Uma questão de popularidade

Há pouco tempo, publiquei aqui no blogue um post que, como era de esperar, desencadeou alguma polémica. É verdade que não consegui esconder a minha indignação por não serem sequer finalistas dos prémios literários portugueses mais emblemáticos obras que considero singulares quer na carreira dos respectivos autores, quer no contexto da história literária portuguesa, preteridas a favor de livros que, quanto a mim, nem tinham nada de diferenciador na obra dos escritores, nem peso literário que justificasse a distinção. Era uma opinião, como todas as que aqui exprimo, pessoal – e, naturalmente, houve quem discordasse, o que, de resto, considerei positivo, pois, se todos pensássemos do mesmo modo, este mundo já excessivamente globalizado seria uma monotonia completa. Na altura, porém, não terei formulado uma pergunta que ficou escondida algures no meu cérebro, uma pergunta ruminante que se prende com a provável diminuição do nível médio dos livros que hoje se publicam em todo o mundo. E só faz sentido voltar a ela agora porque o best-seller As Cinquenta Sombras de Grey, da «erotica star» E. L. James, foi escolhido como finalista dos National Book Awards na categoria de Popular Fiction, uma espécie de Óscares literários britânicos. Talvez os seus concorrentes não sejam muito melhores – que sei eu de Victoria Hislop, por exemplo? –, mas lá que me pareceu outra vez muito estranha a inclusão de um livro que a crítica classifica como literariamente pobre e até mal escrito num prémio desta dimensão, isso não posso negar. Lá popular é ele – está toda a gente a lê-lo em todo o mundo (Portugal inclusive) e até já originou um pedido de divórcio à americana (uma senhora queixa-se, aparentemente, de que o marido não lhe faz nada do que o senhor Grey faz à rapariga com quem tem uma relação escaldante sadomasoquista). Mesmo assim, se a redacção é tão frágil como dizem, é justo encontrar-se em posição de vencer? Ou o nível médio baixou mesmo e escrever mal já não tem grande importância desde que se cometa a proeza de chegar a um número incrível de leitores?


 


 



 


 


 

Comentários

  1. A vertente mais irracional dos "best sellers" acaba por se reflectir nos prémios literários e rapidamente chegaremos também a essa fase em Portugal, que por enquanto só está circunscrita pela hipocrisia das aparências: anula-se o facto de uma obra ser um êxito de vendas e ter (ou não) qualidade para apenas ser relevante o facto de ser um êxito de vendas.
    Daqui por uns anos, a maleita há-de ser erradicada. Até lá, salve-se quem puder...

    ResponderEliminar
  2. Perguntas de traça literária:
    - Será que a crítica (literatos, intelectuais) e o leitor comum não andam desfasados?
    - Será que o crítico conhece e sabe os gostos e as necessidades do leitor comum?
    As editoras sabem-nos! Sem dúvida... e até os fabricam... não é só a Madonna que é um produto da Motown , há escritores que são fruto do seu Editora e da empresa editora. É o marketing e o merchandising que substituem em parte o génio.
    - E será que os júris de concursos não serão umas vezes críticos não-alinhados e noutras literatos comprometidos? E daí as tais assimetrias???

    O outro diria: É a economia, estúpido!!!!

    Diz (e muito bem) MRP : "se todos pensássemos do mesmo modo, este mundo já excessivamente globalizado seria uma monotonia completa." (sic)

    Já li livros de que gostei muito, e foram ignorados ou mal-recebidos . Outros de autores celebrados e para quem os críticos se desfazem em encómios, pura e simplesmente os pus de lado ou não gostei.

    Vão-me perdoar... sobretudo os Extraordinários profissionais da literatura que aqui eu tanto gosto de ler e com quem tanto tenho aprendido neste blog... mas a mim o crítico não serve de referência no que toca à decisão de leitura! O crítico serve para me ensinar literatura e, através dele, poder interpretar, mas nunca para me orientar os gostos ou as inclinações.

    Saudações do Planalto Central

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "O crítico serve para me ensinar literatura e, através dele, poder interpretar, mas nunca para me orientar os gostos ou as inclinações."

      permite-me dizer que é a frase chave de todos os comentários. Parabéns.

      É que ainda existe muita gente a orientar os seus gostos pelos críticos e só o que eles dizem é que é bom.

      Eliminar
    2. Totalmente de acordo! Gosto imenso de ler sobre livros, mas estrelas para mim só as do firmamento. Tanto aqui como no cinema.
      Mas reconheço que não sou imune à crítica. Uma boa crítica desperta-me a vontade de conhecer a obra. O que não quer dizer que, após uma boa espreitadela na livraria, não a deixe no mesmo lugar... E sei também que uma má crítica, em especial em autores estreantes, pode fazer-me recuar na sua leitura. Más críticas nos meus autores preferidos não me fazem mossa nenhuma: gosto deles de qualquer maneira.

      Eliminar
  3. claro que baixou, Rosário.

    pode ser uma das consequências da quantidade, da edição de tanto livro por aí.

    a quantidade gera o muito bom, mas também pode banalizar o bom...

    ResponderEliminar
  4. E por coincidência, hoje mesmo, a obra-prima do Valter Hugo Mãe é galardoada (de novo) com o prémio Portugal Telecom. À piroseira da "Popular Fiction" inglesa podemos orgulhosamente contrapor uma escolha lusófona de grande qualidade. Pena é o título "A Máquina de Fazer Espanhóis", retirado quase aleatoriamente de uma frase do romance e que não informa o potencial leitor sobre o tema tratado no livro. E o tema é muito original e afeta-nos a todos. Que eu saiba, ninguém antes tratara em ficção em português a vida de um grupo de velhos num lar de terceira idade. Um grupo que inclui o Esteves da Tabacaria, grande achado metaliterário. A MRP, como editora, não pediria ao Valter Hugo Mãe para escolher um título que fosse mais apelativo ao leitor, sem ser popularucho?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A recordar:

      "O lar tem três divisões, não o disse já? Tem. Três divisões mais ou menos etárias. Há a dos velhos irremediáveis, a dos menos velhos mas já...
      .................................."

      Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra

      Eliminar
    2. Obrigado ! De facto não li esse livro do Vergílio Ferreira. Vou logo à biblioteca e levá-lo-ei comigo.

      Eliminar
    3. Também gostei muito desse livro. Lindíssimo! E fiquei muito feliz pelo prémio ir para o Valter Hugo Mãe. Merece-o, sem dúvida! É um dos meus escritores preferidos de sempre.

      Eliminar
    4. E não acha que o título "A Máquina de Fazer Espanhóis" não valoriza o livro?

      Eliminar
    5. Por acaso até nem desgosto de título. Mas concordo consigo: não elucida o leitor do tema abordado.

      Eliminar
    6. Também me lembrei logo deste. Mas não é propriamente um livro sobre um lar de terceira idade. Mas sobre a decadência. A todos os níveis. Principalmente, é certo, a que provém do envelhecimento.

      Eliminar
  5. Questão controversa e de resposta difícil. Não li o livro e não o pretendo ler, porque o tema não me parece apelativo e está já sobejamente difundido por variadíssimos meios. Só não correndo o risco de se tornar maçador pela natureza das coisas.
    Parece-me, contudo, óbvio que um livro mal escrito e sem outra mensagem que não seja a de teor explicitamente sexual nunca deveria ser galardoado com um prémio literário. Por mais vendável que se mostre.
    Mas atenção que o inverso também não deixa de ser criticável. Eu explico-me. Por muito aclamada que seja pela crítica determinada obra, se não lograr atingir os leitores...de nada serve. Porque a literatura, como produto comerciável que é, tem de sujeitar-se, também, às regras do mercado.

