Prenda de aniversário

Recentemente, a Dom Quixote organizou uma sessão mais ou menos íntima para comemorar o décimo aniversário da primeira edição de O Vento Assobiando nas Gruas (sim, também se falou da estranheza do título), de Lídia Jorge. Quando digo «íntima», quero sobretudo dizer que não se tratou de uma festa com bolo e champanhe, embora, tanto quanto sei, a entrada não estivesse restringida apenas a uns happy few – aliás, acabou por aparecer muito mais gente do que o petit comité que a escritora imaginara. (Desculpem tanto estrangeirismo, não sei o que me deu hoje.) Devo dizer que foi, em muitos anos de livros, um dos melhores fins de tarde a que tenho assistido, porque, instigada pela jornalista Filipa Melo, Lídia Jorge não parou de dizer coisas interessantes, sérias quase todas – e muito sérias – mas não deixando de temperar a conversa com umas pitadas de humor que deliciaram a assistência. Entre elas, uma história que dedico especialmente ao meu leitor «Monchique», que é, segundo percebi, um amante de Agustina. Pois confidenciou Lídia Jorge que, pouco depois de ter publicado o seu primeiro romance (O Dia dos Prodígios), recebeu da grande senhora do Norte uma cartinha que dizia o seguinte: «Bem-vinda a esta arca da desaliança. Oxalá a leiam. Oxalá lhe paguem.» Genial, como só ela consegue ser. O romance de Lídia que fez dez anos, e que ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da APE e o Prémio Literário Correntes d'Escritas, está aí de cara lavada para quem perdeu a oportunidade de ler uma das cinco edições anteriores. A ele voltarei, naturalmente, um dia destes: uma sessão que rende dois posts já se viu que foi boa, uma prenda para quem lá foi.


 



 

Comentários

  1. Mais um para a longa lista.

    Confesso que ainda não li nada desta escritora, mas dela já comprei pelo menos dois livros que quase todos os dias me piscam o olho...

    ResponderEliminar
  2. Excelente livro.
    Muito triste. Amargurado, até.
    Á data em que o li pareceram-me improváveis tanta maldade e desapego.
    Hoje, já não digo nada...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Perdoa-me Sandra mas à data (é que me engasgo quando alguém dá pontapés na língua portuguesa, por pequenos que sejam, mesmo destes que não magoam, eu às vezes também os dou e alguns devem doer bastante)

      Eliminar
    2. A Severino: não se tratou bem de um pontapé. Errei ao teclar e depois o corrector já não me permitiu a modificação. (estava num dispositivo portátil com o qual usualmente não trabalho)
      Mas obrigado de qualquer forma. Apesar de ter noção do que escrevi e de me preocupar mais, geralmente, com a auto-crítica do que com a correcção alheia, é bom constatar que existe quem esteja atento...
      A propósito: leu o livro?

      Eliminar
    3. Aliás, se quisermos ser rigorosos (e apesar de eu raramente me engasgar com os erros alheios, até porque enganos todos cometemos...) quando citamos alguém devemos fazê-lo com recurso à pontuação adequada, nomeadamente, aspas, fazendo preceder a citação de dois pontos...

      Eliminar
  3. Um dos livros da minha vida. Pena não ter tido conhecimento desse encontro que, com certeza, me teria infiltrado em tão agradável encontro.

    ResponderEliminar
  4. Da Lídia Jorge, para lá da obra publicada que fui lendo (e ainda me falta muito), o que recordo é de um serão no Vává, ali para a Av. Roma, Lisboa, onde falou sobre a sua obra e experiências de vida. Estava lá em reportagem e fiquei impressionado pela sua simplicidade, pela simpatia e desprendimento com que falou, pela ausência (voluntária) da "aura" de escritora com que soube apresentar-se perante uma plateia informal. Muito respeito pela autora, ainda mais pela pessoa.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nas tertúlias do Lauro António?

      Eliminar
    2. VÁVÁ . oh se me lembro eram Tertúlias pró POVO, estava lá sempre o POVO todo (da Avª de Roma e cercanias...tudo POVÃO ...lembras-te Almeidinha?)

      Eliminar
  5. Penso que foi este livro da Lídia Jorge que foi considerado, no ano em que foi editado nos EUA, com um dos melhores livros traduzidos nesse ano, o que é obra !

    ResponderEliminar
  6. Tinha lido "A Costa dos Murmúrios" e conheci Lídia Jorge exactamente em 29 de Abril de 2011 aquando da apresentação de "A Noite das Mulheres Cantoras", na Fig.Foz. Comprara o livro uns dias antes, andava a lê-lo, já ia na página 40 e não perdi o evento. Trocámos, assim, impressões sobre isso. De resto fiquei preso à sua presença, às suas palavras, à sua simpatia e simplicidade, e à forma serena de comunicar. Recebi um agradável autógrafo. Gosto de conhecer os escritores.
    Carlos Reys

    ResponderEliminar
  7. Mais um para a lista. Até porque já estava curiosa : recordo-me de, no Câmara Clara, durante um programa com a Lídia Jorge, a Paula Moura Pinheiro referir, ser este o seu romance preferido. Por isso, já estava a pensar comprá-lo, independentemente da reedição.
    Apenas li dois livros desta autora: O vale da paixão e o A última dona. Gostei mais do primeiro. E ainda tenho o A noite das mulheres cantoras e o Marido e outros contos em fila de espera. Quem me dera ter mais tempo...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório