Um hobby muito em conta
Nos últimos anos, cresceu exponencialmente o número de autores de livros em Portugal (talvez em todo o mundo, mas falo do nosso cantinho). Perguntei-me muitas vezes por que motivo tantas pessoas desejam ardentemente publicar um livro e sempre me pareceu que a literatura tem uma aura de sagrado e que, para as pessoas em geral, um livro assinado com o seu nome é coisa de meter respeito e, ao mesmo tempo, selo de inteligência e importância. Não vemos, por exemplo, proliferarem pintores, escultores, arquitectos ou cineastas, embora também haja muitos músicos amadores compondo e mostrando constantemente o seu trabalho na Internet. No fundo, talvez a música e a literatura sejam baratas – para a primeira, bastará um instrumento (que hoje até pode ser substituído por um programa informático), para a segunda apenas a língua que falamos. São, efectivamente, actividades ao alcance de todos os que têm ideias ou saibam assobiar (mesmo que muitas vezes assobiem para o lado, já se sabe), hobbies realmente em conta, nos quais o investimento acaba por ser apenas em tempo. Será por isso que se escreve tanto?
Se até o Zé Cabra é Disco de Ouro em Portugal...
ResponderEliminaré muito isso.
ResponderEliminarmas a Rosário pode colocar a pintura e a fotografia ao lado da literatura e da música.
digo isso porque tenho alguma experiência associativa no campo da cultura e já passei por coisas do arco da velha.
o que é mais triste nisto tudo é a falta de sentido auto-crítico.
acho que toda a gente pode escrever, pintar, fotografar e tocar, mas devem perceber a distância a que estão dos verdadeiros artistas...
claro que é muito complicado para nós chamar esta gente à razão, sem que fiquem ofendidos, ou até que pensem que as nossas criticas estão revestidas de inveja.
falando apenas dos livros, hoje existe também o interesse comercial de algumas editoras em publicar obras de desconhecidos, desde que estes as paguem por inteiro e ainda lhes ofereçam algum lucro...
Eis uma questão que me inquieta.
ResponderEliminarOutro dia comentava eu com alguém sobre uma querida amiga que já escreveu dois livros e do outro lado respondem-me: hoje em dia toda a gente escreve livros. A frase foi dita assim, com tamanho desprezo que senti um arrepio. Mas calou-me, não fui capaz de dizer mais nada, embora pense numa resposta à altura, até hoje.
Isto só me inquieta, só me perturba, no sentido em que me torna mais difícil a orientação na floresta. De resto, que escrevam, que publiquem, que escrevam e não publiquem, que publiquem até sem nada escreverem: é simplesmente o Mundo na sua imparável deriva.
ResponderEliminarA atividade de pintores, escultores, arquitectos ou cineastas requer mais meios, não está realmente ao alcance de qualquer um (refiro-me apenas a meios materiais). Além disso, o resultado da atividade literária e da musical é mais facilmente adquirível, não requer tanto investimento por parte do público (excetuando o meio cinematográfico; qualquer um - ou quase - pode pagar um bilhete de cinema, mas a produção em si é travada pelos custos).
ResponderEliminarUm outro motivo para haver tantos escritores é o facto de não se poder comparar o número de pessoas alfabetizadas com as o tempo de Eça de Queirós, por exemplo. Durante séculos, só uma minoria sabia ler e escrever. E chegar à edição de livros era ainda mais difícil.
A situação, hoje em dia, tem vantagens e desvantagens. Mas recuso-me a ser elitista e dizer que a maior parte das pessoas que escreve não devia escrever. Claro que lhes falta objetividade e distância para julgar o próprio trabalho. A quem não falta?
Frases do género: "hoje, toda a gente escreve livros" não me incomodam. Vivemos em democracia e liberdade, não se pode proibir ninguém de chegar ao computador e começar a escrever aquilo que muito bem lhe apetece. E acho muito bem!
Cabe às editoras, por um lado, fazer uma seleção conscienciosa; e ao, público, por outro, escolher aquilo que quer ler, nomeadamente, quanto às edições de autor, que se tornaram muito mais acessíveis com a internet.
