Bons ventos do México
É bom quando nos passa pela mão o livro de um jovem – neste caso, uma jovem – especialmente dotado. O romance de estreia de Valeria Luiselli, mexicana a doutorar-se nos Estados Unidos, é um bom exemplo da obra de um escritor que já se vê que vai ser alguém no mundo das letras. Embora a sua intervenção nas Correntes d'Escritas não tenha sido extraordinariamente brilhante (foi, apesar de tudo, bastante aceitável), Rostos na Multidão é um livro de respeito, não só profundamente original na sua estrutura – que segue, a par e passo, narrativas distintas que se vão confundindo à medida que as páginas avançam – como profundamente informado sobre uma época (a que antecede imediatamente a Grande Depressão nos Estados Unidos) e alguns dos seus poetas: Ezra Pound, William Carlos Williams, o mexicano Gilberto Owen e o espanhol García Lorca, os dois últimos a residirem nesse tempo na Grande Maçã. Cruzando a história de uma rapariga mexicana que trabalha numa editora de Brooklyn e convence o chefe a publicar a obra de Gilberto Owen, cujo fantasma vê várias vezes no metro, a história do próprio Owen, que vê no metro uma rapariga que deve ser aquela no futuro, a história da mulher que escreve a história de Owen e pode ser a rapariga que trabalhou em jovem na editora de Brooklyn, enfim, este romance, muito elogiado por Vila-Matas, vai certamente dar que falar e agradará aos leitores que apreciam livros com alguma exigência e nos quais há qualquer coisa de duro e cruel sem que o tom e a linguagem percam beleza e contenção. Uma descoberta, em suma, muito feliz.
boa dica.
ResponderEliminargosto muito da literatura "latina-américa".
tem uma magia diferente.
Compartilho inteiramente o sentimento do Luis Eme... na literatura contemporânea a minha preferência vai para os Centro/Sul-Americanos...
ResponderEliminarUm dia havemos todos de falar aqui sobre isso, espero...
Pela descrição de MRP e pelo que entretanto "googlei", pode dar-se o caso de não ser propriamente um exemplo dos mais típicos de Literatura Latino-Americana. Interessante, em todo o caso.
EliminarA literatura mexicana marca a virada do milênio acentuando a característica de renovar a entrada de novos escritores, consolidando com premiações e crítica, com auge no top 10 de 2007, assegurando ser vitrine da moda, inclusive estadunidense. Talvez, das sementinhas e proximidade do escritor Gabriel Garcia Marques que optou por residir no México, de constante junto ao povo e do contexto, entronizando o pensamento com a força estudantil, cuja responsabilidade criou o realismo mágico na literatura latino-americana.
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EliminarEm um segundo momento poderia citar que a cultura mexicana é exibida também, através de novelas que são bem açucaradas, o que não deixa de ser a expressão da força literária, contribuindo com o movimento do romantismo de carteirinha, sul americano.
Atrevo-me a fazer uma pergunta, e espero bem que no âmbito do tema - burra, pois corro o risco que seja:
Eliminar- As telenovelas exprimirão de facto uma realidade e a cultura do país?
Ou exprimem aquilo que é o imaginário e o que se gostaria que fosse, ou até se compõe assim por uma questão de enredo?
Agora a minha habitual tergiversação:
- Vejam as nossas telenovelas portuguesas... eu não consumo, mas dou uma ou outra eventual espreitadela por curiosidade crítica e para aferir essa tal expressão da realidade.
E digo apenas: ridículo! Se aquilo é a sociedade portuguesa eu devo viver em Yakutsk ... até me cheguei a horrorizar com "Espírito indomável", só de pensar que podia ser visto ou tomado como aqueles inacreditáveis personagens de ficção social!!!
Penso que uma coisa são as novelas baseadas em autores como Jorge Amado... outra as dos autores que nem sei quem são (salvo o Manuel Arouca que francamente devia ficar pela Costa do Sol, ou de Tozés Martinhos que também...)
Por isso pergunto-me e por comparação:
Se aquilo não é Portugal, nem perto nem longe, é o Brasil? É o México?
Ou são apenas expressão da total e desejada ficção?
Caro Pacheco, as novelas segundo a dramaturgia representam quase um padrão cultural em diferentes conceitos, mas, de tendência capitalista faz reféns do círculo vicioso no terceiro mundo. Sobre as mexicanas são bons ventos, românticas e respeitosas, permeiam além da sensibilidade, assim por dizer a ética. Diferem de novelas brasileiras, umas mais, outras menos; valorizam em superlativos de êxtase, exploram luxo e sensualidade, violência, traição, amor e ódio, tencionando por chocar o público... A expressão televisiva emite personagens que vendem de facto o enredo, ao contraponto da impotência social no enfrentamento diário, oferecem o prazer aos pequenos vícios, os de riso miúdo, e servem a promiscuir o sentido da arte como realização humana. Praticamente a maior adversidade educativa no Brasil, com relação a massa crítica. Porém, infelizmente ou felizmente, fora assim que a maioria do povo vive, por reconhecer-se na Tv, imersos na pequena realização. No entanto, a mídia defende que é muito importante a dramaturgia brasileira e famosa no mundo. Os atores são heróis nacionais e as mazelas confundem-se com a ingenuidade do povo, também sendo fruto do questionamento de muitas pessoas, como uma vergonha.
EliminarFantástica! Não fazia a menor idéia até por total desconhecimento.
EliminarGrato pela explicação e pela forma académica. É uma garantia... para mim pelo menos.
Cumprimentos deste lado do mar!
Olá!
ResponderEliminarEspero não abusar do seu fórum ao colocar um link.
Eu tive a oportunidade de conversar com ela sobre "Rostos na Multidão" para o Diário Digital.
Deixo aqui a entrevista:
http:/ oplanetalivro.blogspot.pt /2012/03/entrevista-com-valeria-luiselli-sobre.html
Cumprimentos
Mário
Obrigada pela dica, será um complemento interesse!
EliminarApreciei a entrevista da escritora Valéria Luiselle embora jovem, atina pela serenidade e tem uma fluência cuja objetividade é imparcial. Chamou atenção a característica fundamental na precocidade o compromisso ou, foco no trabalho.
EliminarMuito obrigado! Fico contente por ter gostado. Espero que a "conversa" consiga fornecer algumas chaves de leitura.
EliminarQuando os escritores são assim...é muito fácil.
Felizmente ainda não apanhei nenhum que tenha sido mauzinho. :D
O engraçado destas "coisas" é a divergência de opiniões perante o trabalho da escrita.
Felizmente ainda não tive nenhum com (desculpe a expressão) masturbações intelectuais em que tudo na escrita é transe ou transcendência. Fico sempre com a sensação de que sou frígido, pois nunca tive um orgasmo a ter um livro..mas não era isto que eu queria dizer..esqueci-me...ah!
Valeria demorou anos a encontrar o ponto de vista e cortou, cortou, cortou depois de escrever; O Hollinghurst disse que pouco ou nada corta e que demora muito a escrever porque se distrai imenso...eheheh...
Aprende-se muito a falar com eles. Dá vontade de os raptar, trazê-los para casa e espremê-los até não terem mais nada para dizer.
Bj e muito obrigado
M
De facto aprende-se, mas, o específico caso de Valeria, ela também cita o convívio com outras culturas, o experimentar-se em outras línguas, permitir-se da identidade... São linhas, que rastreiam a sensibilidade, pois estimulam renovando pela descoberta, penso eu...Perdão de alongar-me, mas, enfim o vosso blog, também é algo de extraordinário, inovador e descente, se me permite.
Eliminarsim... a intertextualidade (relação do seu texto com outros textos) é muito forte. Ela demonstra uma segurança pouco comum para a idade dela. Enfim...tem poucos anos, mas muita leitura. No 2º aspecto parece uma veterana...
Eliminar... peca até pelo excesso... as demasiadas referências acabam por tornar-se cansativas - fiquei com a sensação que, com tão pouca idade, houve muita leitura e (ainda) pouca vivência - e até um pouco pretensiosas . Mas, de facto, no todo o romance é muito, muito bom. Veremos se se confirmam os vaticínios no próximo. Oxalá.
EliminarPLFF
percebo o seu comentário sobre o "excesso" de referências, mas não é pedantismo, garanto-lhe.
EliminarA forma como ela se expõe durante o próprio processo criativo é uma prova de uma grande honestidade intelectual. De alguma forma, ele coloca-se ao nível do leitor.
E isso da vivência.... é como os quilómetros. É nova, mas com muitos quilómetros percorridos. Mas não tomemos o livro como auto-biográfico.
Estamos de acordo em relação ao principal: o livro é excelente.
Um apontamento: não gosto de biografismo excessivo na literatura e observo com muita desconfiança as obras biográficas. Normalmente dizem mais de quem escreve do que da pessoa analisada na biografia.
Por isso, acho muito interessante o livro NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, Maria Isabel Barreno , Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Dom Quixote
Segundo me dizem, as cartas não mencionam a autoria, o que torna muito difícil qualquer tentativa de biografismo . Estou à espera de que o livro me chegue a casa..
Aliás, a importância da autoria nem sempre foi relevante...mas já me estou a "esticar"...
Abraço
M
Ela aproveitou, de forma muito inteligente, o próprio processo criativo ao introduzi-lo no romance mas não creio que se exponha assim tanto uma vez que se trata de uma ficção (nunca me passou pela cabeça que o romance fosse autobiográfico!)
EliminarA este propósito, deixo aqui uma sugestão de leitura: "O romancista Ingénuo e o Sentimental" de Orhan Pamuk, que disseca algumas destas questões.
Abraço
PLFF
Agradeço a sugestão de leitura!
EliminarJá tenho esse livro, mas está em fila de espera para ser lido.
De qualquer forma, deve ser bem interessante. Já o folheei e percebi que são ensaios sobre o processo de escrita. É uma área de que gosto muito.
Abraço e muito obrigado
M
Ora essa!
EliminarAinda só li a primeira palestra - trata-se de uma compilação das paletras proferidas pelo autor na Universidade de Harvard - mas parece-me que prenuncia uma excelente leitura :) sobre estes temas que nos fascinam!
Abraço renovado
PLFF
Enfim...
ResponderEliminarBlog sobre blog. Enfim... Tudo já é possível!
É o mesmo que eu ir a casa de alguém e levar a minha própria cadeira e colocá-la nessa outra sala de estar para me sentar.
O chamado - desaforo!
Ou então, má educação.
Ou ainda, falta de oportunidade.
Ou ainda ainda - "deixa-me cá aproveitar..."
...quando eu quiser dizer-lhe alguma coisa, digo-lhe pessoalmente. Não deixo comentários indirectos, nem posts anónimos.
EliminarÉ a si e cara a cara.
Mas sou eu que escolho o timing.
Não vejo nenhum problema. Agradeço até a partilha.
EliminarAnónimos? porquê? não percebo...creio que, por enquanto, ainda se vai podendo dizer alguma coisa, ou será que a PVDE já anda por aí...e ó anónimo este blogue é uma grande janela de libertação que nos permite dizer o que nos vai na alma.Aqui não há censura!
EliminarObviamente que quem faz o blogue defende a sua dama - mas quem o não faz? e não me parece, sinceramente, que em termos éticos haja algo de menos transparente, ou indigno.
Nobre ASeverino, onde não há censura, tecnicamente deveria sobrar a essência da ética, que é ser honesto consigo (self), autoestima ou honra da palavra.
EliminarOlá
ResponderEliminarParei por um daqueles acasos do destino, neste espaço onde me senti profundamente bem. Os meus parabens globais. A história dos autografos com pernas está simplesmente genial.
http://infinitoatlantico.blogspot.pt/
A falta que eu vos faço!
ResponderEliminaró se faz !
EliminarEstou de acordo com o Rufino e aquele anónimo, neste caso, não me parece estar certo. É bom quando se acrescenta e já lá vou espreitar a entrevista. Obrigada Rufino.
Courinha, não deixe de vir picar o cartão, ok? Se não houver cartão, sempre temos miolos ...
Isso é um comentário? Este é da mesma natureza, é certo, mas os anónimos servem para destacar trivialidades, a fim de tentar educar alguma mão que aproveita este espaço para mais que os posts acima da anfitriã. A propósito (afinal o meu comentário é diferente porque fala um bocadinho do que vai acima): ROSTOS NA MULTIDÃO foi uma surpresa daquelas que gostava de ter todos os dias.
EliminarOlha o Rufino! Mais um combatente! A equipa Anti-anonimous cresce!
ResponderEliminarTerei que o espreitar, de novo. Já o tive nas mãos e, confesso, não me despertou grande interesse. Mas aceito que possa estar ser vítima dos meus próprios preconceitos: é que não morro de amores pela literatura latino-americana. Particularmente no que ela tem do denominado realismo mágico. Mas há exceções , claro.
ResponderEliminarO realismo mágico tem como corrente a função social, não esquecendo que a américa espanhola é uma circunstância e américa portuguesa outra, lugares distintos no mesmo continente, e para melhor compreensão do contexto, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, fidelizou o projeto de Isabel Alende com o livro "As veias abertas da América Latina", que responde pela américa dos porquês...
EliminarMais uma boa escritora, com um estilo peculiar, a lembrar o de Júlio Cortázar...
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