Saber e não saber línguas

Tenho a certeza de que aprendi muito do francês que hoje sei com os álbuns do Tintim do meu irmão mais velho, de lombo redondo, capa dura e cheirinho a papel e tinta. E também estou certa de que enriqueci extraordinariamente o meu vocabulário da língua inglesa com a ajuda das letras de muitas canções dos Beatles e não só e de várias séries de televisão. Por outro lado, já ouvi, fascinada, um poeta da Eritreia declamar um longo poema num festival em Liège – e foi como se, mesmo não compreendendo uma palavra do que dizia, a comunicação se estabelecesse e fizesse explodir os aplausos assim que terminou; do mesmo modo, fui uma vez levada por uma amiga entendida em teatro a uma peça de uma companhia polaca: conhecia o enredo, mas não havia tradução – e não fez assim tanta falta entender o que diziam, porque a encenação e a cenografia eram, já de si, sublimes e encantatórias. Mesmo assim, fiquei perplexa quando recentemente li nos jornais que, por falta de verba, a Cinemateca iria deixar de legendar os filmes… Céus, como ver cinema russo, polaco, alemão, japonês, chinês, sem legendas? Terá algum sentido sentarmo-nos a ver um filme mudo que, por acaso, não é mudo? Quantos menos espectadores virá a ter a Cinemateca por causa da miserável poupança? A sua programação obedecerá doravante a uma selecção de filmes de línguas mais próximas e com mais falantes? Seremos privados de um certo cinema de qualidade? E se, de repente, não houvesse dinheiro para traduzir livros?

Comentários

  1. Entretanto os gastos estratosféricos com as PPP, que os especialistas estimam em 80 mil milhões (sim, só por estimativa, porque o actual e transparente governo que temos esconde os contratos), os 3.4 mil milhões do BPN e os 500 milhões do BPP, os mil milhões dos submarinos, etc., etc., esses continuam impunemente.

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    1. Saber ou não línguas é, hoje, e cada vez mais, não saber a mais importante língua das relações entre os homens: a língua do «Bom Senso».
      O sucesso do Brasil actual, resume-se numa palavra de um ex-metalúrgico: «fazer o óbvio».
      Em todos os momentos da nossa história as nossas elites, pela definição de Gaetano Mosca - as do poder, não as reais, sempre foram o pior que Portugal «se pôde orgulhar».
      Mais uma vez um diletante, um «não ouvinte do outro», prepara-se indirectamente para a estocada final do nosso Portugal negando outro caminho.
      Cabe ao povo, o seu melhor corpo, que aprende tão rapidamente como infelizmente esquece, muitas vezes também nos períodos de bonança com uma responsabilidade marginal por omissão, não permitir uma regressão sem limites - com consequências dramáticas na cultura e na própria subsistência diária de uma maioria de portugueses.

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  2. Apesar da tristeza que atravessa este post não pude deixar de sorrir. Lembrei-me de uma pessoa que conheci há muitos anos e que 'papava' tudo quanto a Cinemateca passava inclusive filmes russos legendados em checo e outros que tais. Quando lhe perguntávamos o que retirava daquilo ele dizia que o 'seu grupo' via muitos filmes por causa da luz, dos cenários, da perspectiva, etc., etc.
    Por outro lado, uma das memórias mais fortes que guardo é da primeira visita a Marraquexe e de ouvir contar estórias na Jemna El Fna por um árabe enorme, vestido de negro do turbante aos pés. Não percebia uma palavra do que dizia, mas sentia tudo: o olhar dele, as expressões faciais e corporais 'compensavam' o desconhecimento da língua, e a narrativa não me chegava, é certo, mas fui inundada pala passagem de sentimentos, acho que posso catalogar assim aquilo que recebi: medo, surpresa, mistério, vingança, entre outros. Era como se a estória tivesse várias dimensões que não eram perceptíveis por todos os que a ouviam de igual forma.
    Depois destes apontamentos, e sobre as questões levantadas no post, resta-me dizer que a pobreza está tão forte que até nos atinge a alma.

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  3. "E se, de repente, não houvesse dinheiro para traduzir livros?". Ora aqui está uma pergunta que é tudo menos retórica. Que pode, quando muito, admitir uma versão intercalar: E se repente não houvesse dinheiro para traduzir livros decentemente?

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  4. Há já vários anos que existem cópias de muitos filmes oriundos de países de línguas de conhecimento mais restrito que são destinadas aos circuitos dos festivais e que saem com legendas normalmente em inglês.

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  5. A Cinemateca tornou-se autónoma em 1980.Ponto. Tem por missão, entre outras - incentivar a difusão e promoção não comercial do cinema e do audiovisual, nomeadamente através do apoio às actividades dos cineclubes e aos festivais de cinema e vídeo. Ponto. Sendo assim (não vendo eu por que se cortou um serviço que não teria relevância em termos financeiros), não deixo de perguntar se os cineclubes, festivais e exibições cinematográficas não podem ser feitos, à semelhança do mundo dos livros, a pagar por quem vê. Ponto de interrogação e parágrafo aqui.

    Mas a Rosário veio estabelecer uma comparação com o “nosso” mundo dos livros e interroga como seria se não houvesse dinheiro para as traduções!
    Ó Maria do Rosário, quem paga as traduções são os leitores ou as editoras, caso não vendam; aqui não há “jantares grátis” nem “difusões ou promoções não comerciais”.
    Não sei como é que se pode comparar uma coisa com outra. Temos de deixar de ser Calimeros e voltar à pragmática da vida: não há dinheiro para o essencial, o supérfluo tem que se financiar por si próprio.
    Se o editor não pagar ao tradutor, não há livro traduzido; mas não vai o editor pagar ao tradutor para colocar o livro gratuitamente a quem o quer ler. Será outra a questão quando os editores não tiverem dinheiro para as traduções. Então? É o Estado que as vai financiar? E por quê? Não há escritores em Portugal que não precisam tradução e são preteridos por escritores menores de outras latitudes pela simples razão de que os direitos e as traduções ficam mais baratos do que as produções nacionais?
    Já será outro o argumento se compararmos com as PPP, BPN e outras “manigâncias”. É claro que algo está mal, mas cabe-nos a nós, um por um, resolvermos isto na hora certa.

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    1. O problema essencial é de ética e opções.
      Opções pelo sim ou não à cultura, dentro de recursos sempre escassos e que não podem asfixiar os agentes; cultura que enche «barrigas e corações» por pouco dinheiro e que tem um efeito bem mais multiplicador que os BPN, PPP...
      Como alguém dizia muito bem ontem no «Prós e Contras», quando o caminho é estreito (mesmo em estado de necessidade), é porque não se soube alargá-lo (e como a história nos mostra os caminhos a evitar).
      E é na ética da formação e do investimento cultural (que não é despesa) que podemos evitar a bastardia nacional dos elementos supra e Cia... com os óbvios limites do «Bom Senso» e do «corrupção» que se estende, muitas vezes, também à cultura.

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    2. Declaração prévia de interesses: sou tradutor.
      Dito isto, apenas dois breves comentários ao comentário de Jocamartinho:
      1º. A afirmação "não há dinheiro para o essencial, o supérfluo tem que se financiar por si próprio" é cristalina e explica tudo o resto. Mais palavras para quê?
      2º. A (aparente) pergunta "Não há escritores em Portugal que não precisam (sic) tradução e são preteridos por escritores menores de outras latitudes pela simples razão de que os direitos e as traduções ficam mais baratos do que as produções nacionais?", além de maniqueísta e xenófoba, é de fundamento duvidoso. Não me parece que, para um editor português, fique mais barato pagar os direitos e as traduções (apesar de baratas) do que produzir livros de escritores nacionais "maiores" do que os traduzidos. Também aqui, como em tudo, há maiores e maiores, há menores e menores.

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    3. Como diria o Eça, o tradutor Francisco Agarez partiu-me um braço quando achou que a minha afirmação era maniqueísta; arrancou-me uma perna quando me atribuiu xenofobia a tudo o que precisasse tradução; possivelmente colocar-me-ia numa cadeira de rodas se eu, na minha intervenção-comentário, incluísse em "índex" expurgatório os livros de autopres de língua portuguesa não nacionais - era racismo.
      No entanto eu não fiz nada disso, embora ainda me considere maniqueísta e não xenófobo. O Bem está de que lado? Quem são os Bons e os Maiores? Acabou-se a dicotomia Bem e Mal?
      Agarez, que nos traduziu Roth, não devia ter retirado a minha frase - que citou - do contexto que vinha de trás, pois cortou braço e perna ao texto. O que eu escrevi antes, foi: "Será outra a questão quando os editores não tiverem dinheiro para as traduções. Então? É o Estado que as vai financiar? E por quê? "
      Assim, essa minha frase, a seguir, prossegue esta hipotética situação, que jamais se colocaria - é mera retórica, porque haverá sempre editores a traduzir livros estrangeiros (embora eu preferisse que traduzisse os bons - logo, o meu espírito maniqueísta).
      Caro Agarez, por mim não acabam os tradutores portugueses, até porque tenho uma obra minha traduzida em inglês e castelhano. E também não acredito que acabem as editoras por não recorrer à tradução de obras para português.
      O que, por vezes, me repugna, é o politicamente correcto e considerar que só é bom o que vem de fora. Saiba que, há uns anos atrás, dava eu os primeiros passos no mundo da publicação, entregava ao editor obras com um pseudónimo americano, uma forma (in)correcta de colocar o interesse dos leitores nesse género de literatura.
      Serrá isto o lado xenófobo do leitor nacional, não sendo chauvinista nem nacionalista?
      Descanse, caro Agarez, que considerro o seu comentário pertinente, embora despropositado na forma como rotulou o meu; e garanto-lhe que, das feridas causadas, já tive alta do hospital.

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    4. Ainda bem que se refez depressa, caro Jocamartinho. Sinal de que não lhe cortei perna nem braço, nem me pesa na consciência o pecado de o ter retirado do contexto. Os meus dois comentários referem-se a dois parágrafos separados da sua prosa. E não desvirtuam o respectivo contexto.
      E ainda bem que não lhe inutilizei, nem sequer transitoriamente, a mão que escreve. Leio-a sempre com gosto.

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    5. Pese embora a linguagem metafórica empregue, compreenda que não fiquei ofendido e também não quis ofender.
      Agradeço e retribuo o gosto de ler boas traduções - daí pretender a continuidade dos bons tradutores - como são aquelas que levam a sua assinatura.

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  6. António Luiz Pacheco16 de outubro de 2012 às 03:39

    Partilho da preocupação manifestada pela nossa Extraordinária Anfitriã.! Porque também sinto que a cultura, como sempre, é relegada e desprezada como sendo supérflua, talvez até nem interesse cultivar e educar, segundo a óptica dos pequenos deuses tiranos que nos governam...

    Ainda ontem ouvi aqui, na TVI-não-sei-o-quê, o dr. Medina Carreira dizer que o governo tem falta de bom-senso... eu cá estou convencido de que somos governados é por imbecis!

    Por outro lado, concordo inteiramente com o que diz o Extraordinário Jocamartinho!
    Será defeito meu, que não sendo homem da cultura e antes da produção e gestão, tenho de
    pensar na viabilidade das coisas??? (Enfim de algumas, pois também sou em boa parte um conquistador do inútil)
    A cultura como as pessoas em geral deviam de facto buscar uma independência, tanto económica como até política!
    Mas, também sabemos que isso iria obrigar a um trabalho para que não se está preparado e se ia deixar de poder fazer e apoiar "grupinhos" e certos interesses... teria de se ir ao encontro do que o público quer e para se poder manter um certo nível havia que educar e habituar as pessoas... isso pede trabalho e algumas competências que não existem nem se cultivam no meio da cultura... será?

    Saudações do Planalto Central

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  7. Este post faz-me lembrar uma senhora alemã, a quem dei aulas de português. Ela trabalhava no teatro (sem ser atriz, penso que seria assistente de qualquer coisa, já foi há mais de dez anos e não me lembro bem). De qualquer maneira, ela disse-me que gostava muito de ir ao teatro, quando estava em Portugal. Como eu tinha plena consciência dos seus parcos conhecimentos da nossa língua, perguntei-lhe porque o fazia, já que não devia entender nada. Ela disse-me que não precisava de entender o que se dizia para gostar de uma peça. Uma vez, até foi assistir a uma que se resumia a um monólogo, com um único ator, e adorou a sua representação.

    Não sei se o mesmo se pode aplicar aos filmes. Depende do filme e do que o espetador espera dele. Com a legendagem em inglês, resolve-se o problema a muita gente, embora seja pena que se prescinda da legendagem portuguesa.

    Quanto às traduções de livros: penso que, apesar da crise, enquanto houver editoras que consigam editar livros, terão dinheiro para pagar traduções. Se todas as editoras fossem à falência, claro que também não haveria traduções, mas, nesse caso, também não haveria livros. Um cenário muito pouco provável, portanto.

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    1. Apesar do meu comentário anterior ter sido longo, lembrei-me de mais uma coisinha: nos meus primeiros anos na Alemanha, não conseguia ver filmes, nem ir ao cinema. Porquê? Porque os filmes são todos dobrados em alemão, o que acho horrível, apesar de o nível da dobragem ser boa. Mas que saudades que eu tinha das legendas em português!
      Depois, fui-me habituando, que remédio...

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    2. Nº 3:

      "Apesar de o meu comentário..." ;)

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    3. a senhora alemã sabe-a toda, Cristina.

      o teatro, a poesia e as canções, são muito mais expressivos que o mundo real, de onde parte o cinema.

      muitas vezes a linguagem corporal faz milagres.

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  8. é uma perfeita estupidez.

    provavelmente querem acabar com a "Cinemateca", mas não têm coragem, e então optam por destruí-la aos poucos.

    foi assim que conseguiram destruir a CP e os comboios, o melhor transporte do mundo.

    tenha pena que o Francisco esteja metido nesta coisa, mas ele é que traça o seu caminho e escolhe os amigos.

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  9. Parece-me que li que serão só os filmes espanhóis e italianos...

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  10. Quase apostava que ninguém terá imposto à Cinemateca a não legendagem dos filmes (dos novos, presumo, porque a esmagadora parte do espólio estará legendado e legendado permanecerá ao nosso dispor). Assim, presumo novamente, terá sido uma opção da própria Cinemateca, face ao aperto orçamental que é agora comum à maioria dos cidadãos e instituições. Só se poderia avaliar da justeza da decisão (?) analisando os cortes e as diferentes opções de contenção disponíveis, mas fico com a ideia que o anúncio o será mais do ponto de vista do simbólico.

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