Primeiros romances

É muito difícil a um autor afirmar-se através de um romance de estreia no seu país – às vezes são precisos dois ou três e um bom prémio para o público dar, efectivamente, por ele, às vezes vive toda a sua carreira numa espécie de estranho anonimato e, quase a largar a vida, um qualquer estudioso descobre-o e recupera-o. Publiquei em 2010 o primeiro romance do actor André Gago, Rio Homem, e este foi afortunadamente galardoado com o Prémio PEN para primeira obra, mas isso não significou uma aproximação imediata do público ao escritor; em 2011, publiquei a obra de estreia de Nuno Camarneiro na ficção, No Meu Peito não Cabem Pássaros, que, apesar de ter sido objecto de várias críticas, ainda está a fazer o seu lento caminho na conquista dos leitores portugueses. No entanto, lá fora já parecem ter dado por estes dois autores – e ambos acabam de ser convidados para dois festivais do Primeiro Romance. André Gago vai dentro de poucos dias a Budapeste e Nuno Camarneiro será o representante português no Festival de Chambéry, em França, no próximo mês de Maio, depois de ter sido escolhido por cerca de 3000 leitores não profissionais entre muitos nomes possíveis. Haja uma boa notícia de vez em quando.

Comentários

  1. felizmente estes dois romancistas de primeiras obras estão bem apoiados.

    não conheço a obra de ambos mas gosto do título e da capa do livro do Nuno.

    ResponderEliminar
  2. Parabéns ao Nuno Camarneiro! Os 3 mil leitores franceses leram o livro do Nuno em Português?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado, Carlos.

      Pelo que me foi explicado (já depois de me ser dirigido o convite), o festival funciona com comunidades de leitores locais que votam nos livros. No caso de Portugal esta comunidade foi dinamizada pelas bibliotecas de Oeiras. Não sei quantos leitores participaram, mas creio que os 3000 se referem ao caso da França.
      Alguns trechos do romance serão traduzidos para que possam ser lidos e discutidos durante as sessões do festival.

      Eliminar
  3. Aí, outro dia, ouvi um jovem chamar a outro, de andróide...
    O diverso fora tão livre, e pensei. A inocência deve ser uma flor colorida!

    A gente as vezes, está tão condicionado a criatividade mostrar-se pela experiência, sequer consideramos a distância.
    Assim é o carisma na escrita de Camarneiro, completa de intimidade lúdica e jovial, é leve e surpreendente.
    Na certeza de Portugal está bem representado, por ambos.

    ResponderEliminar
  4. Boa tarde. Aproveito o post do dia para dizer que a próxima comunidade de leitores que se realiza na Biblioteca Municipal da Maia será dedicada aos jovens autores portugueses, isto é, cujas primeiras obras foram editados no pós ano 2000.
    De três em três semanas leremos e debateremos autores portugueses. Fazê-mi-lo, ininterruptamente, desde 2006...
    Jorge Silva

    ResponderEliminar
  5. O problema, na minha modesta opinião, é que falta promover estes autores novos. Não sei se a culpa é das editoras ou dos próprios meios de comunicação, mas até ouvir falar nesta participação, nunca tinha ouvido o nome do Nuno Camarneiro e foi com este blogue que soube que o Nuno Gago tinha publicado um livro.
    Mas o problema não é só dos novos, em centenas de blogues raramente encontro uma referencia a autores portugueses, autores da moda, não contam :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Desculpe mas parece-me que você anda um pouquinho distraída. Qualquer um deles, e em especial o do Nuno Camaneiro , teve bastante destaque nos sítios habituais. Tendo em conta tratarem-se de primeiras obras, e sendo um deles, totalmente desconhecido, foram até bastante comentados. Podem não estar, atualmente , em destaque nas livrarias mas esse mal é comum a qualquer escritor: não é apanágio dos estreantes.

      Eliminar
  6. Eu sinceramente culpo a distribuição pela falta de meritocracia na escrita. Parece-me evidente que uma editora que funciona em regime de pay-to-edit procure o maior número de autores possíveis, já que as suas receitas pouco dependem das vendas e os novos retailers nem sequer lêem os livros que têm nas prateleiras.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Acaba por acontecer o mesmo fenómeno a que assistimos com os vinhos em Portugal, existem tantas marcas que o consumidor tem dificuldade em encontrar o mesmo vinho duas vezes.

      Eliminar
    2. Ora! E, não é positivo? Sinal que são bem distribuidos, e todos que produzem são vendidos, tantos os nobres quanto os por consagrar.

      Eliminar
  7. Vicente Lopes Saudade21 de março de 2012 às 07:47

    O caso do André Gago é especial porque ele também é actor (talvez não se leve tão a sério como escritor, apesar do prémio - mas deveria!).
    Já o Nuno, ainda não li a sua obra, mas ter 3000 franciús a ler excertos ou trechos do seu livro é fantástico. Não são os franceses que adoram o Eça??

    ResponderEliminar
  8. Parabéns aos dois, de um colega que joga, por enquanto, na segunda-divisão.
    O romance do André Gago é muito bom. Fico feliz por estar a ser reconhecido.