    ResponderEliminar
  6. Antes do mais peço desculpa pelo monstro, mas é mesmo uma questão de popularidade do...tema.
    Há um facto insofismável: os livros devem servir para ser lidos e não para enfeitar as prateleiras. Mas no mundo dos factos mesmo esta ideia não passível de ser diversa da real pode ser contrariada. Porque há quem faça dos livros objecto de adorno, objecto de vaidade, objecto de opulência, objecto de aparência, objecto de coleccionismo e por aí adiante. A sua qualidade como objecto de literatura deve pois assim ser relativizada - como aliás tudo na vida. A própria noção de qualidade é relativa - depende do observador. O que não invalida que haja um standard médio para um público médio - e que se possa dispensar o profissional que conhece o mercado. Profissional, ele próprio, que está inconscientemente balizado pelo gosto pessoal, pelas metas que lhe são fixadas, pela previsibilidade ou imprevisibilidade do mercado onde se posiciona, pela disposição momentânea, pelo excesso de originais que lhe são colocados à frente, pelo seu grau percepcionado do princípio de Peter , pelo seu grau de saturação, pelo seu profissionalismo... Porque também há «públicos - muitos», e cada vez mais variados, a noção de nicho é cada vez mais importante: e essa não deve ser desprezada, sob pena de nos focalizarmos sempre num nicho específico, limitando o nosso foco. A percepção que eu tenho da globalização não vai, no entanto, exclusivamente no sentido uniformizador, quase compressor, de que fala o texto. A globalização trouxe à luz da ribalta interesses cada vez mais diversos, interesses que se descobrem a si próprios pela descoberta do outro, como nichos colectivos no espaço. Há, por outro lado no (s) livro (s) uma espécie de dialéctica entre o inovador e o clássico - os livros são cada vez mais a reconfiguração do tempo e espaço - pelo que os gostos variam não só entre nós, como dentro de nós; variam na razão do espaço e tempo, da nossa maturação, do nosso caminho, do interesse pessoal, de um momento, da mundividência, do nosso «carrego», de, de… E foi sabendo que tudo é relativo, que ontem descobri um blogue que pretende ser um «think-thank» do livro - e que tal como o H.E. da Rosário presta um serviço relevante de «serviço (ao) público». O Edição - Exclusiva, é esse o seu nome, faz-me lembrar aqueles jornaleiros americanos que cantavam, «extra, extra,...» dando a conhecer, em tempo, as notícias, e fazendo descobrir ao autor - e a todos os interessados na leitura, na escrita, no livro - os meandros da edição e do livro.
    Fá-lo de forma desassombrada, como a modernidade exige (a informação já não é - o poder - que era) colocando todas as cartas na mesa, mostrando a falta de pureza que existe neste sector – como na vida - o que o não diferencia de outros sectores com os seus bons e menos bons players...
    Desde os interesses, às práticas, à dissociação cada vez maior entre editoras e autores, à importância do marketing, mas também aos seus erros de apreciação, às formas mais ou menos transparentes ou opacas, ao rapto do autor, aos factos do mercado… enfim, ao seu modus operandi pela sobrevivência num mercado mínimo (um quase esquema de Ponzi, de rotatividade sobrevivente como o náufrago que se quer manter à tona, mesmo se tendo de apoiar em outros sujeitos da cadeia - quase necrófaga, canibalística, alimentar).
    Está lá tudo! Por mim, só posso agradecer; tenho aprendido muito, o que me faz estar agradecido aos autores destes dois blogues.
    Eu, cuja noção de literatura é: «tudo o que é colocado perante os meus olhos e não me distrai ou fere a vista».

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pela minha parte está desculpado!!!!

      E obrigado mais uma vez pela ilustração!

      Eliminar
  7. "se todos pensássemos do mesmo modo, este mundo já excessivamente globalizado seria uma monotonia completa."

    É positivo discordar apenas para que o mundo não se torne monótono, ou porque, da discussão, nascem ideias e soluções que nos levam mais longe?

    ResponderEliminar
  8. Como eu te compreendo, Rosário (e sabes porquê!)... (Re) surge a velha questão do «antes lerem mau que não lerem nada», mas o problema é que a geração que (só) leu Barbara Cartland faz certamente parte da iletracia actual o que me leva a perguntar como serão as coisas daqui a outras gerações... Beijo para ti e parabéns pelo teu blogue. O nome então... é genial!

    ResponderEliminar
  9. O prémio chama-se Popular Fiction , estavam à espera de quê? Eu acho uma piada enorme a isto, espero que ande por aqui uma "licenciada histriónica " que muito se indignou comigo no facebook da tia Rosário quando eu disse que a grande maioria do povo era mais burro e parvo que um saco de plástico num dia de vento. Ora deixem cá ver se eu percebo, o povo lê livros maus, tem pouca educação, vê programas de televisão estupidificantes, veste roupa de mau corte, come de boca aberta e mal sabe falar Português, no entanto a sua sabedoria é inalcançável ... O povo sabe que deve atravessar na passadeira, que só quando o vento para é que começa a chover, que se formos lá mexer a mãe o enjeita, que misturar melancia com vinho tinto mata, que andar descalço na cozinha constipa, que o remoinho no cabelo é sinal de ruindade, que quando a marçalina entra molhada não sei o quê, que esfregar com álcool cura quase tudo e mais uma data de life changing facts . Na verdade não me parece grande porra para uma coisa que se quer milenar. A grande questão é: de onde vem esta alergia a criticar o povo? Imagino que da necessidade de votos, do ignominioso agradar perpétuo, do contínuo disparate, difundido diariamente, em que nos dizem que todos somos igualmente válidos à nossa maneira. Mentira. Eu esforço-me todos os dias por me tornar melhor sem ter ainda deixado de ser, no mínimo , medíocre. Sem reconhecermos não existe necessidade de progressão. (estou ansioso por receber o vosso hate mail )

    ResponderEliminar
  10. Como se pode esperar "hate mail" quando se escreve um texto tão interessante ! Medíocre quem escreve assim? Só se for auto-ironia. Aquela sua longa frase sobre as crenças do povo, que delícia ! E depois o contraste com os hábitos sociais da nossa pequena burguesia culta. Excelente ! Eça vive ! Só não percebi como a postura de crítica aos facilitismos da cultura popular tem a ver com o querer angariar votos, ou terei percebido mal e é ao contrário? Quanto a prémios para livros de "Popular Fiction", realmente que livros se estava à espera de encontrar na lista de candidatos? A minha questão é: para quê atribuir um prémio a livros que já são best-sellers? Fazer um esforço para melhorar todos os dias um bocadinho: que belo conselho. E obrigado.

    ResponderEliminar
  11. Vi de relance uma entevista à E L James em que lhe perguntavam o que ela tinha a dizer dos críticos que a fulminavam com a sua pobreza literária. Riu-se e respondeu: "I say, 60 million copies!" Para mim, basta para nunca lhe ler uma linha. I rest my case.
    E quanto à Victoria Hislop: no comments.
    Mas enfim, temos os escritores que temos porque temos os leitores que temos...

    ResponderEliminar
  12. Vejo tanta e tão diversificada gente a lê-lo que começo a ficar seriamente preocupada.

    ResponderEliminar
  13. Vejo tanta e tão diversificada gente a lê-lo que começo a ficar seriamente preocupada.

    ResponderEliminar
  14. Eu já li algures, foi há uns meses antes do livro chegar cá, que as vendas de Tess D'urbevilles de Thomas Hardy tinham aumentado. Tudo porque o Sr. Grey oferece à Anastacia uma primeira edição.
    Ao menos muita gente pode ter lido um mau livro, mas a seguir leu um bom livro, acaba por equilibrar e compensar as contas do universo literário.
    Não me acredito é a maioria tenha gostado, não é fácil gostar de algo cru e realista como Tess D'urbevilles.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório