A dama de ferro e a literatura

Goste-se ou não de Margaret Thatcher, há um filme sobre a dama de ferro que importa ir ver. Não porque nos dê uma imagem mais cândida da senhora que governou a pulso o Reino Unido (alguns dirão que existe esse perigo) ou porque nos mostre a mulher por detrás da figura política que alguns de nós conhecemos bastante bem. Tão-pouco – embora essa razão já fosse mais do que suficiente – para ver a performance de uma Meryl Streep que se ultrapassa a cada novo trabalho. Este é um blogue confesso sobre livros e, se sugiro que A Dama de Ferro deve ser visto, é também por causa da literatura. Ultimamente, reparo que alguns guiões devem bastante à «arte da escrita» e, no filme em causa, há um diálogo-monólogo da senhora Thatcher envelhecida com o médico que a observa que é pura literatura. Quem me dera que muitos dos livros que me passam pela mão tivessem passagens tão inteligentes e ao mesmo tempo tão esteticamente irrepreensíveis; mas, parafraseando o que também se diz a páginas tantas no dito filme (e, repare-se, a expressão «páginas tantas» saiu-me como se se tratasse de um livro), agora muitos autores já não querem «fazer» coisas, mas apenas «ser» alguém...

Comentários

  1. Nem de propósito! Vou já roubar este post para vos por todos a ver Downton Abbey! Mas primeiro tenho que dizer que a Meryl Streep está muito bem, que é uma pena, em termos de prémios, ter calhado em simultâneo com a performance da Glenn Close (faz de homem de forma irrepreensível) e que as pessoas que têm medo que alguma figura histórica mazona demonstre que tinha um lado bom, são perfeito idiotas. Já estou a ver o Hitler a assobiar o Mary had a little lamb enquanto comia algodão doce à porta da thule gesellschaft. E agora tãrã rã RÃ! Downton Abbey! Esta maravilhosa série começa no norte de Inglaterra, na altura de um terrível desastre, o Titanic. O paquete soçobra e cria um problema de sucessão em casa de uma família nobre de Yorkshire. Ficamos a conhecer Downton Abbey e os seus dois mundos principais, o dos Senhores e o do Serviço. Em nem acredito que vou dizer isto, mas a construção das personagens, as relações entre elas e o realismo da história não ficam a dever nada ao Guerra e Paz. Vejam, se não gostarem eu como a minha cartola!

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    1. Amigo Courinha :
      Também já ouvi falar maravilhas dessa série e já espreitei um episódio: pareceu-me excelente. Tanto que vou procurar saber se já existe, à venda, em DVD: gosto de ter a s séries que me interessam verdadeiramente, e vê-las ao meu ritmo. Há dias que gosto de apanhar barrigadas de series: com frequência vejo 2 ou 3 episódios seguidos. Se ainda não tiver saído, prefiro esperar.

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    2. Eu em dois dias vi 14 episódios de uma hora... o que faz de mim um indivíduo com problemas...

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    3. Estimado Courinha, é muito animador saber-se com problemas! É como se fora um pescador indo para o mar, sabendo que terá problemas em puxar a rede em virtude da quantidade de peixes. Diga-se, o problema maior ainda não é este, é que faça chuva ou sol, o mar espera-o, e ele terá de lançar a barca, fazendo força de pés e mãos, na areia, arrastando-a até a quebrança incansável das ondas, e por dizê-las ao desconforto, ao embate. Porém, mais problemático será o retorno, lutando contra ventos, suportando frio, fome e sede pela problemática função existencial.

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    4. É bem verdade Cláudia, mas quando pensamos bem nisso, é o nosso frio, a nossa fome e a nossa sede, que liberta todos aqueles que se julgam felizes num sonho irresponsável.

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    5. Caro João Courinha-Ainda não vi o filme da Glen Close mas não me esqueço do que ouvi uma vez ao MONSTRO DO CINEMA (ao maior de sempre) MARLON BRANDO, dizia ele que difícil não é fazer de homem coxo difícil é fazer de homem normal...e MERYL STREEP é o feminino de MARLON BRANDO -A MONSTRA DO CINEMA, logo absolutamente intocável na 7ª. arte!

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  2. António Luiz Pacheco1 de março de 2012 às 03:41

    Julgo que nem o teatro (o antepassado do cinema) nem o cinema, existiriam sem uma base, que é a literatura!
    Tem sempre de haver um guião... a não ser numa peça ou filme de improviso!

    A literatura será a arte de contar pela palavra escrita, pela descrição. O teatro/cinema a arte de contar pelo gesto e a imagem, pelo desempenho.

    Estarei a pensar bem, eu?

    Amigo Courinha , há séries que são de facto obras-primas quer pela qualidade do argumento e dos diálogos, quer pela sua fundamentação histórica, sociológica, antropológica, cultural... o humor, sobretudo quando espelhem as gentes.
    Seja o Allo allo , Os Soprano, Gabriela...
    Isso faz delas boas séries, como faz de um romance um bom romance... digo eu cá na minha prosápia de barrão ignorante.

    Saudações do campo

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  3. Belíssimo filme, esse!
    E a excelência do texto é fundamental para o resultado final, sim. Se bem que a prestação da Meryl Streep é portentosa!
    Acho que o sucesso de um filme se deve à conjugação do talento dos vários intervenientes. O bom trabalho de um, não subsiste sem a boa prestação dos outros. Para se ter um filme excelente, é sempre preciso que os génios se juntem todos. Por isso a maior parte dos filmes não passam da mediania ( e alguns muito mauzinhos...). Mesmo quando têm bons atores e/ou bons realizadores.

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  4. Meryl Streep, por si só vale a pena vê-la, será sempre uma diva da representação.

    E sim, concordo perfeitamente, muitos dos filme devem o seu sucesso à escrita... Dan Brown com a sua imaginação - não tanto pela extraordinária escrita - no entanto também contribuiu. O

    famoso Senhor dos Anéis, quanta trilogia cinematográfica não existe ...

    Harry Potter de J. K. Rowling que alimentou a minha imaginação de criança.

    Até Ensaio sobre a Cegueira do nosso Saramago, fez crescer o cinema. Grandes ideias, de grandes escritores, pois não só a literatura é uma arte, não só a expressão de sentimentos, mas também a capacidade de grandes ideias, grandes contos de fadas, grandes conspirações até.

    O Ser Humano continuará sempre à procura de algo que o surpreenda... seja qual for o motivo, pois a rotina maça qualquer um...

    Talvez por isso, um dia, deixemos de ver Maria do Rosário como uma caçadora de talentos, é um trabalho que implica "ler muito lixo", mas alguém tem de o fazer ... ;)

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  5. Em primeiro lugar comunico que ouvi um trovão e que choveram umas esperançosas pingas aqui pelos lados de Oeiras Norte: há esperança, portanto. Depois, que já vi o filme da Dama de Ferro (e o primeiro episódio do Downton). A cena que mais me impressionou no filme foi quando Margareth olhou para o mapa rodeado de almirantes engonhantes, respirou fundo como faz CR antes de marcar um livre direto e disparou certeira: sink the ship!, - cito de cor, talvez tivesse sido the boat - e aí vai o Belgrano e umas centenas de sicranos. Poderoso! Gostei do filme, claro, curiosamente atual face à nossa realidade recente. O Downton também me pareceu bom até adormecer: a nossa tv generalista só põe coisas boas depois de embalar o pessoal das telenovelas ou dos debates sobre penalties roubados aos grandes e um tipo vai-se abaixo.

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  6. Aí vou eu abandalhar isto tudo com um offtopic brutal. Perguntei à minha editora quais seriam as actividades a levar a cabo no âmbito da Feira do Livro de Lisboa, responderam-me: Não vamos estar presentes. Porque a presença implica muito trabalho, é caro e não há retorno (o blog atrofia-se com aspas, mas isto é uma citação). O que é que eu hei-de dizer? Ás vezes só me apetece criar um site, dar os livros online e arrumar assim o caso, se de qualquer maneira os escritores não ganham dinheiro, ao menos não me maçava a aturar aquela gente. Pindéricos desgraçados...

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    1. Já o meu amigo António Telmo (paz à sua alma) dizia EDITORAS??? cuidado com esses tendeiros (os tendeiros que desculpem a comparação...)

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    2. João, não se queixe muito. Ao menos, tiveram a educação de lhe responder. Coisa que nem sempre acontece com alguns famosos editores, que pura e simplesmente ignoram os seus autores.

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    3. Eu cá não me queixo, simplesmente rescindo o contrato.

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    4. Só mais uma coisa, quando me queixo tenho a consideração de assinar as queixas.

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  7. Vicente Lopes Saudade1 de março de 2012 às 12:07

    Atenção a "Albert Nobbs", o filme com Glenn Close que não fica nada atrás da "Dama de Ferro". Aliás, em termos de guião/draft ultrapassa o filme de Meryl Streep. E ambas as senhoras interpretam monstruosamente bem.
    Se por um lado, vê-se uma mulher política, conservadora e com mão de ferro, a cair em demência, por outro, temos um 'homem' (ou mulher?) à procura de sentido para a sua vida.
    Aconselho também uma ida ao cinema para ver "O Artista". É simplesmente fantástico. Arrisco a dizer que se tornou já um clássico. Daqui a cinquenta anos vai ser visto como uma lufada de ar fresco no cinema, não só por ser a preto e branco e mudo, mas também pela história que é sempre actual e recontável. Ah, e é pura literatura todo o filme. Além da excelente banda sonora, que também ganhou o Óscar.

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    1. Concordo absolutamente. O Artista é excepcional.

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    2. O Albert Nobbs " é também um excelente filme, sem dúvida. E percebo lindamente o que o Courinha quis dizer: é pena terem concorrido simultaneamente porque ambas mereciam um prémio.
      Quanto ao "Artista" foi dos filmes que mais gostei nos últimos tempos: simplesmente genial! É diferente de tudo o que se tem feito até agora, de uma simplicidade ( aparente...) desarmante, cheio de pormenores deliciosos. Adorei! E com uma interpretação fabulosa do J. Dujardin : o Óscar foi mais que merecido. Só podia ser dele, mesmo! Acima de tudo porque é um registo completamente diferente de interpretação. Já não é assim que se interpreta. E ele despojou-se da técnica de representação atual e entrou completamente noutro registo. E de forma magistral! Fiquei completamente rendida.

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  8. Vicente Lopes Saudade1 de março de 2012 às 14:17

    "watch your thoughts for they become words

    watch your words for they become actions

    watch your actions for they become habits

    watch your habits for they become your character

    watch your character for it becomes your destiny

    what we think we become, and i think i am fine."

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  9. António Luiz Pacheco1 de março de 2012 às 14:23

    Livra... oq'p'ráquivái (escrito segundo o acordo otográfico ) - sim, eu escrevi otográfico !

    Eu só fui ver "Cavalo de Guerra" porque a minha mulher me apontou uma pistola à cabeça e fez outras ameaças que por pudor conjugal aqui não posso reproduzir... claro que me vinguei comprando os bilhetes para outro filme...

    É fixe!

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  10. ...agora muitos autores já não querem «fazer» coisas, mas apenas «ser» alguém...

    Uma das frases mais marcantes, (opinião pessoal) até o momento deste Blog da Dra.Maria do Rosário Pedreira. Diria que é hora de reflectir a respeito, onde do início ou, do fim de uma circunstância dos sentidos.

    Afinal, o que é ser um escritor?

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    1. António Luiz Pacheco1 de março de 2012 às 15:32

      agora muitos autores já não querem «fazer» coisas, mas apenas «ser» alguém
      (sic)

      Minha muito querida e insondável Amiga!
      A sua sabedoria é frequentemente como o azeite... percebe-me? Se não eu explico...
      (Ó camarada Severino, pense nisto... sabe que a verdade e a sabedoria são muitas vezes esconsas... eu sei que me entende e não leva a mal! Você é homenzinho quante baste...)

      Modestamente digo que já havia reparado!
      O rei vai nú E de que maneira...
      O onanismo é uma prática habitual entre os nosso autores, que escrevem para eles e não para os outros. Um dia conto quem me disse isto... parecerá inacreditável!

      Podem zurzir-me à vontade, tenho cabedal, não tenho vergonha e peguei toiros, sou agricultor... logo tou habituado a levar porrada ...
      Não passo se uma traça! Atravesso a ponte de vez em quando e julgo-me capaz de sentenciar!
      Preguem-me com o dum-dum "...

      Creia-me com o maior respeito e consideração

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    2. Olá colega Pacheco, entre literaturas, damas e ferro, o que de vossa preferência... Diz a boa língua que, o rei trás por veste a cabeça coroada!
      Quem sabe, não seria o nobre ASeverino um rei.

      Boa noite, reflexão Pacheco, até.

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    3. Ó meus amigos eu? um rei? sou somente um rude autodidata, que está a aprender (em cada momento que respira)...

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