    ResponderEliminar
  9. Fico contente por saber que eles estão a ser reconhecidos, fora de portas. Ainda bem! Parabéns a ambos! Infelizmente, ainda não li nenhuma deles, embora o livro do Nuno Camarneiro esteja, há largos meses, na lista dos lazeres urgentes.
    Tanto livro bom e eu sem tempo para nada! Meu Deus, este blogue angustia-me...:)

    ResponderEliminar
  10. Eu li o de Camarneiro que descobri por esta via extraordinária , e gostei muito. A propósito, não consegui identificar nele quem era o personagem que não era Borges, nem Pessoa, se bem me recordo Karl. Li algures, quem sabe aqui, que seria Kafka. Será? Algum outro palpite, alguma pista? Quanto ao de Gago, vou confessar um pensamento preconceituoso: olha, outro "artista" a escrever um livro! Já tinha percebido que me precipitei e terei de rever a posição lendo-o, tanto mais que não é afinal um ator qualquer.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É, sim, o Kafka, mas através de uma personagem de um dos seus livros.

      Eliminar
    2. Muito obrigado. Agora já sei - América -, mas não chegava lá, pois estive sempre fixado na ideia de que seria, tal como os outros, um escritor. Por outro lado, nunca li a referida obra de Kafka . É esta rede de conhecimento que se vai estabelecendo aqui que me agrada. Bem haja.

      Eliminar
  11. Na inutilidade vaga o sol
    vaga um calor de imensidão
    se esta estrela, for tua tristeza
    será o deserto meu coração

    na inutilidade vagará meu ser
    vagará um ser na amplidão
    se este perder-se, for tua beleza
    será completo meu coração

    desta paixão na sutil aragem
    querer-te-ia ao último, miragem
    vagaria a querer-te, até em visão

    se útil, perdera-se na inutilidade
    desta mestra que fora saudade
    em saber-te oásis, amainada solidão.



    Boa noite!

    ResponderEliminar
  12. A dificuldade de fazer "ver" o primeiro romance e de poder vir a pubicar outros, do mesmo ou de outro tipo, são preocupações importantes para quem, como eu, vai estrear-se (em Abril, Porto Ed.). Sobretudo em ano de crise...
    E já nem estou a pensar na crítica, que, como estreante que sou, hei de ter muito a escutar e crescer.

    ResponderEliminar
  13. Escreve e apaga e apaga e apaga. Envergonha-se tanto de escrever... Conta à mãe que não liga... Lê para crescer, curva-se porque leu. Joyce dança-lhe na corcunda e ele chora. Relê o que é seu, amaldiçoa-se e imagina-se doutor. A bata dança-lhe na alma e ele chora. Explora a poesia... ai ai ai... tantas regras! Desiste e limpa os olhos à manga da camisa. Regressa à prosa e falha e apaga e apaga e apaga. "é bonito não é pai?" "é, é. estuda para seres doutor" e a bata rodopia. Um dia já mais velho, triste como Deus quis, leva a mão ao bolso da bata e puxa de um antigo escrito seu, "o que tem aí doutor?" "restos de um menino contente".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ahhhhh! Força Courinha.

      Eliminar
    2. "Extraordinário" Courinha, que texto tão bonito...Já tenho o seu livro nas mãos, oxalá me dê tanto prazer em lê-lo como li este texto.
      Isabel

      Eliminar
  14. É, de facto, uma boa notícia. Ambos merecem destaque, na minha opinião, mas Rio Homem, de André Gago precisa mesmo de ser lido, até para se resgatar algo de importante da vida e das memórias ibéricas na primeira metade do século XX.

    ResponderEliminar
  15. O Festival du Premier Roman conta de facto com cerca de 3000 leitores divididos entre grupos de leitores maioritariamente franceses (à volta de primeiros romances franceses) e grupos de leitores em inglês, alemão, espanhol, romeno e, a partir deste ano, em português. Todos eles estão espalhados por bibliotecas, instituições culturais, etc. e têm um objectivo comum : o de ler os primeiros romances de cada um destes países, votar nos que mais gostaram para depois seleccionarem um escritor (em alguns casos dois) que será convidado a participar no festival de Chambéry , no mês de Maio.

    Os grupos de leitores para os primeiros romances portugueses este ano ainda não estavam constituídos, só se formarão a partir do próximo mês de Setembro, em Portugal e em França. No entanto, para celebrar os 25 anos do festival, a chegada de Portugal, mas também para dar maior visibilidade a este novo projecto e divulgá-lo de forma concreta o festival decidiu convidar um escritor português já este ano, que foi seleccionado pelos bibliotecários das Bibliotecas Municipais de Oeiras!

    É um prazer saber que o Nuno Camarneiro vai a Chambéry !

    ResponderEliminar
  16. As Bibliotecas Municipais de Oeiras, parceiras do Festival do Primeiro Romance de Chambery, ficam muito satisfeitas por terem ajudado na divulgação do livro "No meu coração não cabem pássaros" ao terem escolhido o escritor Nuno Camarneiro para representar Portugal no Festival do Primeiro Romance.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório