Diário póstumo

Na véspera do lançamento da minha Poesia Reunida, recebi alguns telefonemas e mensagens de convidados dando-me uma «nega». A razão era compreensível. Exactamente à mesma hora, ia decorrer uma outra apresentação pública a que alguns não podiam mesmo faltar, tratando-se de um livro póstumo de um autor a quem todos devemos o grande impulso na criação da Segurança Social (agora, esqueçam-se da TSU, pois estamos a falar de como tudo começou). Refiro-me a José Niza, que muitos conhecem sobretudo da música – uma vez que foi o compositor de numerosas canções vencedoras do Festival RTP da Canção, entre as quais E Depois do Adeus, que se tornou um marco do 25 de Abril –, mas que foi também médico e deputado pelo Partido Socialista à Assembleia da República pelo círculo de Santarém e colaborou decisivamente na defesa dos direitos de autor no campo da música. O livro, chamado Golden Gate, Um Quase Diário de Guerra, baseia-se na experiência de Niza como médico em Angola durante a Guerra Colonial e reúne a correspondência enviada quase diariamente à mulher durante esse período negro. Ora mais contundente e político, ora mais intimista, este é um testemunho importante que todos devemos ler para não esquecermos o que se passou nem deixarmos que se repita.


 


Comentários

  1. Do que li, afigura-se que o autor estava a preparar esta publicação, que ora surge a título póstumo.
    É um diário de guerra, sem o "quase", o que eviatria este advérbio, mas deve ter sido decidido pelo autor. As cartas de guerra correspondem a uma manifestação de notícia, de afectos e, concomitantemente, de registos.
    É um livro para ler, "quase" obrigatório para todos os que gostam de História, mormente da portuguesa.
    Com a devida vénia a "O Mirante" (a Alberto Bastos e João Calhaz), daí cortei e aqui colo este naco de observação do José Niza, propositado e cheio de humor cáustico.

    "Noutro passo, com data de 10 de Dezembro de 1970, dá conta dos presentes de Natal que os militares ali destacados receberam, enviados pelo Movimento Nacional Feminino (MNF): “Um pacote de amêndoas, o que dará uma por cada soldado; meia dúzia de lâminas de barbear; o que dará uma lâmina por cada caserna; e ainda meia dúzia de pastas de dentes, o que só dará para os desdentados”.
    Apeteceu-me escrever à Cilinha [Cecília Supico Pinto, líder do MNF] a agradecer a amêndoa que me coube. E, como deixei crescer a barba, vou oferecer a minha parte da lâmina a quem necessitar”.

    Não resisto e subtraio um pouquinho mais, porque mais íntimo e dirigido à mulher:

    “Gostar de ti é uma vocação, um modo de vida, uma ocupação permanente, uma invenção de sonhos, uma antecipação do tempo que há-de vir. Estás presente. Amo-te em full time”.

    Aqui se encontra a poesia em prosa. Que mulher não verteria duas lágrimas ao ler este pequeno parágrafo?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verteria, sim, mas confesso que gostaria mais se não estivesse lá "em full time", e ficasse "amo-te" tout court!
      Isabel

      Eliminar
  2. Eu podia ter ido lá fora fumar um cigarrinho e ter, ipso facto, abandonado a sala. Mas não. Entrei pela manhã, regresso à noite e, salvo a visita da Isabel, mais ninguém tratou de dizer alguma coisa sobre o "assunto da Ordem do Dia". Parece-me que, presos à situação em alta dos portugueses aquém e além-mar, preferiram recorrer ao "assunto da Ordem da Véspera".
    Estou triste. José Niza merecia muito mais através dos comentários sobre a sua óbra póstuma. Não devemos esquecer que a sua canção, com música de José Calvário e cantada ao tempo pelo Paulo de Carvalho, esteve nas origens do 25 de Abril.
    Direi, à guisa de epitáfio, pois não sou crente: repouse em paz e que a terra lhe seja leve.

    ResponderEliminar
  3. Cláudia da Silva Tomazi15 de outubro de 2012 às 11:04

    Respeitar de obra por outra a nem tristeza.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório