Máscaras

Porque o contrato colectivo de trabalho que rege a minha actividade assim o estabelecia, pude fruir livremente a terça-feira de Carnaval e devo dizer que ela começou muito bem. Com o sol a morder as esquinas como em plena Primavera, fui com o Manel de manhã à Fundação Calouste Gulbenkian visitar a exposição sobre Fernando Pessoa, originária do Brasil, onde se inaugurou – creio – no Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo. Belíssima na sua concepção, com truques que fazem voar as sílabas dos versos e nos trazem sempre um novo texto, esta é uma mostra que exige tempo, porque Pessoa são muitas pessoas – o que, em tempo de máscaras, veio mesmo a calhar. Longe da curiosidade sobre os objectos pessoais que tantas vezes mina este tipo de exposição (e apesar da famosa arca), aqui as palavras tomam a dianteira e é nelas que os olhos devem pousar longamente, lendo, aprendendo, desfrutando, somando o novo a tudo aquilo que já sabíamos do grande poeta. Num dos painéis à meia-luz, fui assombrada por uma frase com grande actualidade, na qual o Pessoa ortónimo diz que, com tanta falta de literatura, como não haveria ele de, com o seu génio, inventar todos aqueles heterónimos? Noutro painel mais adiante, confessa-nos que não conseguiria ter um amigo íntimo, tímido como era. As suas máscaras foram, talvez, o que mais se aproximou disso. Em suma, não perca.

Comentários

  1. Amor-ódio é o que me conjura Pessoa. Ódio pelo que me forçaram a aprender Português decorando versos que não entendia. Amor porque depois entendi.

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    1. António Luiz Pacheco5 de março de 2012 às 03:49

      Mais do que ao post , dei particular atenção às palavras da nossa Extra-Blonde c/P:

      "Ódio pelo que me forçaram a aprender Português decorando versos que não entendia. Amor porque depois entendi." (Sic)

      Precisamente! No meu percurso escolar tive de ler ou decorar poesia. Creio que esta nunca me foi apresentada de uma forma que me levasse a entendê-la e a gostar!
      Só no antigo 5º ano tive um professor que me despertou para os Lusíadas. Infelizmente nunca mais nenhum professor o fez, explicando os conteúdos, a mensagem, como ler e interpretar poesia.
      Talvez por isso seja para mim um género a que dou pouca atenção e leio pouco, foi aos poucos com a maturidade percebendo que a minha descoberta de todos os dias é a espantosa realidade das coisas, e o quanto isso me espanta e me basta, mas só ao fim de 40 anos... ou seja, tarde!
      Explicar a poesia, fazer a sua ligação ao dia-a-dia e à realidade, à filosofia, à vida, às pessoas, como uma forma de expor tanto idéias como sentimentos, creio que foi o que me faltou a mim!

      É ainda um post extraordinário porque nos trás algo e põe a pensar afinal. Irei ver a exposição se ainda for a tempo...

      Saudações do campo!

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    2. Percebo lindamente o que diz. Acho que o Professor desempenha um papel importantíssimo, na adesão dos alunos à literatura.
      Felizmente tive uma belíssima professora de português, a Drª Conceição Teixeira, no liceu de Ponta Delgada, a quem gostaria de expressar, aqui, a minha imensa gratidão pelo forma como me transmitiu o gosto pela leitura e pela literatura. Incluindo Camões e os Lusíadas, sim. Ainda hoje sei alguns dos seus sonetos de cor, e recordo-me de os ter lido e estudado, com imenso entusiasmo. Desde Gil Vicente a Eça e Pessoa, soube sempre interessar os alunos e motivá-los. Confesso que tive imensa sorte. Foi um enorme privilégio tê-la como professora. Infelizmente, há perto de 30 anos que não sei nada dela, mas gostaria muito de reencontrá-la, um dia. Nunca lhe agradeci, nem lhe disse como ela foi importante na minha vida.
      Quanto à exposição, ainda não a vi mas, pelo que já li, parece imperdível, sim.

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    3. Realmente, e já não é a primeira vez que aqui o digo, literatura obrigatória é tão triste que me custa qualificar o conceito. O único livro de escola que gostei foi o felizmente há luar. Ouvi dizer que a rapaziada, hoje em dia, tem que ler o memorial do convento, o que é assim uma espécie de xanax on steroids... Ensinem mas é a ler e escrever e deixem que os que hão de ler não se tresmalham.

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    4. Realmente, teve sorte, ana. Não posso dizer o mesmo das minhas professoras de Português no liceu. Desmotivaram-me tanto (eu, que sempre escrevi bem), que, chegada ao 11º ano, devido às notas fracas, os meus pais meteram-me em explicações. Eram dadas por um professor reformado e esse, sim, despertou-me o gosto pela Literatura Portuguesa. As notas melhoraram num instante.

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    5. Perdões que não me fiz entender: aprender Português no Pessoa foi, no meu caso, aprender uma língua que me não é nativa. Decorar Pessoa foi como me puseram a falar e a ler Português. Um bocadinho traumático...:)

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    6. António Luiz Pacheco5 de março de 2012 às 13:20

      Pois ... mas é o mesmo! Ser obrigado a ler poesia sem a entender dá o mesmo resultado, seja em português, grego ou japonês...

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    7. Mas eu leio poesia e nem sempre sei se entendo... por vezes, nem me preocupo, deixo-me simplesmente ir.

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  2. Parabéns por este post!Tem qualquer coisa de diferente!

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  3. Ainda no post anterior, a Maria do Rosário dizia:

    «o primeiro decénio do novo século pariu muitos nomes interessantes (...) que não se ficaram pelas obras de estreia e têm dado grandes alegrias à literatura (...) com o que temos já podemos considerar-nos satisfeitos.»

    Aqui, diz:

    «fui assombrada por uma frase com grande actualidade, na qual o Pessoa ortónimo diz que, com tanta falta de literatura, como não haveria ele de, com o seu génio, inventar todos aqueles heterónimos?»

    Não há aqui uma "contradiçãozinha"?

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    1. Sim, de facto. Mas o que queria era dizer que há demasiada não-literatura para a literatura que há.

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  4. A quem possa interessar o estudo.


    Ensaio do Sócrates de Montaigne “Sobre a fisionomia”:
    Segundo Sócrates, a mobilidade da alma é um processo natural e simples. Assim fala um camponês, assim fala uma mulher. A boca de Sócrates só tem carroceiro, marceneiros, sapateiros e pedreiros. As induções ou símiles de Sócrates advêm das acções mais comuns e conhecidas do homem; todos podem compreendê-lo. Na base de uma forma tão humilde, talvez jamais identificássemos a nobreza e esplendor das idéias admiráveis de Sócrates, nós que consideramos simplistas inferiores todas as idéias que são elevadas pela erudição, e que só detectamos riqueza na pompa e no exibicionismo. Nosso mundo é formado somente de ostentação; homens inflamam-se a si mesmos com apenas vento, e saem quicando, como bolas. Esse homem não se propôs a fantasias ociosas: seu objetivo era nos prover de elementos e preceitos que servem à vida, de modo real e próximo:

    Resguardar o simples, manter o objetivo em vista, E seguir a natureza.
    Lucano

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    1. António Luiz Pacheco5 de março de 2012 às 05:13

      Querida e Extraordinária Amiga do Outro Lado:

      Perfeitamente de acordo... se me é permitido, e quem sou eu! Mas sim percebo e concordo, até aprendo...
      Se me permitir e desculpar a vaidade e o atrevimento transcrevo este trecho do romance "Largueza", volume I, pág. 65:

      - " São as diferenças que fazem maravilhosa a espécie humana! Mas, há que saber falar ao cavador como cavador e ao doutor como doutor, e, ouvi-los como aquilo que são. Reside aí muitas vezes o segredo de se avaliar bem e sobretudo de entender e ser entendido. Compete a quem tem o benefício da educação saber descer ao nível dos que são mais simples. De que te serve falares ao aprendiz como se falasses ao mestre? Nunca te entenderá, é claro… sai obra mal-amanhada e o asno foste tu! De que serve então punir o aprendiz? È puro abuso de poder, injustiça e só prova falta de entendimento porque tu é que não foste capaz de explicar o que querias!" (sic)

      - Lição do Conselheiro ao jovem morgado da Rebela-

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    2. Diria tão somente dos valores da arca, que vos expõe, em relação a famosa arca de Pessoa, e contenhamos da manha por não hospedar vaidades, pois o universo fora poesia enquanto Pessoa, fora pessoas no plural do singular. Gentilmente lições!

