Memória e ficção
Esteve de novo recentemente em Portugal a romancista espanhola Rosa Montero, autora dessa obra genial e diferente de tudo o que li até hoje intitulada A Louca da Casa, cuja personagem principal é, no fundo, a imaginação. Levada desta feita a reflectir sobre o peso da memória na ficção, na sua e na dos outros, contou uma história surpreendente que, até certo ponto, complementa o referido livro. Rosa tem um irmão com o qual cresceu e não existe entre ambos grande diferença de idade. Separaram-se naturalmente quando saíram de casa e, porque o irmão veio entretanto viver para Portugal, vêem-se agora muito menos. Quando se encontram, por isso, não resistem a recordar os tempos em que eram pequenos e brincavam juntos na mesma casa. Ouvindo o irmão falar sobre a infância e a vida em família, Rosa Montero ficou, no entanto, completamente perplexa e confessou: «Não é possível que tivéssemos os mesmos pais. Os meus não tinham nada que ver com o que ele recordava.» E, para concluir, avançou com uma proposta bem interessante: «A memória é uma história que contamos a nós mesmos.»
Senão, leiamos "Sob o olhar de Medeia" de Fiama Hasse Pais Brandão"! Que linda memória tão bem historiada!
ResponderEliminarA este propósito, também podemos ler The sense of an ending de Julian Barnes.
ResponderEliminarTambém me ocorreu esse livro - "O Sentido do Fim" do Julian Barnes - que li, há poucos meses, e que gostei muito. Tenho a mania de sublinhar e escrever nas margens dos livros e recordei-me de imediato dessa passagem: sinto-a muito verdadeira!
Eliminar"Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contamos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas - principalmente - a nós próprios"
Da Rosa Montero apenas li o Instruções para salvar o mundo" e gostei bastante. Fiquei curiosa sobre o "A Louca da Casa". Vou espreitá-lo. Se o encontrar nas livrarias...
EliminarÉ um livro de que gosto muito. Citei o título original, porque The sense of an ending não é igual a O sentido do fim. A diferença pode parecer pequena, mas, em minha opinião, não é.
Percebo muito bem o que quis dizer: não é exatamente a mesma coisa. Mas, confesso, não tinha reparado nessa diferença.
EliminarTambém adorei o livro. Tenho-o todo sublinhado e cheio de anotações. É daqueles livros que não empresto, jamais. Já está demasiado personalizado:)
Tive a sorte de chegar às Correntes no momento em que a Rosa Montero começou a falar e foi uma das intervenções que mais gostei. Deixou-me a pensar, precisamente por causa dessa história. Foi um excelente contributo!
ResponderEliminarCláudia Moreira
um dos livros da minha vida, graças a uma querida amiga que mo ofereceu.
ResponderEliminarCada qual tem uma acta de impressões, cuja memória é a transparência por verdade do tempo ou, seja, crescer é tatear um encontro consigo, eis, transborda o sentimento da fixação, ou o desejo secreto de pequenas vitórias.
ResponderEliminarA loucura é o profundo desejo de não ser.
Que poder corrompe um louco, sendo que a loucura tudo pode.
EliminarMas, a loucura teria direito de corromper lembranças sendo a fina-flor da imaginação um abismo de necessidades?
EliminarO ter humano é um ser inacabado.
«Instruções para salvar o mundo» foi um livro que adorei, pelo menos é essa a memória que tenho do acontecido...
ResponderEliminarApelando à vossa Extraordinária paciência e boa-vontade, vou atrever-me a mais um disparate, e desta vez correndo risco de ser dos grossos!
ResponderEliminar- Creio que a memória é mais um fruto da nossa inteligência e condição de ser humano.
Os animais têm-na simples, mas nós têmo-la elaborada o que nos diferencia deles e dá as vantagens que se sabem. Portanto essa memória entra no processo de selecção e síntese das idéias e por isso é "trabalhada", e neste caso também de mistura com sentimentos.
Portanto até que ponto a nossa memória é uma ficção? Até que ponto é exacta? E quanto difere de pessoa para pessoa?
Diria que a memória é como o pensamento e faz parte da diversidade, que é uma das maravilhas do ser humano.
