O homem-ilha
Perco-me por retrosarias e sou capaz de ficar horas a olhar para as suas montras ou lá dentro a mirar mil botões, fitas, novelos e fivelas como quem aprecia minúsculas obras de arte. Também por isso gostei tanto de ver o senhor Askenasi – o protagonista de A Ilha, de Sándor Márai – maravilhado diante da vitrina de um retroseiro, descobrindo a cor e o pormenor em tudo e compreendendo como andara, afinal, arredado das coisas belas da vida, embrenhado num quotidiano de livros, ordem e previsibilidade. O estudioso das palavras, professor de Grego, católico e sorumbático Askenasi ainda não está, porém, na ilha do título quando tira os óculos e vê o que antes nunca vira, mas numa estância balnear do Adriático, na qual se apeou a meio de uma viagem que o deveria levar de Paris, onde reside, à pátria de Homero – viagem que lhe aconselharam os amigos, convencidos de que assim recuperaria da insanidade que o fizera deixar a mulher, a filha e até o trabalho para viver com uma bailarina russa de reputação discutível e estranhas companhias. Mas nem a mulher abandonada nem a amante sensual parecem, porém, responder à sua satisfação, constituindo-se apenas como etapas anteriores a uma meta que Askenasi busca, incansável, e que pressente estar nesse lugar frequentado por turistas alemães pacóvios e metediços. Para a ilha, só irá realmente na sequência de um encontro com uma terceira mulher que o atrai ao seu quarto no Hotel Argentina e que ele crê irá dar-lhe a resposta que nem Deus é capaz de lhe dar. Magnífica, como toda a obra de Márai, esta novela lembra um pouco a solidão dos protagonistas de Morte em Veneza, de Mann, e do conto O Homem que Amava as Ilhas, de D. H. Lawrence, e também a novela homónima de Giani Stuparich, de que já aqui falei. Bela e imprevisível, representa o homem como a sua própria ilha, o indivíduo diante do seu destino inescapável.
Mas «nenhum homem é uma ilha», certo? Ai, que eu vou ter de me proibir de vir aqui, porque fico sempre com vontade de ler mais e mais livros e não consigo e depois fico triste. Não, não é nada disso. Gosto tanto deste espaço de partilha, talvez porque goste de aqui descobrir novos autores, mas sobretudo porque gosto de encontrar referências a livros e autores que já conheço, e que me fazem por vezes pensar neles de outra forma. Li há pouco tempo «As velas ardem até ao fim» e gostei mesmo muito. Fiquei com curiosidade em ler mais. E agora já sei por qual deverei prosseguir. Obrigada!
ResponderEliminarMas não deixe da ler A mulher certa que é, também, muito, muito bom. E a Herança de Esther e o Divórcio em Buda...são todos maravilhosos!!
EliminarA Herança de Eszter é absolutamente notável. Ainda gostei mais do que das Velas...
EliminarJá o tenho mas ainda não li; irei fazê-lo em breve. É um dos meus escritores preferidos de sempre: tenho tudo dele! Do publicado em Portugal, claro.
ResponderEliminarApenas uma curiosidade: a minha filha também adora retrosarias. E ainda só tem nove anos. Gasta lá grande parte da sua semanada. Ainda hoje estou para perceber de onde lhe vem esse fascínio.
A Herança de Ester, A Mulher Certa, As Velas... são grandes, grandes livros. Fiquei cheia de vontade de ler este... Bjs, Cristina
ResponderEliminarOfereceram-me este livro no fds: estou a gostar imenso. Tive direito a um exemplar 'especial': lá dentro estão folhas apanhadas do chão, que vão do castanho escuro ao amarelo forte, formando uma paleta de cores inacreditável. É um pormenor, mas que diferencia o livro enquanto objecto. Obrigada querida irmã!
ResponderEliminarDe retrosarias só gosto do colorido dos carrinhos de linhas, todos alinhados nas montras ou prateleiras, e já não é pouco. Este poste de hoje ficou também mais apelativo do que o de ontem, que era mais para o pessoal que se movimenta no meio de prémios e edições e menos para quem simplesmente quer ler. Além do mais tenho atração por ilhas, de preferência inóspitas. Esta não deve ser - algures no Adriático - mas só lendo.
ResponderEliminarQue coincidência... estou a ler e a gostar muito, como gosto de tudo o que já li de Márai...
ResponderEliminarLeio devagar, gosto de saborear este autor pouco a pouco, com pena de chegar ao fim depressa demais. É assim como deixar um caramelo derreter muito devagar na boca...
Marta
E se nesta ILHA se vê o senhor Askenasi maravilhado diante da vitrina de um retroseiro, descobrindo a cor e o pormenor em tudo e compreendendo como andara, afinal, arredado das coisas belas da vida, embrenhado num quotidiano de livros, ordem e previsibilidade, eu já vi um cágado subir um passeio, eu vi, mostrou-mo John Steinbeck "A LESTE DO PARAÍSO". Viram?
ResponderEliminarAmigo Severino,
EliminarEu também vi, aliás estou a visualizar o esforço do cágado a tentar subir o barranco.
Que grande livro "As vinhas da ira". A reler brevemente.
Abraço.
(Almeidinha)
N "AS VINHAS DA IRA"? Tinha a ideia que tinha sido "A LESTE DO PARAÍSO"...
EliminarGostei muito d "AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM" mas curiosamente não gostei nada d "A MULHER CERTA". Às vezes acontece-me...só que quando "deslargo" um livro já não lhe pego.
ResponderEliminarSou eu que quando "deslargo" já não lhes volto a pegar...
EliminarEsqueci-me de dizer que adoro retrosarias e costura e que tem sido o grande hobby que me tem roubado tempo à leitura. Até já recebi um elogio da autora deste blogue ao meu primeiro vestido!
ResponderEliminarÉ muito engraçado, aperceber-mo-nos dos outros gostos dos "extraordinários": subitamente tornam-se mais do que cabeças debruçadas sobre um livro aberto. No universo que, espontaneamente, lhe invento cara Anabela F. já coloquei uns botões e uns tecidos espalhados pelo chão e a imagem só se pode tornar mais rica.
EliminarE por falar em tecidos, veio-me à memória o discurso escrito pela nossa anfitriã, lido na apresentação do seu livro...Havia tanta poesia nesse desfiar de tecidos, lembra-se?
Isabel
Verdade. E era às bolinhas, um dos meus padrões preferidos.
EliminarÉ curiso o nome Askenasi, pois trata-se de uma designação de judeus (Ashkenasi) oriundos da Europa Oriental, de um ramo diferente do Sefardi ou Sefarditas.
ResponderEliminarPois bem, gostei da capa da D. Quixote - esta editora deve ter lá alguém com dedo para estas coisas, sem dúvida! E não brincam em serviço! O próprio "lettering" é adequado, o enquadramento ibidem, e na cor aspas, aspas.
Voltando ao assunto de ontem - e na perspectiva de que eu fosse um dos jurados - este livro, sem o ler, já seria seleccionado, por duas razões: a breve recensão da Rosário apela à sua leitura tragável; a capa é daquelas que brilham nos escaparates.
Conclusão: a brincar ou a sério, a Rosário já me vai fazer desembolsar o correspondente ao preço deste livro e vou lê-lo para encontrar nas suas páginas esses pedaços de retrosaria que, na verdade, me deslumbraram em pequeno e que me levaram a fazer uma colecção de botões coloridos.
Bem dita seja a hora que, pela primeira vez, descobri este blog.
Oh, obrigada!
EliminarQue GRANDE escritor!!! Tenho todos os seus livros e uma vez mais este último "A ilha" deliciou-me.
ResponderEliminarGostei muito de "A mulher certa", "As velas ardem até ao fim", "A herança de Esther " e ainda li um outro que só consegui através de requisição à Biblioteca das Galveias "A conversa em Bolzano " editado pela Teorema há muitos anos.
Foi uma perda enorme a morte (por suicídio) deste escritor húngaro e dou por mim a pensar quantos mais belos livros não teria escrito.
Aconselho vivamente a leitura das suas obras.
Um abraço para todos.
António Almeida (Almeidinha)
Quando li "As velas ardem até ao fim" (já ia na 13ª edição) fiquei absolutamente rendida. Comprei logo que pude "A herança de Eszter" e depois, num Natal em que me portei bem, recebi "A mulher certa". Igualmente muito bons. A ver se chego à "Ilha" neste Natal. :)
ResponderEliminarSándor Márai recomenda-se!
A Ilha ajuda a mostrar que o Homem comum passa a vida a tentar escapar ao seu Destino!
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