O regresso feliz

Depois de edições incertas e muitos soluços, parece finalmente que a obra do grande poeta Eugénio de Andrade encontrou um caminho firme e vai ser disponibilizada sem achaques nem interrupções. A Assírio & Alvim vai tomar conta dos escritos do saudoso Eugénio e acaba de pôr à venda os dois primeiros volumes, que correspondem aos cinco primeiros livros do autor. Num deles, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos e Os Amantes sem Dinheiro (um dos meus preferidos); no outro, As Palavras Interditas e Até Amanhã, este último de 1956, o que quer dizer que ainda há muito para vir porque, ao contrário de alguns poetas parcos ou preguiçosos (nos quais me incluo), Eugénio foi prolixo e escreveu até ao fim. Vou, por isso, ficar de papinho cheio, como todos os leitores que apreciam o grande mestre. E, só para espicaçar os que não se interessam por aí além pela nossa poesia, aqui vai um fragmento belíssimo de As Mãos e os Frutos (XXXV) que os tirará do marasmo.


 


Em cada fruto a morte amadurece


deixando inteira, por legado,


uma semente virgem que estremece


logo que o vento a tenha desnudado.

Comentários

  1. Que boa notícia! É um dos poetas que mais me têm acompanhado. É dele o primeiro poema que me lembro que querer saber de cor (É urgente um barco no mar). É dele um poema que enviei ao meu atual marido, na altura da paixão. É dele este lindo e triste poema que quero aqui deixar, embora incompleto:

    «...

    Já gastámos as palavras.
    Quando agora digo: meu amor...,
    já não se passa absolutamente nada.

    E no entanto, antes das palavras gastas,
    tenho a certeza
    de que todas as coisas estremeciam
    só de murmurar o teu nome
    no silêncio do meu coração.

    Não temos já nada para dar.
    Dentro de ti não há nada que me peça água.
    O passado é inútil como um trapo.
    E já te disse: as palavras estão gastas.»

    E, já agora, deixo aqui um link extraordinário para os amantes da poesia:
    http://www.astormentas.com/PT/autores

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    1. Oh que engraçado Anabela, eu recitei este mesmo poema ao meu actual marido, também no auge da paixão, isto é, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes e o seu corpo era um aquário.
      É infalível, eheheh!!!
      Isabel

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    2. Coincidências de poeta, Isabel, mas não de poema. E eu, nessa altura era a aranha e ele a minha casa. Valha-nos a poesia e a memória.

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    3. Bonita imagem!
      Isabel

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  2. A beleza nos poetas é poderem ir rapidamente do lodo e da lama ao mais bonito e florido jardim. Como a decadência e a prostração tem sempre no horizonte o seu contrário - mesmo que ele esteja para além da linha do horizonte e sejamos como viajantes no deserto à beira da ilusão de um oásis que nos sacie a sede - Eugénio de Andrade resolve o problema com um Quid pro quo que toma isto,

    «Passamos pelas coisas sem as ver,
    gastos, como animais envelhecidos:
    se alguém chama por nós não respondemos,
    se alguém nos pede amor não estremecemos,
    como frutos de sombra sem sabor,
    vamos caindo ao chão, apodrecidos.»
    (Eugénio De Andrade)

    ... por isto:

    «É urgente o amor.
    É urgente um barco no mar.

    É urgente destruir certas palavras,
    ódio, solidão e crueldade,
    alguns lamentos,
    muitas espadas.

    É urgente inventar alegria,
    multiplicar os beijos, as searas,
    é urgente descobrir rosas e rios
    e manhãs claras.

    Cai o silêncio nos ombros e a luz
    impura, até doer.
    É urgente o amor, é urgente
    permanecer.»
    (Eugénio De Andrade)

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  3. ocorreu-me agora que Os Amantes Sem Dinheiro daria um magnífico título em inglês: The Penniless Lovers.

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    1. Pelo contrário ! Tem uma ressonância horrível em inglês: amor sem sexo.
      Artur Águas

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  4. Gosto muito de:

    A Sílaba

    Toda a manhã procurei uma sílaba.
    É pouca coisa, é certo: uma vogal,
    uma consoante, quase nada.
    Mas faz-me falta. Só eu sei
    a falta que me faz.
    Por isso a procurava com obstinação.
    Só ela me podia defender
    do frio de janeiro , da estiagem
    do verão. Uma sílaba.
    Uma única sílaba.
    A salvação.

    Eugénio de Andrade, Ofício de Paciência (1994)

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  5. Luís Almeida Salvador Coutinho4 de novembro de 2012 às 08:57

    Boa Tarde Exma. Sra. Maria do Rosário,

    Sigo o seu blog desde o inicio, e diariamente, agora recentemente possuo um smartphone android e ainda mais fácil é ler tudo o que escreve. Tenho pena de não ter acesso ao "Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu", já a sua obra poética tenho vindo a devorar à migalha de um poema por dia, a ver se publica um novo livro antes de eu chegar ao último.
    Este post em concreto falando de um dos nosso maiores poetas, relembrou-me a minha história nos últimos 3 anos. "Primeiro Poemas" relembra-me os diversos poemas de amor que escrevi à minha companheira, principalmente no inicio da nossa relação. "As Mãos e os Frutos" transporta-me para as mãos dela quando saiu de casa e do casamento aonde estava e gritou mudamente por amor incondicional, frutos, neste caso fruto o filho dela que eu AMO imenso e que é a alegria da nossa casa. "Amantes sem dinheiro" leva-me ao nosso dia a dia, eu empregado numa indústria periclitante, ela desempregada com o fim do subsidio já à vista. "Palavras Interditas", aqui temos crise, desemprego e incerteza do amanhã, são palavras que tentamos banir do nosso dia a dia, outra é infelicidade apesar de a sentirmos a corroer-nos por dentro, acho que se pode dizer que começou com a intensidade de uma brasa e agora é um incêndio ao qual não vislumbramos a extinção, resta-nos arder e secar como as árvores de pé? Não é por falta de tentativas, diárias de ambos, o meu amor procurando uma brecha em tanto desemprego, e eu procurando um segundo emprego que me permita cumprir a promessa que lhe fiz: cuidar de ti e do nosso menino para SEMPRE. "Até amanhã" é o que eu penso que isto durará, só até amanhã, amanhã a sorte chega, amanhã algum familiar liga a dar uma boa-nova, amanhã algum estranho mas com bom coração tentará ajudar-nos, amanhã alguma resposta virá às milhares de candidaturas efectuadas, amanhã tudo não passou de um pesadelo, de um sonho mau como se costuma dizer aos mais pequenos.
    O que era para ser um comentário a um post literário rapidamente passou a desabafo, perdoe-me o atrevimento Exma. Sra. Maria do Rosário, mas às vezes é mais fácil falarmos com estranhos do que com conhecidos, nós já recorremos a tudo, como tantos outros por esse país fora, só não sabemos o que será de nós, penso que essa seja a grande dúvida no coração de todos: qual o fim que aguarda cada um?

    Será que o vento já corre na intensidade suficiente para desnudar tantas sementes que dele precisam? Ou vai a morte amadurecer e depois apodrecer-nos?

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