Não tenho grande dúvida em aceitar como facto que as memórias vão sendo moldadas ao longo da vida à nossa personalidade.
Julgo que a memória é importante num escritor como a tal fonte de inspiração, mesmo que não seja a realidade e sim o que ele quer lembrar ou como o recorda. Julgo que é isso a ficção ?
Perdoem-me esta presumida dissertação!
Um fim de semana Extraordinário para todos!
"A Louca da Casa" é um Livro Extraordinário (tal como "O Sentido do Fim" do Julian Barnes). Ambos mostram como o nosso Passado está em permanência a ser revisto à luz do nosso Presente mesmo que não nos apercebamos disso.
ResponderEliminarTambém tenho um irmão com pouca diferença de idade de mim (quase a mínima possível). E a frase «Não é possível que tivéssemos os mesmos pais» combina connosco na perfeição.
ResponderEliminarUma pergunta meio esparvoada ...
ResponderEliminarNinguém leu "Confissões" de Jean Jacques Rousseau? Aviso que é uma chatice das grandes... mas julgo que é bem exemplo do que aqui se fala...
E será que Henry David Thoreau em "Onde vivi e para que vivi", aquilo serão mesmo memórias, ou foi depois composto por ele?
Sinceramente acho mais honesto fazer por exemplo como Hemingway que terá usado a sua vivência para ficcionar os seus romances.
A honestidade e a loucura:
EliminarNa taça de vinho
o riso veio
tam farto de Rita
alheia a vida
exalta o seio
o riso do vinho
aroma do seio
tam cheia taça
e o alheio exalta
o farto veio
taças de aroma
vinho e veio
tam farta vida
o riso exalta
Rita e o alheio
aroma de vinho
no riso cheio
tam vida de Rita
alheio se farta
taça e seio...
A honestidade admite por loucura a fé:
Eliminarum cálice de vinho temperado com água.
Queria comentar mas não tenho nada de valor para dizer... Quando é que começamos a combinar o nosso encontro na feira do livro?
ResponderEliminarOra essa... não me diga que é por falta de memória?
EliminarAhahah!
Um abraço
Hehehehe nada disso! Se escrevesse tinha que escrever muito e sobre coisas que só tenho palpites. Assim fico calado e deixo-vos espalhar magia. Ainda por cima já vi que a Cláudia está on fire!
Eliminarboas pistas.
ResponderEliminarainda não li nada de Rosa e de Julien.
foram para a lista.
Sr Pacheco, os cento e vinte dias de gomorra que discutimos, ou melhor, que me recomendou, são deliciosamente problemáticos. Nunca sentiu ser notável em demasia para a simplicidade primordial que constantemente desejamos? Elas tentam e tentam e tentam, nós também tentamos numa outra latitude, tão distante quanto os nosso fluidos nos permitissem. Será tudo uma cabala? Uma divina atribuição de toscas virilidades? Espero que não. Creio na desvelada pulsão sexual, desejo-a, chamo por ela, quero pouco falar, escusar-me das minhas capacidades como quem troca um palácio por um bacalhau bem temperado. Estaria o Sr Pacheco ciente de tudo isto quando me enviou para Gomorra? Ou seria seu plano testar o seu passado no meu frígido futuro?
ResponderEliminarEu aconselhei-lhe a leitura de quê?
EliminarCreio que há equívoco...
Mas quem é que falou em leituras? Aconselhou-me foi um estilo de vida do qual eu sempre fui adepto! :)
EliminarAhhhh! É verdade... mas isso era suposto ser segredo, imaginem que eu velho sátiro ainda venha a ser acusado de o fazer perder!!!!
EliminarJá viu o que isso causará na minha reputação, qualquer que seja...
Ahahah!
Confesso por isso que com quem logo me identifiquei, foi o Duque de Clichy! E a minha mulher desatou a rir quando leu o capítulo: "Olha isto pareces tu com os velhos aqui do Graínho!"
Algumas pessoas já me falaram muito bem deste livro.
ResponderEliminarE o Miguel Sousa Tavares disse em qualquer lado que é um livro que qualquer aspirante a escritor deve ler.
Portanto, concluo que "A Louca da Casa" deve ser algo especial...