Loucura argentina
Muitas vezes, quando sai um livro de determinado autor consagrado, compramo-lo imediatamente, mesmo sem ainda termos lido o que foi publicado antes desse. Ora, uma editora na Argentina considerou que, se isso não é um problema para um escritor reconhecido, é-o claramente para um estreante que, se não for lido rapidamente – e objecto de crítica e recensão –, dificilmente terá oportunidade de publicar uma segunda obra. Então, para apressar críticos e leitores – e num acto ligeiramente suicidário –, resolveu imprimir uma antologia de jovens autores latino-americanos com uma tinta especial que, assim que o livro é aberto, desaparece ao fim de dois meses. Ofereceu toda a primeira edição a pessoas que escrevem habitualmente sobre literatura, forçando-as a ler a obra rapidamente – antes que já não seja mesmo possível. A editora chama-se Eterna Cadencia e, ao que parece, a sua estratégia funcionou e não param de chegar pedidos d’«o livro que não pode esperar». A campanha tem um vídeo cujo link vai aí abaixo para o nosso anónimo do costume não pensar que estou apenas a querer ser original:
A ideia é genial, mas apenas para uma, duas ou três vertentes de leitores: os críticos literários; os amigos que pedincham a obra; os editores que demoram um "temporão" a abrir o original.
ResponderEliminarAcontece que "o livro que não pode esperar" também tem sido aplicado em Portugal. É o caso dos livreiros, os quais o fazem "desaparecer" ao fim de seis meses. Também certos editores - e logo no "ventre" - o transformam em nascituro, pois nem sequer o lêem. E, como não o publicam, não permitem que alguém o leia.
De resto, para o verdadeiro leitor e amante de livros, este tipo de "tinta" não pega. Para mim, não!
Ainda há-de aparecer o dia em que alguém, com espírito de iniciativa e carteira desproporcionadamente grande, possa editar apenas os "livros recusados" - aqueles que as editoras certifiquem terem recusado, vá lá. E dessa amálgama de títulos possam surgir, como as pepitas em peneira de garimpeiro, as obras que envergonhem os "recusantes".
Enfim, eu não sou dos que têm razões de queixa. Salvo algumas excepções de editores que não me deram resposta - e dos quais já aqui fiz coinfidência - até tenho o caso de duas propostas que eu recusei a outros tantos editores que me propuseram trabalhos de ficção.
Um deles, por exemplo, ainda activo no mercado, pediu-me que escrevesse uma obra sobre uma personagem de Portugal, o que eu fiz sem assinatura prévia de contrato. Feito o trabalho, em cerca de 300 folhas A4 e com horas de arquivo para adquirir elementos, apareceu-me em casa com um cheque de cem mil escudos (eram escudos, ao tempo) para pagar os direitos. Eu deixei-o ir de mãos a abanar e com uma resposta imprópria de reproduzir aqui. Na semana anterior tinha eu feito uma peça para a revista Indy de O Independente, em três folhas A4, que me tinham rendido esses cem mil escudos.
Por isso, caríssima Rosário, livros com tinta de espião, só para quem não merece sequer pegar neles.
Não consigo decidir se a ideia é genial ou tonta. Parece-me, contudo, que é uma moda que não vai pegar até porque talvez parte da adesão que está a ter se deva, apenas, à novidade de existir um livro cujas letras desaparecerão. Se a moda pegar, com certeza deixarão de achar muita graça à ideia. Mesmo os críticos, com tanto para ler, talvez não gostem muito da pressão de terem de ler tais textos depressa antes que fiquem com um belo bloco de notas de folhas branquinhas.
ResponderEliminarContudo percebo a ideia que lhe deu origem. Os novos autores não arranjam lugar facilmente, até porque os leitores têm tendência a desconfiar do que não conhecem e assim um autor novo pode escrever o melhor dos livros e não ser lido e um autor consagrado ou, pelo menos, conhecido pode escrever um mau livro que todos lerão (o que também não será muito bom para ele...). Enfim, seria bom que pensássemos todos que os bons autores também já foram, em tempos, uns singelos desconhecidos e que se hoje o nome deles soa por todo o lado, em boa parte isso deve-se aos seus leitores e aos críticos que logo os leram.
