Fascículos
Alguns grandes nomes da literatura, como Charles Dickens, começaram a escrever para jornais folhetins que ficavam interrompidos numa semana e eram retomados na seguinte, suscitando grande curiosidade por parte dos leitores. O hábito dos fascículos perdeu-se (embora Rui Cardoso Martins alimente semanalmente no Público uma destas narrativas), mas eis que, em tempo de crise, o Expresso teve a bela ideia de fornecer aos caderninhos a História de Portugal mais completa que recentemente se publicou num só volume, assinada por Rui Ramos (coordenador), Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa. A obra era cara na edição original – sobretudo em época de dificuldades – e, por isso, é uma boa notícia que o semanário decida agora oferecê-la, até porque os conhecimentos dos portugueses sobre a história do seu país andam um bocado por baixo (como se depreende dos questionários feitos à porta das universidades a alunos finalistas, cujas respostas são de bradar aos céus). Além disso, se um livro volumoso nem sempre torna a leitura confortável, muitos levezinhos e de cerca de cem páginas tornam-se realmente um convite a ler, e não só a consultar. Se, por acaso, ainda não tem esta História de Portugal e é leitor do Expresso, guarde-a aos bochechos.
Há muito que o romantismo e a beleza dos fascículos semanais se perdeu (já nem é do meu tempo, claro) e então com a quantidade de informação que há actualmente disponível nem tal se põe. E depois há o lucro, o lucro esse tremendo objectivo de tudo quanto é gente que dá cabo disto tudo...
ResponderEliminarAgora o que é curioso é que quanto mais informação há, parece que menos as pessoas sabem...
Meus amigos: na minha empresa há cerca de 300 pessoas, sabem quantas pessoas lêem (livros)? sabem, pois contam-se pelos dedos de uma só mão, repito, de uma só mão!!!
ResponderEliminarE, sinceramente, não estou a exagerar.
Eu aqui sou um extraterrestre
Ó amigo Severino
EliminarComo diria Vieira, ou o sal não salga ou o mar não se deixa salgar. Em 300, apenas 5 ?!
Aposto consigo que os 295 lêem; por exemplo, um jornal desportivo (quase) todos os dias; uma revista do coração (todas as semanas).
Será isto uma questão do custo do livro em relação ao custo do jornal? Será da Escola? Será do tipo de leitura que encontram nas montras das livrarias ou no escaparate(?) dos hiper's?
Um mistério para Sherlock resolver, com a elementar ajuda moral do seu Holmes.
Mas oh Jocamartinho aqui há uns anos dizia-me um amigo (dos livros e das leituras), é preciso é ler, nem que seja a Maria...não sei se será bem assim, é que esses 295 são capazes, quanto muito, de ver os bonecos e as bonecas da Lux, da Caras, da Vip e outras que tais...
EliminarHá muitos, muitos anos, quando cheguei a Portugal acho que era moda haver coleccionáveis nos jornais. Pelo menos, lembro-me de fazer uma colecção de uma enciclopédia qualquer e mandá-la depois encadernar (com a capa oferecida no último número).
ResponderEliminarNão sei se a Rosário quis enfatizar a leitura dos fascículos em jornais ou a dos folhetins que estes publicaram. Suponho que o fez em relação aos primeiros, que ainda não acabaram; os folhetins,sim. Ou então fez consusão com uns e outros.
ResponderEliminarO Severino, em comentário, disse que não se lembra de ver publicados fascículos em jornais. Pois bem, não foi assim há tão pouco tempo - o Correio da Manhã incluiu "dentro" do jornal uns fascículos da Bíblia.
Quanto aos folhetins, isso é outra coisa. O folhetim, muito vulgarizado no séc. XIX e com repercussões em alguns diários até aos anos 70 do século seguinte, que eu me lembre, ainda surgiu em O Século e em O Primeiro de Janeiro (não sei se em O Comércio do Porto e Diário de Lisboa), pois em miúdo lia alguns.
O fascículo é apêndice do jornal; o folhetim, faz parte do mesmo. Não se podem confundir, porquanto o folhetim era para os leitores o que as novelas são hoje para as respectivas audiências televisivas. Foi assim que surgiu o David Copperfiel de Charles Dickens ou o Quo Vadis de Henrik Sienkiewicz. este último exemplo, na época, fez com que o autor tivesse de alterar o final, a pedido dos leitores.
Os folhetins eram publicados, na maioria dos casos, na penúltima página do jornal, a um terço, no sentido horizontal.
Julgo que os folhetins em fascículos, além de serem uma forma de promover a venda do jornal, teriam a função de ser como que um livro adquirido em prestações, num tempo em que as limitações e dificuldades económicas eram grandes, e em que também as pessoas tinham menos tempo para ler. Ou seja, era uma prática adaptada à realidade desse tempo.
ResponderEliminarLembro-me bem de tanta leitura ser em continuidade, as séries... fosse o Cavaleiro Andante, o Tintin e em tantas revistas, onde eram publicados assim romances e obras várias.
Tenho algumas encadernações fruto dessas formas de venda de literatura em prestações.
Nos dias de hoje a realidade é outra, por isso caiu em desuso, e aliás quem é que tem hoje paciência para isso???
Enfim... digo eu!
Saudações de um dia encoberto que me faz mal à alma... será a antever a minha partida? Será por mor das previsíveis férias deste EE (Espaço Extraordinário)?
Estimado António Luiz Pacheco
EliminarPermita-me uma pequena correcção: as dificuldades económicas eram grandes, sim, mas as pessoas não tinham menos tempo para ler, tinham mais, por via da menor solicitação de outros entretenimentos, se me permite a expressão.
Houvesse mais para ler na altura e tudo se consumia; porém, a produção em nada se comparava à actual, os circuitos de distribuição eram frágeis, chegavam apenas a pequenas fatias da população, etc.
Cordialmente
AO
Oh Pacheco isso era no tempo da CRISE e essa de no tempo em que as pessoas tinham menos tempo para ler, é boa, até parece que agora têm...
EliminarA ignorância geral sobre a nossa História deve-se ao facto de ela ser muito mal tratada nas escolas. Ensina-se muito pouco e, ainda, à moda antiga, ou seja, com muitos dos mitos e tiques do Estado Novo. Isto é um escândalo, porquanto historiadores como Bernardo Vasconcelos e Sousa, Leontina Ventura, José Augusto Pizarro e o próprio José Mattoso, talvez, o verdadeiro iniciador deste movimento, têm feito investigações preciosas, nas últimas décadas, dando a conhecer aspetos mais ignorados, dando, em suma, uma visão completamente renovada da História. É um escândalo, repito, que esses novos conhecimentos não sejam adotados no ensino.
ResponderEliminarDe resto, o ensino, em Portugal, anda pelas ruas da amargura. É chocante, a maneira como tratam os professores (e os alunos, claro, mas professores satisfeitos também implicaria alunos mais satisfeitos).
Chocante é a maneira como alguns alunos tratam os professores - tudo fruto da geração rasca - que vai dos anos 1980 à actualidade. Fruto de gente que é Pai (e mãe) autênticos atrasados mentais, em que se o Pai não faz o que o menino quer, leva nas trombas...triste, triste e não me venham cá com conversas de Piaget...
EliminarO fascículo remete para outra época, para um estar social simultaneamente calmo e ansioso, mas capaz de gerir as ansiedades e sem as pressas urgentes da sociedade actual. A leitura em fascículos era pausada, interiorizada, memorizada, discutida e guardava um papel para a imaginação que se espraiava durante o tempo que mediava entre cada um dos fascículos, antecipando a narrativa, esperando os diálogos, construindo o que havia de ser, e talvez fosse ou não.
ResponderEliminarÉ a lógica do estudo diário, do bocadinho de cada vez para que cimente e permita novas e mais construções, sólidas e firmes, mas que, infelizmente, não se coaduna com a actualidade.
Eu tenho essa História de Portugal em formato tijolo. A única chatice é que para andar todos os dias com o tijolo na mochila dá cabo das costas.
ResponderEliminarEheh! Também tenho nesse formato tijolo, até por que um dos seus autores é mê compadre!!! E vou confessar aqui que ainda não o desfolhei (como diria a minha mãe "Dá Deus nozes a quem não tem dentes!").
EliminarIsabel
"A leitura em fascículos era pausada, interiorizada, memorizada, discutida e guardava um papel para a imaginação que se espraiava durante o tempo que mediava entre cada um dos fascículos, antecipando a narrativa, esperando os diálogos, construindo o que havia de ser, e talvez fosse ou não."
ResponderEliminarSIC - Areia
Creio que era isso mesmo!
Quando referi que não havia tempo para ler, creio mesmo que não havia... embora respeite e aceite opiniões contrárias.
O folhetim, creio que era dirigido sobretudo à baixa burguesia e ao operariado, no século XIX e 1ª metade do XX, ou não era?
De um modo geral julgo que pela carga horária de trabalho de então, e pela ineficácia dos transportes, entre outros, sou levado a pensar nessa falta de tempo que daria para um semana de leitura a cada fascículo...
Outras obras, era uma compra a prestações... por exemplo quanto custaria "A Fauna", em 11 volumes? E quanto custava comprada em fascículos semanais? Era a forma de ser acessível económicamente.
Estimado ALP
EliminarPenso que havia mais tempo sim pois, para além das edições (caras) vendidas em livrarias, existiam as bibliotecas (para públicos mais ‘intelectuais’) e os Gabinetes de Leitura, pouco falados, mas que eram 8 em Lisboa nas duas primeiras décadas de 1800, segundo Mª Alexandre Lousada (em Leitura, política e comércio: os primeiros gabinetes de leitura em Lisboa -1801-1832).
Estes Gabinetes ‘inauguraram a comercialização do acto de ler’ e um deles anunciava-se da seguinte forma: “Salas decentemente mobiladas e à noite bem alumiadas. Comodidade, criados, tinta e papel para escrita.” Uma outra afirmava ser: “Casa decente e bem mobilada, sala de leitura com assentos, mesas com luzes de cera; outra casa onde um indivíduo lerá alto para o povo”
Apesar de serem poucos numericamente, mas provam a existência de interesse e de um mercado, no qual vários ‘empresários’ se decidiram a abrir mais Gabinetes, com a certeza que havia público para garantir a sua rendabilidade, mas que nem sempre conseguiram as licenças.
Por outro lado, para além do público leitor, directo, havia ainda, e nada despiciendo, o público ouvinte, indirecto, digamos assim. O facto de não se saber ler não era sinónimo de afastamento de certas questões: farmácias, capelistas, ‘lojas de bebidas’, tabernas, correios, entre outros locais, funcionavam como pólos dinamizadores da leitura.
Não quero maçar nem ser exaustiva. Caso o assunto interesse, posso enviar uma lista de bibliografia disponível sobre o tema.
Abraço e bom fim-de-semana
AO
Que interessante!
EliminarNão sabia não... salas de leitura? Mas pelo que se percebe não seriam para o operariado, mas talvez as houvesse nas colectividades. Ainda me recordo de se ir ao café ou barbeiro ler o jornal ou revistas que aí estavam à disposição. E julgo que havia em algumas oficinas e ateliers o tal hábito de se ler alto, como tenho ouvido dizer que ainda se faz em Cuba nas fábricas de charutos.
Tudo isto é realmente muito interessante... e nos primórdios da rádio também se liam obras!
Enfim seriam a telenovelas, que é pena não serem como a Gabriela ou outras, adaptações de romances em vez do que são... maus retratos de maus aspectos da sociedade!
Bom fim de semana!
O fascículo, o folhetim, agora não se lê, vê-se: é a telenovela ou o Dexter . Ontem vi-o e lá aviou impiedosamente outro assassino impiedoso. Agora tem uma ajudante. Distantes vão os tempos em que aguardava, ansiosamente, o Cavaleiro Andante da semana.
ResponderEliminarMais uma antiguidade: cena de leitura do folhetim (familiarmente chamado “o romance” — e que romance!!) do jornal (naquele tempo, “a folha”) em Uma Família Inglesa:
ResponderEliminar“Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o senhor Fortunato principiou a falar, misturando na boca as palavras com chá, com leite, e com tostas e bolos.
— Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da prisão.
— Pois quem foi preso? — perguntou Manuel Quintino, que, tendo estado a dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na folha.
— Então não ouviu? — disse o senhor Fortunato, engolindo um bolo — Ela foi bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o desconhecido era o pai da rapariga, e tanto que ele ficou espantado quando o outro lhe apareceu, vestido de preto, e lhe disse... — Aqui o senhor Fortunato engrossou a voz. — «Eu sou a última das tuas vítimas!» — E o filho então é que veio a saber d'isto : sim, porque até ali não sabia nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do comendador é que tinha dado o dinheiro, que eles entregaram à tal viúva do cunhado do escrivão. Manuel Quintino mexia maquinalmente o chá, olhando boquiaberto para o amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do senhor Fortunato gesticular, voltado para ele.
— Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!
— Então não leu? — teimava o outro — Eles tinham combinado que, logo que partisse o navio, o rapaz fosse acusado do roubo feito ao comendador; e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas...
— Mas quem demónio é essa gente toda? Que mexerofada de cousas! — exclamou Manuel Quintino, deveras impaciente.
— Então não ouviu? — insistiu o senhor Fortunato, cuja natural dificuldade de expressão se exacerbava ao expor as enredadas aventuras de um romance francês. Cecília, que ao principio não atentara no diálogo cómico, que se estava trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por ele.
— Mas onde aconteceu isso tudo, homem? — perguntava Manuel Quintino.
— Em Paris. Pois não...
— O pai não vê que o senhor Fortunato está a falar do romance?
— Ah! isso sim.
— Pois que cuidava?
— Eu sei lá o que cuidava. Eu cá de romances não entendo. E agora por isso lembra-me que aquele endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me havia de emprestar lá uns romances... Eh! eh! Tem diabo o rapaz.”
Obrigada.
EliminarIsabel
Eheheh!
ResponderEliminarExtraordinário! Já nem me lembrava...
Havia uma professora de português, do nosso tempo de liceu, que dizia que a minha irmã mais velha, loira e córada, lhe fazia lembrar como seria a Jenny!