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  5. Lição por primeira:

    O fim da arte inferior é agradar
    O fim da arte média é elevar
    O fim da arte superior é libertar
    Fernando pessoa

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  6. Lição por segunda:

    O que há

    ...Há sem dúvida quem ame o infinito,
    Há sem dúvida quem deseje o impossível,
    Há sem dúvida quem não queira nada —
    Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
    Porque eu amo infinitamente o finito,
    Porque eu desejo impossivelmente o possível,
    Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
    Ou até se não puder ser…

    Álvaro de Campos – um dos heterônimos de Fernando Pessoa

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    1. Da terceira:


      Teu olhar cada dia aquece-me
      da luz que derrama na jornada
      feito luz recolhe-se a esperança
      e resplandece n’outra renovada

      então que a tristeza esmorece
      e perdoam-se entrelaçadas
      para o dia eis que obedece
      ao caminharem abraçadas

      esta fé resguarda a vida
      do archote com apreço
      de infinito e respectiva

      todo dia há o recomeço
      do encanto e perspectiva
      sem contrário, elaborada.

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    2. Como se estas pessoas tão cultas que habitam este blogue - a extraordinária dona e seus extraordinários leitores e comentadores - não soubessem que Álvaro de Campos é um dos heterônimos de Fernando Pessoa ...

      Por vezes o que é demais cheira mal ...
      Esbanjar sabedoria não é saber ensinar ...

      Enfim ...

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  7. Ao dobrar (qualquer) uma esquina, poderia vir ter aqui ou cruzar-me com o Alberto, o Álvaro ou outro, mesmo em Pessoa. De modo diverso, naturalmente, seria interessante. Sem máscara, que o baile já não vai de orquestra: só restam os bombos.
    Gostei e volto.
    Parabéns.

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  8. Aos escritores: Sobre a revisão - Concluí que rever tanto tem de colorido sonoro quanto de visual. Chamemos-lhe um truque, fiquemos gratos, acomodemos a cova dos joelhos a ombros de intemporais melodias. O escritor revê a virgem página na esperança de transplante sensorial, como quem explica o cor de laranja, como o sonho de um homem cego, do outro lado do livro está aquele que é nu para que o vistam de espanto. Dois seres, escritor e escrevido, dois outorgantes, promitente sonhador e promitente entretido, dois universos imensuráveis, existirá uma ponte sensorial? Acredito que sim, acredito na música. Se pretendo desenhar uma reconstrução, um epílogo para uma qualquer - natural ou não - inumana catástrofe, cavalgo a estação de Vivaldi em que se dá a ressurreição de todo um mundo verde e colorido. Inunda-me a inicial alegria de infante, vejo-me preocupado com qualquer coisa de terrível que a arrebata, sinto a chega da esperança, lenta, doce, titubeante, receosa de ofender os que velam por um cosmos perdido, saboreio um regresso à normalidade, vejo que está ferida, afago as profundas cicatrizes com a nostalgia dos vivos e o eterno descontentamento de quem é homem. Éden, Inferno e o nosso mundo. Enquanto ouço revejo, festejo e revejo, sofro e revejo, resigno-me e revejo. Procuro dissonâncias, sensações de estranheza, louro na carne de vaca, castello no gin, meias azuis em sapatos de ébano. BRRUUMM que um relâmpago me fulmina, Vivaldi avança e o escritor detém-se, a melodia reconstrói enquanto o romance se perde numa infinidade de deficiências de que o escritor padece, então corro, altero, rezo ao compositor, suo, corro mais um pouco, estico a mão, as minhas unhas acariciam as de Vivaldi que me agarra e me puxa para si, o meu romance apanha a melodia, recupero o folgo e revejo, revejo, revejo...

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    1. Interessante e dentro do tema, "para que o vistam de espanto" - máscara.

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    2. Obrigado pela boa vontade de procurar uma ligação do meu comentário com o post e muito bem encontrada (nem me tinha lembrado disso!). Um abraço

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