Filmes de escritores
Bela ideia teve a RTP de propor a quatro escritores portugueses relativamente jovens, mas já com provas dadas, que escrevessem um guião para um telefilme. São autores com linguagens completamente distintas em matéria de literatura (três deles também poetas) mas da mesma geração: José Luís Peixoto, Pedro Mexia, Valter Hugo Mãe e João Tordo (este último, se não erro, é o único com experiência na área, uma vez que foi durante algum tempo guionista de uma produtora de cinema e televisão e assinou, a meias, o script de, pelo menos, uma longa-metragem). O primeiro dos telefilmes – Entre Mulheres, de Peixoto – é a história de uma viúva com um segredo difícil de confessar e foi transmitido na quinta-feira passada (embora haja uma operadora que permite a recuperação de todos os programas que passaram nos últimos sete dias e essa possa ser a forma de o ver, se por acaso o perdeu). Contudo, ainda vamos todos a tempo de assistir aos outros três para sabermos se os nossos escritores têm também talento para passar da palavra à acção. O próximo a ser exibido chama-se Bloqueio, é assinado por Pedro Mexia e passa já nesta quinta-feira à noite. Nas próximas duas semanas, serão exibidos Crónica de Uma Revolução Anunciada, de João Tordo, e A Morte dos Tolos, de Valter Hugo Mãe. A realização desta mini-série, intitulada Portugal Hoje, é de Henrique Oliveira. Para variar, ver em vez de ler.
faltei ao primeiro, com um título bem sugestivo,
ResponderEliminardos que faltam sinto mais curiosidade pelo do Valter, mais uma vez, pelo título, claro.
por falar de filmes portugueses, no fim de semana vi por mero acaso o "Don Roberto", com o Raul Solnado e a Glicinia Quartin., na RTP Memória (alguém se lembrou de mudar...).
Nunca o tinha visto e sempre tive curiosidade, pelas criticas que li.
e gostei de ver, é um filme muito político (no espírito neo-realista italiano...) e bem interpretado, apesar dos parocs meios da sua produção.
Pois, por isso é que estou bastante preocupado com a eventual reformulação da RTP/RDP. Sobretudo a Antena 1 e a Antena 2: será que iremos ter mais Tvs à laia da SIC e da TVI, e a rádio, mais publicidade?
ResponderEliminarOra aqui está uma boa sugestão porque cá em casa ninguém vê a tv generalista, tirando um ou outro telejornal. Se não fosse o aviso da MRP teríamos perdido toda a série. Ficam marcadas na minha agenda as 22.15 das próximas quintas na RTP1. Obrigado !
ResponderEliminarComo amante da leitura e da escrita sempre tive um problema. Sou «boa boca», que é como quem diz, raramente desgosto de nada. Da história, à economia, à sociologia, às estórias , à ficção, ao romance histórico, ao conto, ao ensaio, aos clássicos, aos modernos... «papo» com os olhos, como é óbvio nos limites do bom - tom, do comportamento e da ética humana - que tanto persigo e preservo - quase tudo o que mexe e esteja à mão. O que não significa que não tenha o meu critério de ranking, de classificação, de «gosto mais ou gosto menos» - embora a minha escala pareça só ter ordenadas e abcissas positivas.
ResponderEliminarConheço mal a obra do Peixoto, do Valter e do Pedro Mexia: Mea culpa, falta minha, prejuízo insano.» Só por serem poetas, tenho por eles simpatia... e empatia, fazendo eles parte do meu catálogo de escrita viva. Do Pedro Mexia li, há pouco tempo, alguma poesia esparsa pela blogoesfera - de que gostei sobremaneira. Do Valter , o mãe, «Ò mãe, a sensação é a da urgência da leitura de que um filho pode ter por ti!»
Por outro lado, conheço bem a obra do João Tordo. Através da leitura de quase todos os seus livros, a quem segui o percurso e crescimento como escritor, a aprendizagem, a sedimentação do seu estilo muito cinematográfico e anglo-saxónico - de que também gosto, ou não fosse ainda um re-leitor de Faulkner , de Hemingway , ...
E só tal alguém alcança, a efémera virtude na escrita, dado que ser escritor não é um objectivo, é um processo!, e vale a pena ter presente as palavras da nossa amiga hospedeira…
«Eu não sabia que todas as noites do mundo eram efémeras.» M.R.P .; Poesia Reunida; pg.100)
Escrever para publicar é pois cada vez mais um acto efémero com pouco brilho, se só se justificar para adormecer as nossas mágoas, ou para nos transportar a um passeio de fantasias: «eu não sabia que toda a escrita do mundo era efémera.»
…bem como a deste:
«Really, it's an awful field," Tepper says he was told by Roth. "Just torture. Awful. You write and write, and you have to throw almost all of it away because it's not any good. I would say just stop now. You don't want to do this to yourself. That's my advice to you.»
Processo de necessidade e de gosto, quem trabalha com um olho na crítica e outro na autocrítica, semicerrando um para dar lugar e vez ao outro, reflectindo sobre os pontos de vista de terceiros - dando a ler «brutos, sebentas» mesmo que pouco cuidados ou cuidadas, escritos num jacto, por homenagem ou amiga provocação, contrariando ininteligentemente, ou propositadamente, como quem quer sentir o peso, avaliando numa primeira fase conselhos, para perceber intuições e piscar de olhos reflexos e emocionais, abatendo frios, necessários, profissionalismos, analisando e intuindo caminhos, amargando cortes necessários, mas dolorosos, «dos seus filhos», integrando conselhos, contexto, vontades, possibilidades... o mundo é infinito, mas o livro para o verdadeiro autor (como para o verdadeiro artista!) não merece um fim trágico na guilhotina.
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EliminarA um filho, a um nado morto, assim, guardá-lo-ia debaixo de uma almofada e como Gepeto dar-lhe-ia todos os dias uma nova forma, um nariz mais equilibrado que fosse capaz de olfacto, uma boca mais desenhada que permitisse tragar um prato com paladar e outros sentidos que o transformassem num nado vivo, bem diferente daquele de madeira inerte sem sentido.
Do Peixoto que me dizem caxineiro , e como gosto de quem ama o mar, irei ler a sua última obra, «O dentro do segredo»; e já que a percepção, quase pela certa errada quando se valorizam apenas impressões, partes ou excertos (em obra de peso, pensada, não em sebentas) e não se olha o todo - é no geral de um escrita demasiado intimista, demasiado do domínio do eu, e portanto à espera de momentos - tornando-a mais dependente de um tempo de leitura próprio, que eventualmente não lhe retirará qualidade, mesmo se condizer com uma percepção feita de manuseio «en passant» de livrarias várias a quem já faltam «os cabedais» para a refrigeração e o aquecimento.
Aqui, mea culpa, tive uma espécie de olhar de editor, condicionado este – mesmo se consciente e profissional, capaz da intuição dos que já muito viram - pelo tempo que vive, pelo lugar que ocupa, pela ditadura da moda que tem obrigatoriamente de seguir para não se condenar (julgam os irritados com a Merkel, como eu!, que ela é um produto de si própria ou reflexo condicionado da opinião pública a quem ter de servir?, ou julgam os ingénuos que o marketing é ainda de produção e não de consumo, «aportar valor ao consumidor é o mote», numa assumpção clara de que já não é o produtor - leia-se, escritor - mas o consumidor que manda?) Julgava o leitor desta maçada, que era ele o condicionado? Engana-se, que a condição de editor, no tempo de editoras condenadas, não, editores (que esses cada vez serão mais necessários, como conselheiros, quase como religiosos que distribuem comunhões e deslindam confissões), é condição de bem maior sofrimento. «Em tempos de racionamento somos obrigados a racionalizar as nossas escolhas pelo máximo denominador comum, sujeitos às massas e não sujeitando as massas a gostos estranhos de nichos, que desconhecem ou temem.»
Caro Pedro Sande,
ResponderEliminarQuem vive em Vila do Conde (mas não é de lá) é o Valter Hugo Mãe. O Peixoto é bem alentejano!
Escrevo-lhe este post a aconselhá-lo vivamente a não começar por "Dentro do segredo". Se não conhece o autor, na minha opinião deveria ler "morreste-me"; "nenhum olhar" ou "livro".
Para mim, que admiro muito o trabalho de José Luis Peixoto, são os seus livros que conjugam melhor o binómio qualidade/capacidade de agradar a um vasto público.
"Dentro do segredo", que já li, é na minha opinião a coisa mais fraca que ele escreveu. Daí lhe estar a escrever isto. Mas é apenas a minha opinião.
Cumprimentos,
Rui Miguel Almeida
Mas que coincidência. À medida que lia o comentário do extraordinário Pedro Sande, já planeava dar-lhe a resposta que lhe deu o Rui! Sim, é decidamente melhor começar por aí e esquecer a viagem à Coreia do Norte para já, porque é uma viagem muito mais longe da literatura do Peixoto.
EliminarObrigado, Rui, pela correcção, pelo conselho, pela opinião e pela atenção.
EliminarObrigado, também, Rosário!
EliminarPodia repetir com a mesma convicção da MRP: " o extraordinário Pedro Sande". Sou um grande admirador do estilo literário das suas prosas neste blog. Fui fazer uma busca na net à procura de livros da autoria de Pedro Sande. Sem sucesso, mas poderá ser inépcia minha. Se os houver, por favor informe-me porque gostaria de os ler. Obrigado !
EliminarTambém sou fã do Extraordinário Pedro Sande. Mas ele tem um blog, onde vai colocando alguns escritos, enquanto o livro sai e não sai!
EliminarObrigado pela informação ! Procurarei o blog e também esperarei pelo livro.
EliminarPara encontrar o blog é só clicar no nome do Pedro.
EliminarBoa tarde!
ResponderEliminarVi hoje a notícia da Escrytos, nova ferramenta de auto-publicação online da leya.
É interessante o faco de os direitos de autor serem de 25%.
É mais do que nos livros e papel.
Está lgada ao projeto? Acha que pode vir a ser rentável para os autores? As pessoas comprar livros online, se não for um autor conhecido?
Obrigado
Trata-se apenas de edição digital, e não em papel. Mas sabe que foi assim que começou o sucesso de As 50 Sombras de Grey? A autora fez autopublicação do seu livro e muita gente o leu! Tal como as pessoas vêem ler os blogues de outras que não conhecem, também compram livros online, sim.
Eliminar*vêm
EliminarAgradecida pela dica, desconhecia por completo a iniciativa.
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