Quem se julga um génio, ou se julga responsável pela educação cultural dos outros, esses sim, terão muitas dores de cabeça...
Cara Cristina
Eliminarrespondo-lhe apenas porque gostaria de clarificar que se com a minha "inquietação" passei a ideia de que considero que nem toda a gente deva escrever, expressei-me mal.
Acredito que toda a gente terá o direito de fazer o que bem entender, seja escrever, pintar ou esculpir. Mas aquela frase - agora toda a gente escreve - quis banalizar o "ofício" retirando mérito e valor ao suor, ao sangue e às lágrimas que o ofício exige. E isso não me pareceu justo. But then , life is not fair .
não se poder comparar o número de pessoas alfabetizadas com as o tempo de Eça de Queirós,
EliminarOh Cristina mas a grande maioria desta gente sabe ler ou escrever? Basta atentar nos rodapés das vários televisões, nomeadamente da TV da inenarrável CASA DOS SEGREDOS da Mister Ed...
Cara Patrícia, é verdade que se escrevem livros (ou mandam-se escrever) sem o mínimo "suor, sangue e lágrimas" e que vendem bem, apenas porque o/a autor/a é conhecido/a e admito que, nesse sentido, a frase realmente incomoda.
EliminarPorém, quis chamar a atenção para todos aqueles que, apesar de escreverem com "suor, sangue e lágrimas", não se considera que tenham talento suficiente para que os seus livros sejam publicados. Essas pessoas acabam por ficar abaixo de todos aqueles que publicam (com merecimento, ou não). O seu trabalho não é reconhecido, o que é mesmo muito injusto.
Ao termos a noção de finitude que está sempre presente, mesmo que escondida, todos procuramos alargar o tempo e dominá-lo. A Rosário fala na poesia como o domínio do amor e da morte. A morte de que procuramos evitar; o amor, o qual, como seres gregários e sociais, procuramos possuir.
ResponderEliminarO tempo é, assim, o grande constritor do homem.
Escrever é muito mais do que um hobby, porque pode ser um trabalho, bem como uma terapia.
E quando escrevemos, sonhamos. E quando sonhamos, chega um tempo em que queremos partilhar o que escrevemos; talvez, porque queiramos ser amados. É essa a sina de todo o ser humano, possivelmente até de todo o ser animal. E é, assim, que se confirma que a escrita tem como corolário a partilha do amor e da morte, através da única forma possível: sermos publicados!
Bonitas palavras, Pedro!
EliminarObrigado, Cristina. Confirma-se. Já valeu a pena escrever algo!
EliminarBelíssimo, o seu comentário acima, Pedro.
EliminarCristina
Eu acho que há uma ideia de facilidade associada.
ResponderEliminarSe uma pessoa aprendeu a ler e até aprendeu a escrever, parece mais fácil então "escrever a sério".
De algo modo parece mais acessível, e devido a interesses económicos é mais fácil um mau escritor ou um "não escritor" vingar do que qualquer outra arte.
As pessoas podem escrever e publicar livros, mas escrever e publicar livros não é ser escritor.
Um escritor é todo aquele que não imagina a sua vida sem escrever (mesmo que não publique). A frase não é minha, mas subscrevo plenamente. Com mais ou menos talento, quando "sai do lombo", como diz o comentador jcb, é sempre motivo de respeito. Porque há diferença entre aquela pessoa que sacrifica todos os momentos de lazer para escrever, mesmo que nunca venha a produzir algo digno de publicação, e outra pessoa que, apenas por ser conhecida, escreve qualquer coisa, porque sim, e vende logo bem.
EliminarNa minha opinião, entre quem não concebe a sua vida sem escrever (entre aqueles a quem lhe "sai do lombo"), com muito ou pouco talento, só é escritor com E grande quem vem a seguir ao ponto final.
Totalmente de acordo com a Cristina T, e portanto muito bem também o Pedro Sande ! Perdoem-me a intrusão de traça literária esvoaçante na luz deste blog Extraordinário!
ResponderEliminarHoje vivemos na era da informação! E muita dela ainda é veiculada na forma escrita, portanto para mim é lógico que "toda a gente escreve", e vou mais longe: Ainda bem! Porque se escreve também lê... e devia haver mais gente a pintar, a esculpir, a tocar e cantar aos serões, a representar a fotografar... talvez tivéssemos um Mundo feito de gente mais feliz e entretida e por isso tolerante!
Saudações apiáricas cá do Planalto Central!
Só me custa um pouco a ideia de hobby. Escrevo pouco porque me sai muito do lombo. Para hobby prefiro as trutas. Custa-me compreender a ideia de que escrever bem e fazer da escrita um hobby são coisas compatíveis. Serão. Esses, os que conseguem isso, são os que vão para o céu. Aos outros restar-lhes-á o inferno -- se o diabo não lhes fechar a porta e os não transformar assim em almas penadas até terem um hobby.
ResponderEliminarjcb
Prumeiros o gaijo ke escreve bem para além de hoby escreve OK, e tem um big know-how, e dá sempre feed-back....
EliminarQue excelente tema para um ensaio ! Claro que uma razão central para o crescente aumento de publicação de literatura é, como a Maria do Rosário diz, a barateza do ato criativo feito de palavras. Outro motivo será o facto de a escrita ser o instrumento que todos aprendemos e em que é fácil atingir uma razoável proficiência dado o seu diário exercício ao longo de uma vida, o que instiga a quimera de que a criação literária está ali mesmo à mão de semear, como que à espera de uns fins de semana lentos ou de umas férias forçadas [se sofressemos de uma asma grave, não acreditamos todos que poderíamos ser Prousts?]. Nas artes plásticas ou na música, a fantasia de que se pode ser artisticamente criativo já não é uma quimera tão facilmente sustentável porque aí, para além do custo dos instrumentos apropriados, quem tenta, sem talento, ser um razoável compositor musical ou pintor ou escultor, rapidamente esmorece ao esbarrar, nas primeiras tentativas criativas, com a mais que provável ausência de ouvido absoluto ou de capacidade para desenhar ou pintar para além do elementar. Um dia cada um de nós, os não criativos, escreverá pelo menos um livro magnífico e admirado, esta é uma das mais belas dádivas que Deus nos dá para tornar suportável este "vale de lágrimas" ocupando-nos a imaginação com devaneios inatingíveis mas que nos aquecerão a alma até ao dia final.
ResponderEliminarArtur Águas
Extraordinário, se me permite meu caro Artur Águas... como o Pedro Sande, também valeu a pena lê-lo, e por isso mesmo, portanto escrever!
EliminarSaudações Planáticas!
Muito obrigado pelas suas lisonjeiras palavras. Aprecio muito os seus frequentes comentários neste blog que me fazem imaginá-lo, com alguma inveja, vivendo num mundo geográfico e humano que, amigos meus que aí habitaram em tempos idos, dizem ser o paraíso na terra. Já publicou alguma literatura? Eu não, mas mantenho a minha alma aquecida com a fantasia de um dia o vir a fazer... (tal como o escrevi no final do meu comentário).
EliminarArtur Águas
Artur! Porque haveremos todos de querer ser Prousts , podendo ter apenas uma costela do senhor? Será o nosso espírito grandiloquente ou haverá em nós uma bipolaridade que nos remete singularmente do passado ao futuro, sem nunca passar pelo presente?
EliminarALP, sem dúvida! O século das massas, não é só nas prateleiras dos supermercados. E o século das massas dá-nos novos direitos culturais que criam uma sociedade de nichos, matrioskas de gostos de dimensões variadas. O gosto deixou, assim, de ser espartilhado, mesmo que nos supermercados só se venda marca branca por questões financeiras. As editoras têm assim os seus espartilhos, mesmo que muitos de nós gostássemos de ter um TGV até à nossa porta e que fizesse entregas «à la minute».
Espiral diz: «As pessoas podem escrever e publicar livros, mas escrever e publicar livros não é ser escritor». Não sei se é ou não, porque para mim um escritor é quem escreve por gosto - mesmo que escreva no ar espalhando versos pela atmosfera e que à boa casa retornam como os boomerangs, depois de imensos ricochetes em inúmeros obstáculos. Tal como os poetas escritores orais como o Aleixo - e outros que tais. Os obstáculos sempre lá estarão e mudarão de forma, todo os dias. Como procuro não pensar em espiral - porque tudo o que é espiral faz-me tonturas e fazer perder o norte - diria que não existem escritores a sério, existem, sim, livros a sério - que tocam algumas dimensões, mas não todas. Acabei de ler a Dulce Maria Cardoso que me tocou e sugestionou a dimensão «dos meus sentimentos», mas não outras. Faltou (me) emoção e aventura; delírio, não! Estava lá todo! E, no entanto, a Dulce é uma senhora escritora, um prodígio, mas não um prodígio nem um dia de delírio para todos os meus dias. Talvez o dia fosse propício a outras dimensões e aventuras; talvez o meu dia estivesse mais para ler «A mão do diabo» do José Rodrigues dos Santos ou o «Pão que o Diabo amassou». Repare que mesmo lendo «a mão…» já não era o seu pescoço alto e esticado que via, mas uma figura baixa e atarracada, olheirenta, uma dimensão mais Gaspariana.
A melhor aprendizagem que me foi transmitida nos últimos tempos, porque se formos como as esponjas poderemos sempre mais absorver do que aspergir, foi: «um ponto de vista, é apenas a vista de um ponto!» Genial, pensei eu: é que o meu ponto nem sempre está calibrado. Calibrado, essa palavra, tão em voga, tão em moda, esse buraco da agulha que alguns julgam de dimensão única. E quando entreguei a minha última tese, defenestrei como um selvagem, todo o formalismo conservador da academia.
«Escreve, razoavelmente bem» dizia o orientador vindo do país de Hergé, como se o razoável pudesse adormecer à janela abraçado com o bem, «levanta questões pertinentes, inovadoras, mas é avesso ao formalismo e às regras da academia indígena». «Mas e a tese», perguntava-me eu.
Há sempre um mas num mundo de repetição, num mundo barato, presente - passado, até nos não indígenas - já influenciados por uma atmosfera tristonha e opressiva.
«Pois, essa!» respondi, sem me importar minimamente em «calibrar a mensagem, como é mister hoje em Portugal, com p pequeno», já que me senti um cow-boy (naquela altura não sei se mais um rapazinho que um boi!)
E foi aí que, olhando para a janela, tive a certeza: vi um corvo velho, zangado, negro e cinzento, que voltava sempre e sempre para o mesmo ninho, como se vivesse em volteio, voando em voos baixinhos, curtinhos, enquanto ao alto uma gaivota fazia como a Fernão: voava à altura e liberdade dos grandes espaços; livre como um passarinho, como o Fernão Pinto.
E mesmo que lhe perguntassem: «Fernão! Mentes?»
«Minto!», respondia, «mas sinto-me livre como um escritor e um passarinho!»
Vejo agora na net que você poderá ser o António Luiz Pacheco, autor de "Largueza". É verdade?
EliminarArtur Águas
Ora aí está no seu belo texto por Pedro Sande ! Quiçá mesmo um fragmento (um início?) de um excelente romance do mesmo Pedro Sande aspirando, porque não?, às sagradas alturas proustianas ! Eu sou um firme crente no "à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." Será que estarei eu de novo, como aconteceu com António Luiz Pacheco, a trocar mensagens com um escritor já publicado (a qualidade e extensão da escrita de Pedro Sande neste blog isso o sugerem)?
EliminarArtur Águas
Caro Artur. É a hora dos encómios. Deixe lá não ter sido publicado numa árvore. Não criativo, Artur? Não me parece mesmo nada. Há os escritores do papel, caro Artur, mas há os outros. Os que vivem na sustentabilidade do vale de lágrimas, em folhetins diários magníficos e admirados. Viva feliz a escrever, caro Artur. Publicar é um acessório. Que melhor publicação do que essa? O resto é só a nossa vaidade a fustigar-nos, que vale menos do que qualquer boa árvore a quem até aproveitamos a sombra mesmo num dia cinzento e chuvoso.
EliminarSou sim...
EliminarAgora você diz: Ah! Eu li o seu livro!
E eu respondo: Ah! Foi você...
Eheheh! Uma piada literária com barbas, do Juca Chaves... mas a que não resisti.
Um abraço Planáltico!!!
É lá... publicado sim ... escritor gostava mas não sou!
EliminarSou dos tais quaisquer um que escreve e depois se auto-publica através de editora paga!
Confesso que tenho publicado sim muitos textos em revistas temáticas, sendo até pago... o que se calhar é porque nesses assuntos terei algo a dizer, e adoro contar histórias!!!
Como o Pedro Sande só posso dizer, que cante no banho, toque tambores no tablier do carro, molde bolinhas de pão, desenhe na areia... e escreva se isso lhe dá prazer! Escreva só bué ..
Um abraço editorial!!!!
Não li, mas fiquei curioso e um dia o seu nome, impresso na capa de um livro, passará pelos meus olhos, livro esse que eu abrirei. Fácil de não esquecer porque Luiz Pacheco é um dos meus escritores/pensadores favoritos. Portanto, acrescentando o António, está arquivado nas conexões sinápticas do meu hipocampo e essas mantêm-se estáveis até à visita do senhor alemão.
EliminarArtur Águas
Não podia estar mais de acordo ! Até mesmo o Manuel António Pina se interrogava: quem nos lerá um ano após a nossa morte? [quem lê, para além das Faculdades de Letras, Sá Carneiro, Pessanha ou Eugénio de Andrade?]. Portanto, é viver feliz com as nossas fantasias do dia à dia sem pretensões megalómanas ou ambições cuja concretização não são por nós controláveis. Mas, confesso, que a quimera de um dia eu vir a publicar um livro, mais do que trazer-me ansiedade por ainda o não ter feito, me reconforta como se já vislumbrasse um futuro possível e doce.
EliminarArtur Águas
Nunca se sabe ! Para mim, quem aqui deita palavras é sempre um potencial escritor, mesmo que só atire folhas inéditas para a uma anónima arca.
EliminarArtur Águas
Diz o povo que só se é uma pessoa completa e realizada depois de ter um filho, plantar uma árvore e... escrever um livro. Porque será?
ResponderEliminarCaríssima e Extraordinária Areia, permita-me na minha imodéstia transcrever parte de um texto onde me atrevo a analisar essa mesma questão, enfim dentro da minha eventual sensibilidade e imensa ignorância:
EliminarDizia um antigo sábio, que um homem deve fazer três coisas na sua vida:
1ª Plantar uma árvore (portanto garantir a fonte de energia, deduzo)
2ª Ter um filho (garantir a continuidade da sua espécie… presumo eu)
3º Escrever um livro (divulgar o seu pensamento, as suas idéias ?)
Será tontice minha, mas gosto de imaginar que reside aqui uma espécie de mensagem para que possamos subsistir como espécie superior e responsável, que faz as coisas conscientemente, como parte desse grande todo onde temos uma função, a razão para existir com a consciência de existirmos de facto, e, não apenas existindo, como se fôssemos erva, coelho ou raposa!
Isto se calhar nada tem a ver, mas lembrou-me por ser o contrário do que se discute. É o desabafo de quem se fartava da literatura e cujo hobby era cavar na terra pedregosa. Dizia ele, nos seus Diários II: "Nestes dias assim (e nos outros) o que me apetecia era acabar com a literatura por uma vez, e ir para S. Martinho cavar. Mas depois ponho-me a pensar se, no meio da lavoura, o meu destino de poeta me não faria erguer os olhos da leiva, contemplar o céu ou a alma, e escrever a seguir um poema na pá da enxada."
ResponderEliminarObrigada, Paulo. Às vezes, acredite, também me apetece trocar os livros pela olaria...
EliminarO tema fez-me lembrar um filme revisto recentemente: «Procurando Forrester», um escritor de um só livro, isolado na sua casa no Bronx, descoberto por um adolescente afro-americano apaixonado pela escrita e pelos livros. Este dá-lhe a oportunidade de se reencontrar no fim da vida com a escrita e deixa-lhe, depois de morto, um segundo livro para ele prefaciar e publicar. Lembrei-me deste filme porque este escritor, apesar de ter publicado apenas um livro constava da história da literatura americana. Hoje temos autores a publicarem dois livros por ano. Quantos deles ficarão para a história da literatura?
ResponderEliminarPor outro lado, a escrita como um hobby não me parece mal. Assim como tratar da horta, costurar, andar de bicicleta, ou nadar. Daí a não conseguir ter o sentido crítico para avaliar se alguém ganharia algo em ler o que se escreveu, é que já algo está mal. Enfim, acho que nós devemos ser os primeiros críticos de nós mesmos. E, para isso, como todos os críticos, devemos ler muito. E autores variados, mas com critério, claro. E, se sabemos ser seletos quanto aos autores que lemos, talvez já seja um bom sinal quanto aos críticos que podemos ser face ao que escrevemos. Não é que eu escreva, claro, até porque sou muito crítica. E há tanta literatura por explorar. Isso sim, é um verdadeiro hobby! LER.
Nem mais a propósito para a reflexão lançada pelo, «Um Hobby muito em conta», no Bookoffice, pelo filósofo e autor, Alan Watts.
ResponderEliminar«Esqueça o dinheiro», diz ele.
Pense: «O que é que eu desejo...»,
aqui http :/ bookoffice.booktailors.com /noticias esqueca-o-dinheiro-e-escreva / utm_source =dlvr.it&utm_medium=facebook&utm_campaign esqueca-o-dinheiro-e-escreva ).
Escrever é uma actividade barata económica?!... Barata?!
ResponderEliminarE todo o tempo investido?
As incontáveis horas a depurar um texto...
Quem paga essas horas?
Quem?...
Tem razão.
EliminarFaçam o pino, “?” é o anzol do homem que pesca em plácida ribeira, como pesca, sacia, mas a fome que matou d’antes é hoje menos negra. “&” são os amantes entrelaçados num retorcido baraço de suor e ilusão, vital foi o baraço, tão vital quanto hoje esquecido. “+” foi de pau e escorreu vinagre, colheu medos e perpetuou-os. Partamos, pois, “+” em morte “-“ e vida “|”, esqueçamos a patranha que confere inevitabilidade à primeira e abracemos a segunda como eterna. “*” é a estrela, lenha para as casas dos do futuro, dos de bom fundo. “Ç” é o mau homem de barbicha, o homem que fere animal, aquele que exteriorizou Deus sem o conseguir ver em si. “#” é a cadeia, não metálica mas rosada, a cadeia que oferecemos uns aos outros sem cuidarmos de que todos somos o mesmo. Devemos elevar as mulheres “ª”, podemos educar os homens “º”, se o ventre da primeira nos imortaliza “@”, são os punhos do segundo que nos separam “%”. Estes são sinais do tempo.
ResponderEliminarEu acho bem. Escrevam, pintem (e bordem), toquem, esculpam, dancem, filmem, fotografem e publiquem seus trabalhos na Net, que o Mundo observá-los-á .... e, destes trabalhos "marginais", quantos artistas realmente talentosos não despontarão?
ResponderEliminarEu acho mal (muito mal mesmo). O quê? Por exemplo: tirar uma fotografia ali ao gato do vizinho, publicá-la na Net e assinar por baixo "fulano(a) de tal, fotógrafo(a) - Todos os direitos reservados - All rights reserved". Ou, pelo mesmo caminho, escrever meia dúzia de linhas, ou uma historieta sem ponta por onde se lhe pegue, e achar-se um Saramago, um Eça, um Pina ....
Havendo bom senso, a coisa vai ... e vai bem ...
Não havendo .... criam-se situações se não hilárias, absolutamente risíveis ...
Não vejo que mal tenha assinar as fotos que se fizeram ao gato do vizinho. Não costumo fazer isso às fotos da minha cadelita (nem a nenhumas), mas nada tenho contra quem o faça. Se as pessoas se sentem mais felizes assim... Será ridículo? Talvez. Mas deveremos ser tão lestos a julgar os atos dos outros?
EliminarE quanto aos textos hilariantes que vão surgindo por todo o lado, de quem se julga um Saramago, ou um Pina... Ninguém é obrigado a lê-los. Costumo sempre responder a quem critica (com razão) a programação televisiva: "há um botão que serve para desligar o aparelho".
Situações ridículas. Em momento algum se disse "pessoas ridículas". Haja bom senso. Não acho mal - e digo-o com toda a sinceridade - fotografar o gato do vizinho ou seja o que for. Qualquer forma de arte vale a pena. Exercitar a mente para a criação de arte é primordial. Digo-lhe, caríssima Cristina, se o meu vizinho tivesse gato e eu uma máquina fotogrática o bichano já estaria na Net há muito. Mais do que arte, adoro bichos. Só não me atreveria, por respeito àqueles que fotógrafos são, a dizer-me igual a eles. Respeitem-se as diferenças e a distância entre os que são e os que não são. Oxalá me compreenda.
EliminarCaro anónimo, eu compreendo! Por vezes o "politicamente correcto" leva-nos a tudo e todos defender, como se todos tivessem o mesmo valor...É o triunfo do relativismo! É óbvio que há situações rídiculas , todas as conhecemos...
EliminarC. Rodrigues
É a formatação do gosto, Cristina. Mal transposto para a área da economia é o regulador tomado pelo regulado. Uma velha pecha de sociedade de Corte e de velho de Restelo, que gosta de sociedades livres, concorrentes e massificadas, mas apenas na casa dos outros.
EliminarDesculpe, mas das suas palavras depreendi que também achava mal fotografar o gato. Congratulo-me em saber que também gosta de bichos.
EliminarE eu compreendo-o, sim, quando diz «respeitem-se as diferenças e a distância entre os que são e os que não são». Mas a genialidade da obra (ou não) já se encarrega de estabelecer essa distância. Por isso, não acho uma falta de respeito em relação aos bons fotógrafos que outros assinem, igualmente, as suas fotografias. Não acho que isso seja necessariamente um sinal de dizer: sou igual a eles!
E até pode ser útil: imagine que o dono do gato nem soube que o seu bichano foi fotografado e não acha piada nenhuma ao vê-lo na Net. Se a fotografia estiver assinada, ele sabe quem deve processar. Pelo contrário, se o seu autor for anónimo, não lhe dá essa possibilidade ;)
Precisamente por respeitar os outros é que eu acho que qualquer um tem o direito de pôr a sua assinatura debaixo daquilo que faz. Na minha opinião, repito, não é nenhuma falta de respeito por ninguém.
Caro C. Rodrigues, na minha atitude não está implícito o "politicamente correcto". Para melhor esclarecimento, peço que leia a resposta que dei ao nosso colega/comentador (espero que ele não considere isto uma falta de respeito) anónimo.
EliminarO dono do bichano não iria processar ninguém e até agradeceria. As fotos do bichano na Net, assinadas por ele e pelo vizinho, com os resctivos direitos autorais assegurados, fariam o gato um sucesso mundial. lol
EliminarUm não assunto. Hoje em dia não só se escreve mais, como se faz tudo com mais facilidade desde a entrada dos meios digitais nas nossas vidas. Dizer que é mais barato escrever? Bom, depende: há quem agarre numa câmara digital e filme e edite um longa metragem em 30 dias, como também há quem se sente dois anos a escrever um livro. No último caso não me parece que seja apenas "barato".
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