Crianças protagonistas

Uma vez, numa velhíssima série de televisão dedicada à sétima arte, ouvi um realizador dizer que uma das coisas mais difíceis em cinema era trabalhar com crianças e animais, pois não havia ensaios que anulassem a sua espontaneidade, nem estratagemas que os convencessem a ficar quietos quando era preciso. Por mim, há muitos filmes com crianças nos papéis principais que me fizeram delirar de comoção – entre os quais destaco a primeira parte de Cinema Paraíso ou o mais antigo Lua de Papel, bem como o inesquecível Na América, que se tornou um dos meus preferidos pelas interpretações das duas meninas que acabam de perder um irmão. Mas há, mesmo para os que não são fãs de Manoel de Oliveira, um belíssimo filme português chamado Aniki-Bóbó – a primeira incursão na ficção do mestre centenário – representado por crianças, que levanta questões sociais importantes, numa espécie de neo-realismo cinematográfico avant la lettre (os italianos só começaram depois). Manuel António Pina – de quem é imperioso voltar a falar para que nunca seja esquecido – escreveu um ensaio sobre a obra de Oliveira intitulado simplesmente Aniki-Bóbó, no qual defende que, depois deste filme, o cinema português nunca mais conseguiu ser tão poético. No final do volume, agora publicado na Assírio & Alvim, figura a preciosa filmografia do mestre portuense, que pode ser consultada sempre que a memória nos falhe sobre o nome de um filme ou a data da sua exibição. Na capa, Eduardito, Teresinha e Carlitos olham, na montra de uma loja, a boneca que contribui para umas das mais dramáticas cenas deste filme maior.

Comentários

  1. O cinema está cheio de exemplos soberbos de crianças protagonistas, como o Sexto Sentido ou o Sol Nascente, onde a loucura da sobrevivência se incorpora num corpo infantil, num processo antinatura, mas assinalável (o filme vale por isso mesmo).
    Cinema Paraíso, apesar de ser real, é a verdadeira 'coisa' do outro mundo, único, belo e provocador de lágrimas, muitas lágrimas de ternura.

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  2. CINEMA PARAÍSO - é o belo, é o humano é a essência da Vida, e a música...

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  3. Quando me perguntam qual é o "filme da minha vida"- pergunta sempre muito dificil- digo sempre "Cinema Paraíso", penso que é mesmo o filme que mais vezes vi, fico sempre com a lágrima no olho, pela sua beleza e pela imensa ternura que emana. E a sua banda sonora é maravilhosa!!
    Um outro filme com uma banda sonora inesquecivel e que também tem crianças como protagonistas é um velho filme francês (1952) intitulado "Jeux interdits" ou "Brincadeiras proibidas". Tenho muito viva na memória a imagem da menina a correr gritando "Michel" enquanto se ouvia aquela música em pano de fundo...

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    Respostas
    1. Upps, fiquei anónima sem querer! ASSINO AGORA (sempre fico um pouco menos anónima).
      Isabel

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  4. Pegando na referência ao Manuel António Pina, permitam-me um comentário um pouco ao lado do tema cinematográfico do dia. Espanta-me que quase não se refira a única novela que o Manuel António Pina escreveu. Adorei "Os Papéis de K." e não percebo porque é tão subvalorizada. É uma história misteriosa, quase exótica, elegantemente exalando referências culturais ao Japão, a religiões ocidentais e orientais, ao labor dos eruditos, à tradução e à memória, a mundos vários, atuais e antigos, que nunca são o que parecem ser ou que são traidos pela memória. Que ideia fantástica essa do Manuel António Pina, bem antes da moda criada por Dan Brown, de imaginar que Cristo deixou descendência. Nos "Papéis de K.", Cristo não morre na cruz, mas sim um irmão em seu lugar, emigra para o oriente onde será a raiz de um clã sobre cuja descendência feminina cai uma terrível maldição a qual se concretizará no holocausto de Hiroxima. Uma narrativa, escrita em primeira pessoa, plena de reviravoltas e que não precisa de uma história de amor para a sustentar, mesmo sendo os dois personagens principais um homem e uma mulher, ambos trintões. Uma daquelas raras novelas em que as ideias movem a ação. No outro mundo, Borges já agradeceu a Manuel António Pina o ter-lhe proporcionado a leitura desta novela !

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