Porém, aí levanta-se outra questão: a da quantidade de coisas que se publicam nos dias de hoje. É difícil acompanhar tudo e, por isso, os nomes novos acabam por ficar para trás... É um assunto complexo este!
Concordo com ambos e dois! Subscrevo a 100%o nosso Extraordinário Jocamartinho e saúdo a nossa jovem bloguista !
ResponderEliminarSei bem e por razões profissionais, que as ditas inteligências do marketing são capazes dos maiores golpes de génio Compal amêxa ) como das maiores imbecilidades!
E há quem arrisque a comprar qualquer idéia , na esperança que seja genial!
A idéia parece-me antes de tudo de uma total falta de respeito e incompreensão do que é o livro e a sua mística, porque o livro como as corridas de toiros tanto são cultura como um culto! Ou seja não são percebidos por quem está de fora e não podem ser entendidos por quem como estes marketeers , analisam pela imagem, de forma superficial e concluem que o livro é apenas papel! Tremendo erro, digo eu duplo aficcionado dos toiros e dos livros, que os cultivo pelo que são e representam para mim!
É a idéia mais estapafúrdia que já ouvi sobre como vender livros ou levar à sua leitura!
Que sentido faz ficar com livros em branco?
É a segunda má impressão que colho por aqui hoje... Brrr ! É extarordinário pois nunca me tinha acontecido...
É curioso, ó meu caro Pacheco, que, não vão assim tantos anos, havia poucos livros porque a Censura os proibia, e as touradas eram promovidas. Agora, parece-me que estamos a numa espécie de paranoica simetria – temos livros com fartura, até instantâneos (ou lês já, ou as palavras esfumam-se), e as touradas estão em vias de ser proibidas.
Eliminar[Declaração de interesses:
– Alterei a minha vida para lutar contra o regime que assentava na Censura; gostaria que esta não voltasse sob nenhuma forma.
– Não sou adepto das touradas, mas não me oponho; são um incontornável facto histórico da nossa cultura, e pronto; quem não gostar não assiste, e pronto.
– Repito: gostaria que não voltasse sob nenhuma forma.]
Entretanto, essa dos livros em que, uma vez abertos, o texto desaparece se o leitor não se despachar, não lembrou nem a Italo Calvino. Acho que já aqui referi “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”, que recomendo porque alterou a minha vida. Por causa dessa alteração, esta ideia, agora, fascina-me.
Convenhamos que, literariamente, é estimulante a ideia de o leitor vagaroso criar ele próprio o resto do que não apanhou a tempo…
É que Literatura não é apenas o livro, nem somente o escritor. O Leitor também faz parte do processo – e seria interessante que fosse incentivado a ser parte activa, criativa, e não apenas um mero consumidor, que compra, lê, engrossa a estante doméstica, e depois limita-se a dizer, na sua roda de amigos, se gostou ou não gostou, um irrelevante opinador…
É isto uma utopia? Sim, é! Mas não é verdade que tudo o que a Humanidade criou começou por ser uma utopia?
Fico-me por aqui, que já é tarde.
Um abraço.
Joaquim Jordão, Amarante
Deixo, a propósito os dois últimos parágrafos do "Um Pinguim na Garagem" de Luís Caminha, meu autor predilecto e que, como eu, ao menos assim deduzo, abomina touradas e outras torturas:
Eliminar«Não lhes bato [aos meus cães], não os quero onde não querem e se aqui estão é porque assim decidiram. Nunca os obriguei a palhaçadas, somos os três demasiado sérios para essas coisas. Não me cansa a dolorosa insistência das suas patinhas em busca da minha mão. E não há quem os impeça de me subirem para cima da cama - foram muitas as vezes, aliás, em que até lhes pedi que o fizessem, para minorar a acidez da solidão.
«Se não me pertencem não os posso dar. Mas tu, meu irmão, que também abominas o adestramento dos cavalos e as touradas, a criação desumana e a ignorância dos homens, far-me-ás a simpatia de cuidar deles?»
Deduzo que os dois comentadores acima nunca pegarão neste livro, que tão abertamente critica as touradas. E, no entanto, para mim, Luís Caminha defende, nos seus livros, tudo o que faz de nós melhores seres humanos.
Na parte que me toca, está triplamente enganado, ó Nuno.
EliminarNão tenho preconceitos acerca das touradas, nem acerca das pessoas que as frequentam, nem das pessoas que as criticam.
Saber respeitar ambas (todas) essas pessoas também faz de nós melhores seres humanos
Também não tenho preconceitos acerca dos livros, nem acerca das opções dos seus autores relativamente aos animais ou ao que quer que seja.
Não é apenas o relacionamento com os animais que faz de nós melhores seres humanos.
Esteja descansado: pelas amostras que já vi, tenho muito interesse em ler Luís Caminha.
Este extracto que o Nuno aqui transcreve gerou-me empatia, diz-me pessoalmente respeito, pois que, tal como o Luís, tenho em casa vários animais que, com a minha mulher, resgatamos de maus tratos, recolhemos porque andavam perdidos, etc. Dormem nas nossas camas, duas das gatas comem connosco à mesa, a Sasha (cadela) lambuza-me de beijos quando chego a casa… É incontável o número de outros gatos e cães que já por aqui passaram e que encaminhámos para outras pessoas. Actualmente temos até uma pequena colónia de sapos no pátio das traseiras; apareceram por ali, ajudámos a criar-lhes o habitat, lá permanecem vai para dois anos.
Nesta matéria tenho currículo para uma licenciatura, não?
Mas independentemente dessa afinidade com o Luís Caminha, interessa-me nele o que, nas amostras que vi, me pareceu ser uma específica qualidade da escrita.
Hei-de procurar com mais afinco, prometo.
Agora, quanto ao essencial do que eu escrevi no comentário ao Pacheco…ó Nuno, não me diga que lhe pareceu que eu estava a tratar das touradas!
Cumprimentos.
Joaquim Jordão
Deduz mal meu Caro Nuno!
EliminarAo contrário dos que pretendem impôr-me as suas idéias , eu apenas pretendo manter o meu direito a tê-las... ou seja, sou tolerante, e mais,
tento sempre saber como e porque, pensam os que não pensa como eu. Penso que é um ponto a favor e até me atrevo a dizer que assim tento ser esclarecido...
Caro Joaquim Jordão,
EliminarLeio sempre os seus comentários com extrema satisfação porque acho que tem uma escrita muito lúcida e, como saberá, bastante literária.
Apenas tenho uma opinião um pouco diferente sobre uma parte do seu primeiro comentário, onde diz "quem não gostar não assiste, e pronto". Quis sentir-me à vontade para lho dizer. Por uma só razão: porque uma grande fatia das pessoas que não gostam tem genuínas reivindicações contra a existência das touradas e outros maus-tratos contra os animais - e tem até a obrigação de lutar contra eles para não se sentir incompleta; isto sem desrespeitar as pessoas que se lhes associam, de uma ou outra maneira. Aquela velha máxima: lutar contra ideias e não contra pessoas.
Os meus cumprimentos e as minhas desculpas pela generalização que fiz no meu comentário anterior. Um exagero, logicamente. Aliás, se gosta de animais, como sei que gosta, verá no primeiro livro de Luís Caminha muitas passagens deliciosas relacionadas com dois viralatas que a personagem principal encontra abandonados na rua e leva para casa.
Um grande abraço e perdão pelo quid pro quo!
Caro António Luiz Pacheco,
EliminarTemos opiniões diferentes, claro. Acho que o touro não escolheu estar ali e para mim está tudo dito com isso. Pode revidar claro, tem de o fazer: estão a atentar contra a sua vida. Creio que muitas vezes os manifestantes contra as touradas deixam-se levar demasiado pelas emoções, e nisso tem razão. Assim como os seus defensores.
De resto, em nenhum argumento que me apresentaram a favor das touradas até hoje encontrei qualquer solidez.
Enfim, como disse ao nosso amigo Joaquim Jordão, peço desculpa se exagerei; quis apenas dar a minha opinião a duas pessoas cujos comentários sempre leio e que me parecem atentas ao mundo que as rodeia.
Caríssimo e Extraordinário Amigo, cujas opiniões e sensatez me habituei a estimar!
EliminarComo já terá lido, eu acredito que a diversidade do pensamento humano é a maior maravilha da criação! Nela reside a riqueza do ser humano.
É por isso que embora apaixonado pela Festa Brava, aceito que haja outras sensibilidades, diferentes da minha. E mais, consigo entender isso! Com todo o respeito.
Deste modo conseguimos conviver, trocar as nossas idéias e pontos de vista e sobretudo enriquecer-nos pelas nossas diferenças.
E, quanto mais falarmos mais nos aproximaremos, concluindo um dia que não somos, nem um nem outro, aquilo que podemos pensar... e então assim faremos do Mundo um lugar melhor.
Um abraço sincero!
PS - Diga-me lá onde é que vou descobrir o pinguim?
Ora essa, ó Nuno! Amigos à mesma!
EliminarO Pacheco é que afina, hein?!
Mas ele tem alguma razão: por vezes acontece que o touro, enraivecido por estar num ambiente adverso, dá umas valentes marradas no toureiro, ali, na presença dos aficcionados. E estes aplaudem.
Salvo o devido respeito, não devemos extremar as nossas posições neste debate (em nenhum…), sob pena de, qualquer dia, aparecer por aí alguém a chatear o Pacheco por ele andar a torturar os sobreiros, coitadinhos, a tirar-lhes a cortiça…
Vamos lá mas é explicar-lhe onde encontrar o Pinguim do Caminha, para o ajudar a manter a lucidez e a sabedoria, que isto, a vida à nossa volta, não é apenas touros e sobreiros.
Está-se mesmo a ver, ó Pacheco: Caminha é na Caminho.
Pode comprar on-line. Eu não arrisco essa modalidade; prefiro meter os pés ao caminho.
Abraços para vocês do
Joaquim
Acho que me enganei no sítio onde coloquei a resposta. Por favor, encontra mais abaixo o abraço que lhe envio.
EliminarJoaquim
Caros Joaquim Jordão, António Luiz Pacheco e Nuno Serrano,
EliminarFiquei muito impressionada com a vossa 'discussão', que parece ser de pessoas respeitadoras mas que não guardam o que pensam e que escrevem maravilhosamente. Parabéns, pus-me a imaginar uma tertúlia convosco. Regada a vinho, claro.
Também sou uma antipatizante de touradas, como o Nuno Serrano (embora seja ribatejana), mas raramente vejo tanta lucidez num e noutro lado das barricadas como nos vossos casos.
Agora, a propósito do Caminha, caro Joaquim Jordão... Caminha é na Caminho, mais ou menos... Para mim, devia ser porque é um autor que merece visibilidade. Mas não é completamente.
O "Um Pinguim na Garagem", que é o seu primeiro livro, foi de facto publicado pela Caminho e até se encontra ainda em algumas livrarias (acho que há tempos o vi na Barata, em Lisboa). Mas o "A Decadência dos Olfactos", um livro em que estou de acordo com o que tenho lido aqui (ou seja, excepcional), esse só se encontra mesmo online (a editora é outra).
Ambos se vendem no site wook.pt, onde já compro há uns tempos e com que estou muito satisfeita, até com os descontos e promoções que têm. E depois, estou a gostar muito da ideia de estar em casa e chegar o carteiro às 10 da manhã com livrinhos para ler. Lembra-me o tempo em que comprava livros ao Círculo de Leitores :).
Mais precisamente, e para o caso do Luís Caminha:
http://www.wook.pt/product/facets/palavras/luis%20caminha/fsel/8066/tipo/0
Um abraço da vossa leitora,
Marta Menezes.
Muito obrigado pela pista da Wook , minha cara!
EliminarVou segui-la... se bem que na dúvida entre o pinguim e o olfacto...
Vou explicar: é que eu se fosse ave era um pinguim, sem qualquer dúvida! Porque detesto voar e mergulho atrás dos peixes - já agora sabem que o meu jovem atleta, Jody Lot , (português a despeito do nome) se sagrou Campeão do Mundo de pesca submarina este Domingo no Mundial de Vigo?
Por outro lado, como gastreta prezo muitíssimo o olfacto!
Por qual optar?
Meus amigos EM TEMPOS DE CRISE, SÓ A IMAGINAÇÃO É MAIS IMPORTANTE DO QUE O CONHECIMENTO (assim o diria Albert Einstein)
ResponderEliminarA ideia é bem gira. Mas depois de ler o seu post fiquei a pensar... que o livro/objecto tornava-se um objecto/livro.
ResponderEliminar:-D