haveria mais escritores, como haveria mais músicos, mais cantores, mais pintores, mais bailarinas, etc. Penso que será isso que Picasso quis dizer com a sua frase. A inspiração poderá ser útil num determinado momento, mas, depois, vem o trabalho. E aí só a concentração e a disciplina ajudam.
      Também não me parece que o álcool seja boa solução, só se for com dose controlada (fora festas e outras ocasiões de excesso, para quem gosta).
      Perturbação psicológica? Sem dúvida. Mas isso temos todos. O escritor será aquele que a reconhece, a aceita e que acaba por usá-la para seu benefício. Explorar as nossa perturbações psicológicas pode até ser uma fonte de inspiração.

      Eliminar
    6. Uma dose certa de "um pouco de tudo" faz qualquer um "bom em qualquer coisa", talvez não um génio... Para isso é preciso capacidade de evoluir, talento para saber desistir quando esse não é de facto o caminho, persistência para procurar as melhores pessoas para nos ajudar a conseguir a qualidade que um dia se pretende ter.

      Há um momento em que as palavras fluem com mais facilidade, talvez os distúrbios e a necessidade do escritor se expressar, contribua. Concordo que isso, por si só, não faz um grande escritor...
      Isso misturado com uma quantidade de esforço, e uma teimosia pela perfeição, podem fazer a diferença entre a moda, e a eternidade de uma obra...

      Tudo o que é arte, já nasce connosco... Fazer evoluir, construir e permanecer no mercado a fazer mais se gosta, isso é qualidade de vida... mas ninguém disse que essa qualidade de vida é fácil de alcançar. ;)

      Eliminar
  5. António Luiz Pacheco8 de março de 2012 às 08:42

    Hum... interessantíssima discussão!
    Tendo a concordar com a Cristina T. mesmo que não me atreva a quantificar.
    Não tanto com o
    J. Courinha, se bem que o entenda. E entendo porque somos amadores, logo a inspiração prepondera... já o mesmo não posso dizer quanto às dezenas de artigos que escrevi (pagos) para revistas... ou até dos relatórios. Esses são trabalhados, são feitos com mais ou menos inspiração, mas são trabalho e às vezes encomendados... há então que puxar pela idéia; e ela ocorre... ou não! É trabalho...
    Então a inspiração não conta?
    Sem dúvida que sim! Atrevo-me a dizer.
    Acredito que é aquilo que distingue o génio do homem comum - ainda que inteligente.
    Mas a inspiração não se alcança por graça divina nem a esperar por ela, seja através de estímulos (álcool) ou quando as Tágides decidem salpicar-nos... Tenho para mim que ela também se procura, e tudo o que tenho ouvido ou lido, me conduz a essa idéia.
    A inspiração pode ter origem ao nível do subconsciente (génio) ou do inconsciente (aquele que tem um rasgo). E resultar de estar atento, interpretar as mensagens que o cérebro ou os sentidos recebem, assim como a maçã caiu na cabeça de Newton e o pôs a pensar!
    Não sei se me estou a fazer entender?
    O escritor, sendo-o de ocasião pode bastar-se da inspiração? Talvez, mas sendo profissional se calhar não pode... digo eu na minha ignorância.
    Não me parece que a obra de Camilo Castelo Branco fosse "de inspiração"... ou seja, era, mas a inspiração vinha porque era o seu trabalho, ver, observar e inspirar-se onde os outros apenas veriam um caso... ele via um romance!

    Estarei a tropeçar nos meus pés, e a falar do que não sei? Certamente que sim, e perdoem!
    Mas é um tema muito interessante e estimarei ouvir quem sabe disto mais do que eu.

    Saudações inspiradas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de março de 2012 às 08:49

      Perdoem: a tal "loucura", a perturbação que referem, é uma fonte de inspiração, julgo que ao nível do inconsciente, mas é natural! O que se passa é que seres perturbados se entregam ao alcool e drogas. Não se espere que a genialidade venha desse consumo... só a imbecilidade!
      Digo eu...

      Eliminar
    2. Ontem vi um filme de terror tão mal escrito que agora estou a escrever um guião!

      Eliminar
  6. Não resisto o pôr aqui a versão integral da intervenção do Ruben Fonseca: Foi brilhante e divertidíssima!
    E vem muito a propósito!

    http://youtu.be/QqjLOOs8h5k

    Foi um dos momentos altos das Correntes: Magistral!!

    ResponderEliminar
  7. Quanto à inspiração, implorava Sophia :

    Pudesse eu não ter laços nem limites
    Ó vida de mil faces transbordantes
    Para poder responder aos teus convites
    Suspensos na surpresa dos instantes!

    Quanto ao trabalho, propõe-nos Ramos Rosa:

    Aprender com as palavras a substância mais nocturna
    é o mesmo que povoar o deserto
    com a própria substância do deserto
    Há que voltar atrás e viver a sombra
    enquanto a palavra não existe
    ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
    ou um cântaro voltado para a própria sede
    talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
    para que possamos coincidir com um gesto do universo
    e ser a culminação da densidade
    Só assim as palavras serão o fruto da sombra
    e já não do espelho ou de torres de fumo
    e como antenas de fogo nas gretas do olvido
    serão inicialmente matéria fiel à matéria

    Bem vistas as coisas, para responder ao que verdadeiramente interessa, que são os convites da vida suspensos na surpresa dos instantes, há que voltar atrás e viver a sombra enquanto a palavra não existe. Só assim as palavras serão inicialmente matéria fiel à matéria.

    Estou a ver bem as coisas?

    Joaquim Jordão

    ResponderEliminar
  8. acima da inspiração e da transpiração, está o talento.

    depois virá a inspiração e a transpiração, cujas doses variam sempre da qualidade do artista. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Luís muito obrigado pelo livro e pela dedicatória! Quando acabar de ler digo o que achei. Um abraço!

      Eliminar
    2. João, também agradeço o livro, que lerei logo que possível (estou a acabar a "anatomia dos mártires", do João Tordo (nem de propósito...) e também tenho de ler "As minas de salomão", para ajudar o meu filhote na escola...
      a seguir será o Frederico Garcia e também direi alguma coisa. :)

      abraço

      Eliminar
  9. Crispando permanente semblante
    viajam aguçadas falenas
    eternas lyras, cantantes
    encantos, seixos, Helenas

    são naves, são naves

    flamejantes estrelas e cidades
    abrem-se em férteis horizontes
    retratam, santas idades
    descrevem, cavaleiros aos montes

    candeias respiram este fogo
    ardis e milenares oliveiras
    meditam revezes do rogo
    caminhantes nuvens das eiras

    e todo raio que desce
    encontra no solo a paz
    em pedras sagradas da prece
    saberes de vórtice capaz

    são aves, são aves

    fora este solstício criança
    outrora, canções da catedral
    porta heráldica da esperança
    que teu seio amamenta, oh Portugal!

    ResponderEliminar
  10. Vicente Lopes Saudade8 de março de 2012 às 14:47

    A mim parece-me que o talento inato é fundamental. A boa loucura também.
    Mas também os tempos de ócio. A ociosidade prolongada leva-nos à inspiração ou, pelo menos, à vontade de fantasiar/criar. Depois vem o trabalho prático.
    E aí, são necessários mecanismos que levem à concretização das ideias. O pegar no pincel ou o colocar de uma folha por entre as hastes da máquina de escrever.
    Depois vêm os "auxiliares". Hemingway apreciava o whisky; já Anton Tchekhov criticava ferozmente o consumo de álcool. Não creio que seja essencial. Mas pode ajudar, assim como o ar puro, os banhos frios (como Ruy Belo fazia), as corridas, a música, etc

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um dos meus melhores "auxiliares" são os passeios com a minha cadela Lucy.

      Eliminar
  11. Vicente Lopes Saudade8 de março de 2012 às 14:49

    E a chuva, essa riqueza...
    E que falta faz, à terra, aos artistas...

    ResponderEliminar
  12. Tudo depende sempre do trabalho e do empenho, mas se a inspiração estiver distraída...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório