Livros da vida

Frequentemente, em suplementos culturais e revistas literárias, perguntam aos escritores quais foram os livros da sua vida – pergunta incómoda, claro, porque os livros da vida mudam muito ao longo da vida, e um título que, na juventude, foi extremamente importante e enriquecedor pode perder relevância noutro momento em que já se acrescentaram leituras mais significativas. Há também uma certa tendência para, nestas situações, os escritores referirem monstros como a Bíblia ou clássicos inescapáveis como Dom Quixote de La Mancha; e até pode acontecer mencionarem alguns livros só para mostrar que os leram, como o Ulisses de Joyce ou Em busca do Tempo Perdido, de Proust, os exemplos que mais frequentemente aparecem nessas listas. Numa entrevista ao vivo a Lobo Antunes, de que já aqui falei um dia destes, o jornalista Carlos Vaz Marques pediu ao escritor que partilhasse com o público os títulos de três livros da sua vida; ele sorriu sem fingimentos e contou que o mesmo pedido fora feito um dia a Oscar Wilde que, com a sua graça inigualável, terá respondido: Como posso avançar três livros, se ainda só escrevi dois? Os livros da vida de um escritor não serão, acima de tudo, os que escreveu?

Comentários

  1. Se tudo o que se leu - de forma mais ou menos evidente - está, na medida em que o influencia, naquilo que se escreve, é uma resposta certeira.

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  2. Nas cartas a um jovem poeta já Rainer Maria Rilke afirmava: «é evidente que se deve sempre preferir o difícil: tudo o que vive lá cabe». Já Cormac McCarthy replicava que: «as pessoas só crescem ao ritmo a que são obrigadas». Mas, porque as citações são infinitas, como as sensações que vivemos todos os dias, quantos pobres são precisos para fazer um rico? e, se para escrever «um livro é preciso ler mil livros», quantos escritor é preciso para se fazer um escritor?
    Nesta espuma dos dias cujas vagas são imprecisas, quantas vezes fúteis, faz sentido «Os livros da vida de um escritor serem, acima de tudo, os que escreveu».
    Mas, se assim é, porque se teima e calcula uma literatura da nossa fase infanto - juvenil quando, como diria Rilke , «a nossa alma é apenas ainda esboço, inquietação, desordem».
    Será que as nossas sociedades vivem na imaturidade e superficialidade dos dias? ... que é, segundo Rilke , a idade em que a felicidade vive a confusão de materiais desperdiçados!

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  3. Os primeiros livros da minha vida eram Os Cinco. Maravilhosamente enormes metiam família, amizade, férias, ilhas, barcos, banhos de mar, bicicletas, grandes piqueniques onde se comiam fabulosas sandes, muitos passeios e aventuras.
    Como duvidar da influência destas leituras na vida prática, do dia-a-dia? E não só no dia-a-dia da minha infância pois o agrado com que lia estes livros contribuiu e muito para ganhar o vício da leitura, logo, para fazer de mim quem sou.
    Se pensarmos bem, acho eu…, os verdadeiros livros da nossa vida – se é que isso existe – foram livros infantis ou juvenis, foram aqueles que nos fizeram entrar neste maravilhoso mundo e optar por ficar cá dentro.
    Respostas pseudo intelectualóides são tontas e, grande parte das vezes, ridículas.
    É claro que hoje leio Os Cinco com os meus sobrinhos e não é a mesma coisa, nem tem neles o efeito que teve em mim (não tinham telefones nem ipad’s, pod’s e eteceteras!). Mas da mesma forma que ainda hoje umas colheradas de Cerelac me sabem a ginjas, também não recuso uma tarde de leitura com os meus companheiros de infância. Não são estas algumas das características que fazem os livros da nossa vida?
    Desculpem aí ó Joyce e ó Proust… mas vocês, tal como milhares de outros, entram na vida das pessoas quando essas vidas já vão adiantadas e, entretanto, outros fazem parte delas desde sempre. Pena que sejam tantas vezes esquecidos e secundarizados, quase como se tivéssemos vergonha.

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  4. 1. Vejo que «a espuma dos dias» é uma expressão corrente nos comentários deste blogue. Não sei se é um dos livros da minha vida, mas marcou-me mais do que outros, sim. Desde que vim viver para a zona de Lisboa que todos os anos me constipo e fico com falta de ar. Tenho andado assim. Há talvez dois dias, lembrei-me desse livro por causa da flor que nasceu no peito da amada do protagonista. Emprestei este livro e ainda não voltou.
    2. Hoje de manhã pensei no «Amor nos tempos de cólera» e na presumível razão para tanta gente o apontar como livro da sua vida: a certa altura todos nós já vivemos uma história de amor que não ficou bem esclarecida, bem resolvida, que poderia ter sido mais, que poderia ter tido um final mais feliz. E continuar a acreditar num amor assim, que resiste ao tempo e que no final ainda vai a tempo de recuperar o tempo perdido é tão poético...
    3. Nos livros da minha vida também andaram Os Cinco, sim, mas os manuais da escola primária foram os que levaram até ao mundo da poesia e é a esses que devo este gosto pela leitura e pelos livros. Talvez por isso hoje esteja no mundo do editorial escolar, quem sabe.

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  5. Como infelizmente descobri tarde a literatura, a minha preferência para um determinado livro tem um prazo de validade mais reduzido do que um iogurte. Assim sendo, o último livro que me deixou às voltas com um sorriso, com náuseas, com lágrimas, com um nó na garganta, etc, foi O Desprezo, de Alberto Morávia.
    Por outro lado, responsabilizo outros dois livros livros que me despertaram para a literatura: O Que Diz Molero, de Dinis Machado e Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes.

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  6. Todos os livros que nos marcam, também o fazem no contexto em que são lidos. Depois as memórias que fazemos deles, como qualquer outras, são reconstruídas com o tempo. Mas há pouco tempo regressei por acaso, a um livro da minha infância, a Princesinha, de Frances Burnett. Foi um daqueles reencontros raros em que dizemos à outra pessoa: Estás na mesma. E estávamos, ou pelo menos o eu que fui há 30 anos atrás e aquele livro de capa azul que me fez acreditar que o mundo pode ser apenas um momento em que "supunhamos" qualquer coisa.

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  7. O livro da minha vida...
    Teria de perguntar em que sentido... pelo positivo ou negativo? Pelos sentimentos que me fez descobrir ? Pelas portas que me abriu? Pelo sentido que tenha ajudado a dar à vida ou às idéias, imaginação?
    Em que sentido?
    De qualquer modo é-me impossível escolher um!
    São quase todos os que li... e seria mais fácil designar o que menos gostei...
    Também destaco os da minha mais remota juventude, ainda infância, pois foram esses que me marcaram ao ponto de decidir desde logo que um dia ia escrever também um: - O livro que eu gostaria de ler e que dissesse as coisas que eu quereria ler!
    Como só escrevi um, esse é o livro da minha vida, mas sobretudo entendam que é fruto dos muitos outros que li e me marcaram, sem dúvida, e a eles se deveu!
    Perdoem-me a aparente falta de modéstia mas acho que me compreendem...

    Saudações do Bairro Ribatejano

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    1. Peço desculpa por esta intromissão, mas tenho tentado contactar o António Luiz Pacheco por email, sem conseguir (parece-me). E não tenho outro meio de lhe chamar a atenção!

      Caro António Luiz: mudou o seu endereço email? Se sim, envie-me uma mensagem para andancas@t-onlinde.de!

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    2. Sorry!
      andancas@t-online.de

      (ainda bem que dei por este erro a tempo ;)

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  8. A resposta do Wilde , na minha opinião, serve apenas para mostrar uma personalidade rebelde e dar uma resposta irreverente, nada mais do que isso.
    Eu, quando era novo, e como tinha a mania que ser diferente “é que é”, preferia os Sete aos Cinco. “A fada Oriana” e o “Rapaz de Bronze” da Sofia de Mello Breyner foram talvez os primeiros livros “sérios” que li. “O Principezinho” também me marcou.
    Depois… Não sei. “Dom Quixote” é incontornável, magnífico e, sobretudo, viciante.” Ulisses” é uma obra-prima e representa uma rutura clara e evidente na literatura moderna. Difícil? Não percebo porquê! Narrativa não linear? Vozes não assinaladas? Saltos no espaço e no tempo? Neologismos? Mas para não dar uma de pretensioso, posso dizer que li dois livros da Margarida Rebelo Pinto e não vejo onde é que está o mal. A não ser por vender muitos livros e isso causar comichão.
    “Morte a crédito” e toda a obra de Céline . “O som e a fúria” do Faulkner . “O Grande Gatsby ” e toda a obra do Fitzgerald . “A explicação dos pássaros” e toda a obra do Lobo Antunes.

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  9. Desculpem estar a ser chato. Mas (na minha juventude) tenho de agradecer a alguém que me explicou certas coisas que eu sabia existirem mas para as quais não tinha explicação. Obrigado Miguel Esteves Cardoso. Abri os olhos para “a causa das coisas” e fiquei a perceber, em parte, porque é que “o amor é fodido”.
    Pronto, já não chateio mais.

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  10. Os livros da minha vida? São todos aqueles dos quais retirei a percepção de terem sido escritos com uma visão crítica da época à qual respeitam e que, por esse motivo, requereram, mais do que simples qualidades literárias, coragem e afoiteza, da parte dos seus autores. Exemplos?
    - O processo - Kafka ;
    - A Peste - Camus;
    - Os Miseráveis - Victor Hugo;
    - Anna Karenina - Tolstoi;
    - Oliver Twist - Dickens;
    E, claro está, o nosso Eça, em qualquer uma das suas obras, mas, particularmente, nestas:
    - O Crime do Padre Amaro;
    - A Tragédia da Rua das Flores;
    - Os Maias.

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  11. O livro da minha vida é aquele que eu ando a escrever para me abrir as portas de um Nobel e que eu teimosamente pretendo inacabado por saber que jamais atingirá esse galardão. Tem trinta páginas completas, depois de ter enviado para o lixo mais do dobro dessas. É um livro que não me deixa satisfeito, entediaria um editor e deixaria um comprador a reclamar pela devolução do dinheiro ou por uma troca qualquer.
    O livro da minha vida seria aquele sobre a "minha" vida. Qualquer outro, escrito por qualquer gato pimpão, levado aos píncaros pela publicidade de qualquer endemoninhada editora, deixa-me "qualquer" sensação que, apesar de bom, podia ser melhor. E - é bom dizê-lo - para mim estaria a muitas jardas de distância da qualidade do meu, mesmo inacabado.
    É o que me cumpre dizer a esta desafio.

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  12. Tenho demasiados livros da minha vida para dizê-los. E já muita gente aqui disse alguns. Mas aquele que mais folheio - apesar do ggogle - é o dicionário. Ok, não tem história. Ou tem. Tem a minha história de crescer por dentro das palavras. Deu-me o entendimento de milhares de coisas, a compreensão de palavras e frases inúmeras, crescemos os dois um para o outro. Pertencemo-nos indissolúveis. Há grande probabilidade de que só a morte nos separe:)

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