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Há muitos anos, o jurado de um prémio de poesia sem grande relevo confidenciou-me que não tinha lido todas as obras a concurso e que o mesmo se passara com os seus colegas. Numa altura em que não havia a profusão de prémios literários que existe actualmente (quase todas as Câmaras Municipais têm um prémio com o nome de um escritor nascido nas suas bandas), haviam concorrido àquele mais de seis centenas de originais – e quase todos de um nível confrangedor. Por isso, assim que apareceram, após trezentos ou quatrocentos livros maus, meia dúzia de obras com inequívoca qualidade para vencer, os elementos do júri comunicaram uns com os outros, atribuíram o prémio à mais votada e já nem abriram as caixas que sobravam. Não sei se isto é verdade, e estou a vender o peixe pelo mesmo preço que mo venderam a mim, mas às vezes há decisões que me fazem pensar se, efectivamente, os jurados lêem mesmo integralmente as obras a concurso. Tendo em conta que em Portugal se publicam anualmente centenas de romances, será que é possível cumprir essa tarefa? Imagino que a maioria dos membros de um júri deste tipo sejam críticos, académicos, jornalistas ou mesmo escritores com outros afazeres – e não é crível que arranjem tempo para tantas leituras integrais. Mas sei também que essas pessoas, regra geral, já têm uma noção dos autores a quem, de facto, é fundamental prestar atenção, mesmo antes de saberem quais as obras concorrentes: os consagrados, bem entendido, e, talvez, dos mais novatos, aqueles a quem foram dedicadas muitas críticas positivas e espaço num ou noutro programa cultural de rádio e televisão. Este ano, porém, fiquei bastante surpreendida com os vencedores dos maiores galardões para romances em Portugal, e não porque os livros em causa não os mereçam (vou, aliás, lê-los a ambos e quiçá concordar com a escolha), mas por nenhum deles ter sido, desde a publicação, objecto de aplauso estonteante e haver até um que passou algo despercebido; e igualmente por estarem a concurso dois gigantes, dois livros que levaram uma vida a ficar prontos, implicaram um trabalho incomparável de investigação e construção ficcional e foram referidos em todo o lado de forma elogiosa, mas que não foram sequer finalistas de, pelo menos, um dos prémios. Falo, naturalmente, de As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, e de Tiago Veiga, de Mário Cláudio, que são marcos não apenas nas respectivas carreiras, mas também na própria literatura nacional, e foram preteridos nas selecções, primeiro, e nas votações, depois. Não houve, tenho a certeza, nenhuma espécie de favoritismo (ou o seu contrário); contudo, lembrando essa antiga conversa que refiro no início deste post, ocorreu-me que são os dois bastante volumosos – entre setecentas e cinquenta e mil e tal páginas – e não consegui deixar de perguntar-me se terão sido lidos na íntegra por todos os membros desses júris. Não desfazendo nos vencedores, claro, espero que esta minha dúvida não tenha nenhuma espécie de fundamento.
Sim, às vezes dá para desconfiar...
ResponderEliminarEu quando vejo prémios atribuídos ao JL Peixoto e ao J Tordo também acho que os jurados não leram as obras todas. E você?
ResponderEliminarClaro que não. Assim como o Prémio Leya não implica a leitura de todas as obras. Se não como se explica o ano em que não foi atribuído e em que nem um se aproveitou para publcação (como sempre tem acontecido com outras obras a concurso nos outros anos)? A diferença seria tanta? Num ano nada presta e nos outros é difícilimo escolher. Tangas.
EliminarAliás, já li todos os livros premiados e são todos fracos; não acredito que não houvesse melhor. Às vezes emenda-se a mão, faz-se uma justiça mínima: O "Sandokan & Bakunine", por exemplo, é muito mas muito melhor que "O teu rosto será o último"... E outros casos haverá, mas que acabam destruídos.
A versão publicada de S&B não é a que concorreu ao prémio. O autor quis revê-la exaustivamente e demorou mais de ano e meio a fazê-lo.
EliminarQue eu saiba, só venceram o Prémio Literário José Saramago, para autores com menos de 35 anos publicados nos dois anos a que o prémio respeitava. É preciso ver as coisas no contexto. E, nesse contexto, considero a vitória mais do que justa.
EliminarEssa não é a questão. Quando quem ganha não lhe agrada, ou lhe agradavam mais outros, queixa-se; quando quem ganha lhe diz respeito é só foguetes e elogios. O mesmo em relação ao senhor do público que tanto criticou, o problema não era a substância era porque não gostava de quem você gosta ou edita. São críticas de mãe ferida e não de alguém que analisa e pensa o sistema. E essa é a sua maior pecha, faz parte dum sistema e analisa-o de forma emocional e primária.
EliminarNão tem razão. Tenho autores que foram finalistas noutros prémios e foram preteridos e não me verá comentar essas decisões, que compreendi e estão completamente justificadas pela qualidade dos vencedores. E Maria Teresa Horta não é publicada por mim.
EliminarEu não digo que o faça sempre, nem digo que só o faça em relação a quem edita, (por isso escrevi a quem edita ou lhe agrada), mas nesses caso é mais óbvio. A questão é quantas vezes criticou um jornalista simpático ou um prémio que foi atribuído a um autor seu? Nunca. E quando o faz sente-se sempre que é pessoal.
EliminarPosto de outra forma, quantas vezes olhou o sistema da crítica ou dos prémios e o criticou em geral, formulando uma alternativa ou pelo menos métodos que atenuassem os seus problemas? Nunca.
Por isso digo, reage indignada como a mãe a quem deram uma cotovelada no filho quando jogava ragueby, não percebeu que faz parte do ragueby acontecerem cotoveladas. É parcial. Se não quer cotoveladas proponha outro jogo; agora, se é este o jogo em que entra (e em em que tanto ganha) não devia criticar casos particulares, indistintos de tantos outros, só porque não ganhou quem preferia.
"Mas sei também que essas pessoas, regra geral, já têm uma noção dos autores a quem, de facto, é fundamental prestar atenção, mesmo antes de saberem quais as obras concorrentes: os consagrados, bem entendido, e, talvez, dos mais novatos, aqueles a quem foram dedicadas muitas críticas positivas e espaço num ou noutro programa cultural de rádio e televisão."
ResponderEliminarEstas palavras causam-me um misto de sentimentos. Claro que os consagrados são garante de qualidade. Mas precisam eles de tanto prémio? Se já são consagrados...
E os novatos que têm direito a críticas positivas e espaço em programas de televisão, têm-no por mérito próprio, ou por terem pessoas influentes por trás?
Sendo assim, até acho bem que se tenham premiado autores que não tenham "sido, desde a publicação, objecto de aplauso estonteante e haver até um que passou algo despercebido". Para isso mesmo é que devem existir os prémios! (Ou vários deles).
boa questão.
ResponderEliminarhá júris e júris, há prémios e prémios...
também já ouvi dizer que antes do júri ler as obras, em algumas autarquias fazem-se pré-selecções, que podem muito bem eliminar à partida autores e manuscritos, por questões que não têm nada que ver com a qualidade dos mesmos...
Não será porque a Maria Teresa Hora e o Mário Cláudio são autores consagrados, com um público leitor cativo, e o júri ter decidido chamar a atenção de autores menos conhecidos? Estaria essa ênfase nos novos prevista nos regulamentos desses concursos? No fundo, a maioria dos prémios (não o Camões, não o da APE) pretendem salientar novos escritores que assim recebem um (pequeno) empurrão para serem lidos. E eu até acho bem, porque se os prémios literários forem atribuídos só aos consagrados não cumprem uma das razões importantes para existirem: a de nos fazerem descobrir os Tordo, Mãe, Tavares, Cardoso, etc.
ResponderEliminarGrande Maria do Rosário Pedreira...
ResponderEliminarAssino.
Este é um post com coragem, justiça e sem hipocrisias.
ResponderEliminarS.
Estas coisas dos prémios, sejam literários ou outros, tem sempre muito que se lhe diga.
ResponderEliminarDesculpe a ignorância da pergunta, mas podia indicar, por favor, a que prémios se refere e quem foram os vencedores?
Antecipadamente grato.
PS: Não querendo ser polémico, considero José Luis Peixoto um dos nomes da literatura portuguesa capazes de conseguir coisas grandes (leiam prémios internacionais importantes). Morreste-me, Nenhum Olhar e Livro, na minha opinião, são obras primas. Aceito opiniões diferentes, como é óbvio.
Fiquei fã do seu blog, tenho descoberto muitos bons livros por se falarem neles aqui, e só lhe posso estar muito grato por isso.
Cumprimentos,
Rui Miguel Almeida
A questão, pertinente numa primeira análise, tem um calcanhar de aquiles: se acaso os vencedores tivessem sido autores consagrados era prova de que os romances dos "autores menores" foram lidos? E não tendo sido premiados esses "autores menores", acaso esta mesma questão teria sido levantada? Já não era injustiça? E o facto que sustenta a tese - tratar-se de obras volumosas, que roubam imenso tempo de leitura a quem não o tem - também tem pés de barro, porque é sabido que os jurados tinham apenas cinco obras seleccionadas para ler. E como se pode provar que os elementos do júri ainda não tinham lido as "grandes obras" antes de terem sido seleccionadas?
ResponderEliminarHaverá múltiplas razões que levam muitos jurados a não ler as obras a concurso, mas resume-se a uma: falta de seriedade - e, aí, cabe a quem convida tentar perceber qual o verdadeiro envolvimento dos mesmos. Contudo, considero que, lançar sobre todos os concursos essa dúvida, não deixa de ser "perigoso" (além de que parece estar a falar-se em dois tipos de concursos: os que distinguem éditos e inéditos - importa separar). No caso do PEN Clube (não estou a ver qual é o outro...), considero que, tal como alguém já escreveu, faz mais sentido premiar um título que se tenha dispersado no meio da oferta de qualidade, do que títulos de autores que não deixam qualquer margem de dúvida (ainda que, às vezes, possamos estar diante de uma obra menos possante no conjunto autoral). Para isso há os grandes prémios que consagram obras/autores. Neste caso, dada a bibliografia de Rita Ferro (de que apreciei apenas o 1º título, ainda que não me tenha debruçado sistemática e absolutamente sobre os restantes), acaba por ter um efeito "corrector" - referindo-se a um título específico. Ainda não li esta, mas já me leram passagens, e pareceu-me de excelente qualidade - tratando-se para mais de memórias, género em que às vezes o pezinho pode entortar. Confesso que pelo título não seria seduzida; que se não me tivessem lido partes não teria expectativas; mas sabendo da distinção ficaria curiosa, pois este Prémio merece-me alguma consideração.
ResponderEliminarA Maria do Rosário trouxe para a mesa um tema levado do diabo ( ou um tema que o diabo devia levar, se não fosse a sua propensão diabólica para o trazer). Isto soa-me a rebate.
ResponderEliminarSe não, vejamos.
A Maria do Rosário participa - ou já participou - na selecção "cega" , conjuntamente com outras editoras do grupo, para submeterem ao atarefado júri (que não tem pachorra para ler três ou quatro centenas de originais) os cinco, seis ou sete melhores. Ou seja, o júri lê apenas o que passou no filtro de um pré-júri colegial; este sistema, se bem que simplificado e garante de "todas" as obras inéditas a concurso serem lidas (?), não deixa de coarctar ao júri decisório a leitura de outras obras que poderiam obter boa pontuação nessa decisão final.
É evidente que falo do Prémio "LeYa", designadamente do ano em que não houve vencedores - o júri final "não" leu todas as obras a concurso; logo, as que o pré-júri escolheu, não lhes agradou e...zás! Nada para ninguém.
Devo avisar que não concorri ao prémio citado nem a outro, pelo que esta cátedra permite-me dizer o que penso sem questões pessoais a influenciarem o "dixit".
Sei que a Maria do Rosário teve coragem para falar sobre um assunto melindroso, tanto mais que constitui massa feita da mesma farinha com que molda a sua fornada. É também pré-júri, acredito que no seu caso lê mesmo as obras que lhe vão ter ao regaço; e saberá que, outra gente do meio, não o fará.
Aplaudo, pois, a frontalidade com que assumiu o assunto. Temo, no entanto, que isto seja prenúncio de que algo de errado possa pairar sobre o prémio da Casa, cujo seria nesta altura nascituro (quero dizer, pronta a selecção para o grande júri) ou mesmo já decidido. Depois, há uma estranha sensação de que o prémio pode vir a sofrer do mal da rotatividade a envolver escritores de países lusófonos, o que, a ser verdade, seria mau.
Enfim, um prémio deve ser atribuído em câmara escura - a obra vale, vence - independentemente as tendências etárias ou conhecidas do júri (do grande que é pequeno em número e do pequeno júri que é grande em número, mas que é decisivo na escolha dos eleitos).
De uma coisa estou certo - a Maria do Rosário pontua segundo os seus livres critérios e lê; pena que outros não façam exactamente o mesmo.
Quando eu andava a estudar, corria pelo liceu uma anedota e julgo que era comum a outros liceus - em que um professor corrijia os testes lançando ao ar as provas dos alunos: caindo na cama, negativa; caindo no tapete, suficiente; no penico, bom ou muito bom.
Ora, um original de muitas centenas de páginas, se caísse no "penico", fazia uma penicada!...
Na verdade, quando falei dos principais prémios literários, referia-me aos do PEN e da APE e para livros publicados, não para inéditos. Desculpe se me expliquei mal.
Eliminarnesse caso, as coisas são ainda mais simples, Rosário
Eliminarcomo se conhecem os autores, a pré-selecção deve ser feita mais pelos nomes que pelas obras em causa.
neste caso a surpresa foi o prémio conquistado pela Rita Ferro, que está longe de ser olhada como uma primeira figura da literatura.
parece que os vencedores antecipados perderam a parada.
As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta - é um bom livro. Ainda não li "TIAGO VEIGA" mas quero ler. Mário Cláudio é um grande escritor e recomendo-vos vivamente "CAMILO BROCA"-excelente!
ResponderEliminarOs filmes que ganham os "óscares", que tanta importância mediática têm, são oficialmente votados pela Academia das Artes e das Ciências de Hollywood que tem 6000 membros.
ResponderEliminarSe os produtores dos filmes (ficção e documentários) não os enviarem aos membros da academia e não os promoverem nas publicações do sector (o "Variety" é obrigatório...), os ditos membros nem reparam neles.
Ou seja, a maioria do júri (de 6000 membros!) não vê a esmagadora maioria dos filmes que tem de apreciar, porque não os conhece, porque não se desloca para os ir ver, porque não tem tempo nem curiosidade nem paciência para ver tudo, até porque se está nas tintas para muitos deles.
À escala portuguesa, os prémios literários funcionam da mesma maneira. A Maria do Rosário Pedreira pôs, como se costuma dizer, o dedo na ferida, fazendo uso de uma compreensível delicadeza.
Um bom exemplo é o/um livro para adultos de Alice Vieira, recentemente inserido ao PNL.
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