Títulos

Um bom título é importante, se queremos que leiam os livros que escrevemos – e já me aconteceu chegar um livro muito bom com um mau título (e o autor acabou por mudá-lo); chegar a um livro com um título excelente que não correspondia ao que o livro tinha dentro (e não o publiquei); e até haver um título que foi alterado à última hora porque incluía uma palavra «difícil» que cerca de 70 por cento das pessoas que então trabalhavam na editora não conheciam, e a administração achou melhor não correr riscos... Mas há que reconhecer que temos na nossa terra alguns bons escritores com grande talento para intitular. Entre os meus títulos preferidos, está Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, de António Lobo Antunes, que sempre achei genial, ou Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto, de Mário de Carvalho, que sabe nomear um romance na perfeição e também já nos brindou com Um Deus Passeando na Brisa da Tarde. De outra geração é o autor que nos tem habituado a querer ler os seus livros só pelos títulos, José Eduardo Agualusa, que tem um trio perfeito: As Mulheres do Meu Pai, Barroco Tropical e Milagrário Pessoal – e que recentemente fez jus ao seu jeito e inteligência e escreveu Teoria Geral do Esquecimento, que apetece logo ler (assim que possa, fá-lo-ei) mesmo sem se saber de que trata. Mas a arte não é para todos, e tenho pena daqueles que escrevem livros belíssimos e que depois, no título, deitam tudo ou quase tudo a perder. No caso de serem autores reconhecidos, com leitores fiéis, ainda vá que não vá; o problema é quando se estreiam com romances muito fortes em que ninguém pega por causa de um título menos apelativo...

Comentários

  1. Confesso que sou muitas vezes atraído/repelido por títulos e subtítulos. Os resultados nem sempre confirmam essa opção. Exemplos (poucos e de memória, pelo que faltarão muitos e, talvez, melhores):
    + Livros com títulos brilhantes e que não desiludem: Caligrafia dos sonhos, Tudo o que tenho trago comigo, As intermitências da morte...
    + Livro com títulos excelentes que desiludem: A arte de morrer longe...
    + Livros que, pelo título, seguramente lerei: A ordem natural das coisas, Teoria geral do esquecimento...
    + Livro que tem tido excelentes opiniões, mas cujo título/subtítulo me afasta: A mulher-casa/Cenas da vida íntima (ou parecido)...

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  2. ALA detém, na minha opinião, o recorde dos melhores títulos:
    O Arquipélago da Insónia
    Eu Hei-de Amar Uma Pedra
    Explicação Dos Pássaros
    O Meu Nome é Legião
    Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?
    Sôbolos Rios Que Vão
    (ao que sei, os dois últimos não são, porém, da autoria do próprio, um é o verso de uma canção popular (galega?) e o outro, um verso de Camões.)
    PLFF

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    1. Concordo.
      (E acrescento que Eu hei-de mamar uma pedra também é parte de um verso popular(?); qualquer coisa como "Eu hei-de-amar uma pedra, beijar teu coração.")

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    2. Eu hei-de *Amar, como é óbvio. Triste engano o meu.

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    3. Esse, desconhecia. Obrigado!
      E também concordando com o seu post anterior (por exemplo, o título "A Mulher-Casa..." causa-me uma inexplicável repulsa...) deixo aqui alguns dos meus TÍTULOS preferidos:
      Anatomia de Um Instante (Javier Cercas)
      O Inverno do Nosso Descontentamento (Steinbeck)
      Caligrafia dos Sonhos (Juan Marsé)
      O Velho que Lia Romances de Amor (Sepúlveda)
      Tudo o Que Tenho Trago Comigo (Herta Muller)

      PLFF



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    4. Já agora, "O Meu Nome é Legião" também é uma frase bíblica conhecidíssima. A propósito de grandes títulos: "Um Pinguim na Garagem" e "A Decadência dos Olfactos", de Luís Caminha. A mim, pelo menos, que os vi referidos por aqui, encantaram-me e quis saber o que quer dizer o autor com eles. Já os comprei e estou à espera de que me cheguem ao correio, precisamente por causa do título.

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    5. E outro título que o autor foi buscar a um grande poeta: "Não entres tão depressa nessa noite escura". É um verso do Dylan Thomas.
      Infelizmente, já não consigo ler os romances de António Lobo Antunes: a par de insistir nalguns erros gramaticais que me irritam, escreve só para ele, de um modo que para mim é completamente desorganizado. Dá-me sempre impressão que gosta tanto do que escreve que não revê os textos para que a bota bata com a perdigota e para cortar o que está a mais...
      As crónicas, essas leio com muito gosto. É um grande escritor de crónicas.

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    6. Totalmente de acordo. O ALA tem títulos fantásticos. Mesmo os que não são da sua autoria não deixam de ter o mérito de terem sido escolhidos por ele.
      Acrescento ainda:
      - Que farei quando tudo arde?
      - Não entres tão depressão nessa noite escura.

      E ainda, embora por razões afetivas , o "Tratado das paixões da alma". Recordo-me que foi esse o primeiro livro que li do ALA, no início da década de 90. Comprei-o, não só pelas excelente reputação do autor mas sobretudo por me ter apaixonado pelo título. Quem é que pode ficar indiferente a um tratado desses? Juro que não sei...
      E em boa hora o fiz porque rapidamente tornou-se no meu escritor favorito. Ele é genial! Embora reconheça que atualmente a sua obra tem vindo a tornar-se demasiado hermética e de difícil leitura o que me rouba, um pouco, o prazer da leitura. Mas continuo a venerá-lo! Até porque não me esqueço que ele é o autor de um dos livros da minha vida, "A explicação dos pássaros": Belíssimo!
      Desejo sinceramente que ele, um dia, ganhe o Nobel: seria mais que merecido. Sem dúvida!

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  3. Conclui-se, portanto, que a maior parte dos brilhantes títulos de ALA ... não são da autoria de ALA!

    Usar esse estratagema repetidamente (ainda que não o escondendo dos leitores), confesso, aborrece-me. Traz uma pontinha de decepção à mistura...

    PLFF

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  4. Acrescento o título de um capítulo de um livro de Vila-Matas (O mal de Montano) que merecia ser, ele próprio, o título de um livro: Dicionário do tímido amor à vida. Brilhante!

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  5. A M.R.P . trás quase sempre textos que nos fazem reflectir. E como cada vez mais necessitamos, numa sociedade de usa e deita fora, de reflectir.
    É coisa aliás de que me não queixo, ao contrário de outros que me verberam de deixar os pés em casa e andar pela cidade sem eles. Da titulação não me queixo: aparecem-me pelo menos meia dúzia por dia. O seu cheiro atrai-nos, é como um sentido gustativo, como uma sopa de pedra que se eleve no ar.
    Difícil é acompanhar o seu ritmo com o conteúdo, embora não me queixe nem de tempo nem de imaginação delirante, que parece um cavalo de corridas à solta.
    Desde que começo a escrever, cada palavra multiplica-se em múltiplos de ideias: o difícil não é fazê-las sair, é apanhá-las antes que se estatelem no espaço público.
    Mas também é verdade que se estatelarem no espaço público não fazem muita diferença do seu modo de estar no espaço privado. É que esse separação cada vez a titulo menos.
    Talvez seja da matemática que entrava com dificuldade, mas que de tanto martelada, abriu um buraco por onde tudo sai, a uma velocidade comprimida mais estonteante do que a que entra.

    Penso mesmo que conseguiria escrever um livro só de títulos, seria algo semelhante em bondade ao tal livro que compra o tempo antes de se eclipsar. Este pelo menos seria mais útil: seria assim uma espécie de titulação criativa que daria azo à imaginação. Sempre poderia ser colocado como livro de exercícios de escrita criativa.

    Sendo, assim, penso que já antevejo o próximo futuro transformado numa nova profissão: titulador. E como estou em tempo de raiva e de comparativo, vou pedir já o doutoramento àquela polidiversidade que vocês conhecem, e que até gosto do nome pelo Agualusa e pelo Mia: lusófona. Não a de humanidades, mas a de títulos criativos!

    A propósito disto acrescentaria ainda uma nova titulação: Teoria Singular dos Gostos Relativos... se for de mau gosto e pesar pela impaciência, ainda tenho aqui no saco pelo menos mais uns mil, que já incomodam pelo peso, pelo espaço e pelo espartilho criativo do gosto.

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  6. O esforço dos fãs de Luís Caminha é comovente.

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    1. Eu sou fã e gosto que se fale dos meus escritores: ele, o Lobo Antunes, o Águalusa, o Kundera, etc., etc. E não acho que seja esforço nem que seja comovente.
      Tenho seguido este blogue e percebi que algumas pessoas começaram a ler o autor por causa dos comentários que foram surgindo.
      Senti na sua frase muito cinismo, talvez por o autor ser menos conhecido que os outros. A autora do blogue também se esforça por promover os seus autores. Acha isso comovente?
      Talvez fizesse melhor em ler os livros de Luís Caminha, para poder criticar melhor... De resto, acho que este blogue não teria metade do interesse se apenas se falasse de autores conhecidos.

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    2. Cara Marta Menezes,

      Estou cem por cento de acordo. Desconfio que fui eu quem começou a falar aqui do Luís Caminha, mas não gosto muito da palavra fã... Eu não sou fã de ninguém. Mas não preciso que um autor seja mediático para perceber se é bom ou mau.
      Acho que o Bruno quer dizer que o esforço não vale a pena porque o autor não vai ser mais lido por meia dúzia de gatos pingados falarem bem dele (se formos a ver, ninguém 'importante' costuma fazer referência ao autor). E isso comove-o muito. Se calhar, até chora. Esquece-se que se calhar não é esforço e que está a comover-se desnecessariamente.

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    3. Como é que sabe que nunca li os livros do Luís Caminha? E a crítica que faço não é aos livros mas aos fãs que, a torto e a direito, e a despropósito, mencionam aqui o nome do autor, certamente convencidos que a caixa de comentários do Horas Extraordinárias é um excelente meio de divulgação. A propósito, Um Pinguim na Garagem revela alguma qualidade, mas está longe de ser um grande livro. O autor está constantemente a tentar demonstrar o seu virtuosismo, que chega a parecer acrobacia temerária sem qualquer utilidade para a história.

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    4. Já pensou que o facto de "ninguém importante" mencionar o autor pode dever-se ao facto de as pessoas "importantes" que o leram não acharem grande coisa? O que me dá a entender pelos comentários aqui deixados pelos fãs do Luís Caminha é que estão convencidos que há uma conspiração para silenciar esse grande génio desconhecido, que incompreensivelmente os livros não estão nas livrarias, que as pessoas importantes não falam dele, etc. Cansa-me um bocadinho o proselitismo parolo misturado com teorias da conspiração. Sim, fico comovido.

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    5. Olá, Bruno,

      Até que enfim uma opinião negativa. Já começava a achar estranho, não gosto de unanimidades (é por isso que resisto, por exemplo, ao Gonçalo M. Tavares).
      Para mim, o primeiro livro do Caminha é muito bom e o segundo é ainda melhor. Além disso, os livros estão, para mim, escritos de um modo muito simples, embora nos façam pensar. Não percebo o que quer dizer com o autor tentar mostrar "virtuosismo"... Depende do ponto de vista: se for daqueles críticos que defendem o grau zero da escrita/escritura, sim, são livros armados aos cucos. Se não, deixe-me dizer-lhe que é bem menos virtuoso do que um Saramago ou um Lobo Antunes, por exemplo.
      Não noto muita diferença entre os comentários acerca deste autor e acerca de outros que por cá vão aparecendo. A autora do blogue faz divulgação, por que não hão-de os leitores divulgar aquilo de que gostam, se ela decidiu dar-lhes a palavra e se essa divulgação, pelo que tenho visto, está encaixada nos temas que ela propõe?

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    6. O problema no livro que li do Luís Caminha é esse. É menos virtuoso que o Saramago e o Lobo Antunes, faltam-lhe unhas para tocar à "virtuoso", mas ele insiste em fazê-lo. É o mesmo que ver um miúdo que ainda agora aprendeu a tocar guitarra a imitar o estilo de Paco de Lucia. Claro que só se pode espalhar ao comprido.

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    7. Estou comovido com a sua comoção, baseada num chorrilho de lugares-comuns, ironia descabida, linguagem "virtuosa" e conclusões precipitadas. Espero que não seja uma pessoa "importante", caro Bruno. Porque, pela amostra, estávamos mal servidos.
      Fiquemos por aqui que já não consigo chorar mais.

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    8. Bruno, são gostos. Para mim, Saramago e Lobo Antunes não são tão grandes escritores como se diz e muitas vezes espalham-se ao comprido (principalmente o segundo). Quando os leio sinto que estão a mostrar-se. Sinto o mesmo, por exemplo, com o José Luís Peixoto. Mas não sinto isso com o Luís Caminha, o Gonçalo M. Tavares, o Valter Hugo Mãe, o João Tordo, etc.
      De qualquer maneira vou estar mais atenta para tentar perceber o que quer dizer com isso de virtuosismo. :)
      Um abraço.

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    9. Luís Caminha é virtuoso, sim, e com unhas na medida certa!
      Esta troca de ideias faz-me pensar que só a um escritor instalado se admite virtuosismo e que num escritor novo isso é mal visto e é visto como incapacidade para contar uma história (nalguns casos será). Lembra-me outras opiniões que tenho visto de outros óptimos escritores, como por exemplo o Rui Vieira, outro virtuoso, que entraram demasiado "depressa nessa noite escura" que é a moderna literatura... Deviam ter entrado mais de mansinho, sem voz própria. Daqui a um século se saberá quem tem ou não valor, isto para os que conseguirem sobreviver a esta máquina de terraplenagem que é o nosso mundo globalizado.

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    10. Pelo amor de Deus, deixe-se de preconceitos e não resista ao Gonçalo M. Tavares! É você quem perde! Não tenha a mínima dúvida!
      E a propósito: também gostei muito do Pinguim na Garagem.

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    11. Olá, Ana!
      Eu gosto muito do Gonçalo M. Tavares. Só que resisto a entrar na onda da unanimidade que se criou à sua volta. Já li quase tudo dele e sim, teria perdido se não o tivesse feito. :). Mas consigo criticar-lhe algumas coisas, como consigo ao Luís Caminha, ao Valter Hugo Mãe, etc., etc. O Viagem à Índia, por exemplo, não é para mim um livro inatacável. Só vi um crítico com coragem para o fazer e que até tocou em pontos com que eu concordo: o Pedro Mexia.

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    12. Olá Mariana!

      Já fico mais descansada...:)
      Descobri a escrita do Gonçalo M. Tavares há pouco tempo e ainda estou naquele estado de arrebatamento próprio do enamoramento e das paixões: para mim ainda é perfeita:) A sério, claro que nada é perfeito mas há livros que se aproximam mais da perfeição que outros...:) Quanto às críticas, se quer que lhe seja sincera, encaro-as com mutas reticências. É um terreno demasiado pantanoso. Não lhes sou indiferente, admito, mas relativizo-as muito. Prova disso foi eu ter levado mais de um ano para pegar no livro. Apesar das excelentes críticas. E por mais estrelas e elogios que lhe tivessem atribuído o que me fez lê-lo foi um post da Maria Almira Soares que simplesmente dizia: Leiam, leiam, leiam. Apesar de curto tem o poder imenso da convicção. Ora espreite e diga-me se não faz mais pela literatura que os textos de todos os Mexias juntos.

      http://arevoltadasfrases.blogspot.pt/2012/06/leiam-leiam-leiam.html

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    13. Eu gosto muito do "Um Pinguim na Garagem". Dizer que o autor não consegue virtuoso embora queira é, para mim, parecido com dizer que o Mário de Carvalho, o Aquilino Ribeiro e o Camilo Castelo Branco não prestavam. Há livros para se ler sem esforço e outros que exigem algum esforço, e tanto uns como coutros podem ser bons. Luís Caminha não engana ninguém: é um ótimo escritor que escreve para uma minoria. Só isso.

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  7. Teoria da evolução dos títulos:

    Nos últimos tempos, tornaram-se mais metafóricos e menos referenciais,
    por isso enganam mais.

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    1. António Luiz Pacheco13 de julho de 2012 às 17:13

      Metafóricos? Não! Comerciais!!!!

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    2. Mas a metáfora já não é o que era. A metáfora tornou-se muitíssimo comercial.

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  8. Um dos aspectos mais interessantes nos blogues são as paixões a fazerem vida. A meia idade é como a curva de Laffer, vai relativizando tudo, até fazendo-nos aperceber que os gostos tem local, tempo, motivo, ... é talvez por isso que os marketeers gostam tanto do conceito de nicho: há sempre espaço e gamela para todos!

    É por outro lado curioso como quem faz da escrita vida, pelo menos no bater compassado da sua energia diária interior com uma janela virada para o oceano que o banha, que não nas contas da mercearia, se apercebe dos pequenos nadas. Ele é o título(zinho), a margem(zinha), a espessura(zinha) das letrinhas, os espaço(zinhos), o desenhinho das letrinhas, o encosto(zinho) das meninas (letrinhas!, pensavam o quê!), a dimensão(zinha) das páginas(zinhas)… e todas as ninhas e zinhas que nos assoberbam como num jogo de composição… gosto… não gosto… gosto outra vez… deixei de gostar… há, de facto, tantos títulos como visões de um ponto.
    E como temos nós já a certeza que um ponto de vista é apenas a visão de um ponto!

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  9. António Luiz Pacheco13 de julho de 2012 às 05:35

    Gooooolooo ! Desculpem-me o entusiasmo, não gritei "Olé!" para não ferir susceptibilidades... Eh!eh!eh! (riso sacanola )

    Outro Extraordinário post !

    Para quem não saiba, o naming " é uma ciência que faz parte do marketing e do merchandising ... foi uma área em que trabalhei e me deu grande gozo, tendo criado algumas marcas e nomes de produtos.

    Pode matar ou dar sucesso ao que quer que seja
    livros incluídos, e num livro, atrevo-me a dizer que é fundamental para chamar a atenção do potencial comprador. Mais até do que a capa!

    O título (nome) tem de dizer alguma coisa a quem nele põe os olhos e é meio caminho andado tanto para a compra de impulso como para a compra ponderada! Nem hesitei quando me saltou para os olhos um "A arte da viagem"...
    sobretudo depois de ler "Paul Theroux " o que é uma combinação infalível!

    Isto inclui a traducção ... ah! Pois... um detalhe que muitas vezes falha... e no cinema então...

    Mas, também pode ser enganoso... e se não conhecemos o autor, bom... o melhor é sempre ler a sinopse e depois dar uma vista de olhos ao conteúdo... o título engana tanto quanto aquelas parangonas: "Milhão e meio de exemplares vendidos em 16 países e Portugal!". "Prémio revelação e democracia da universidade livre de Timbuktu ", "Contundente e arrebatador! diz Mike Tyson ", etc.

    Belo tema... isto dá para todo o fim-de-semana!

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  10. António Luiz Pacheco13 de julho de 2012 às 05:42

    Já agora, deixem-me esticar... e ser um bocado iconoclasta, pois vou falar do sucesso do momento: "O teu rosto será o último".

    Porque se chama assim, e não, “A mulher de uma perna”?
    Ou “Concerto para piano, interrompido”…
    Ou até “O rapaz que andou de bicicleta todo nú ?

    Confesso que não vejo nenhuma ligação entre o título e o texto... mas se calhar é de propósito e imperou a lógica contida na afirmação :
    A semelhança entre o hipopótamo e a girafa é que ambos têm o pescoço comprido, excepto o hipopótamo!
    Às vezes funciona...

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  11. António Luiz Pacheco13 de julho de 2012 às 05:49

    Já agora... também há o contrário, e o nome pode até nem fazer justiça ao texto!

    Um exemplo fresquíssimo... acabei ontem de ler o romance do meu confrade africanista, caçador, pescador submarino e conhecido Sérgio Veiga, chamado "O aconchego da mãe negra!".
    Eu não lhe chamaria assim! Não sei como lhe chamaria mas acho o título bastante desastrado!

    Já agora a minha análise do mesmo e atenção às nossas Miacouteiras :

    A par de "O intrínseco de Manolo " (João Rebocho Pais) e "A arte da viagem" (Paul Theroux ) é outro dos GRANDES livros que li em 2012! Quem gostou d' "A confissão da leoa" pelo livro em si, pelo tema e por causa das pessoas de quem ali se trata, e não pelo nome ou paixão pelo autor, gostará deste ensaio sobre a vida dos simples sob a forma de romance de Sérgio Veiga, mas atenção prepare-se para um estilo e uma linguagem muito próprios e invulgares!
    O valor do livro está longe e não se esgota no prefácio! Pelo contrário, Sérgio Veiga consegue, usando uma linguagem simples e sem arrebiques, do homem comum e do mato, trazer-nos imagens do dia-a-dia dessas mesmas pessoa simples, uma sabedoria profunda, directa e sobretudo uma reflexão sobre a vida e valores que se nos cola à pele e à idéia de tão simples e directa, sem artifícios de linguagem. Não é uma leitura para todos, porque é dirigida às pessoas boas e com sentimentos, porventura aos que andem perdidos... no romance podem encontrar indicações de um caminho, diria até que é essa a intenção do Sérgio, mostrar que há caminhos, numa filosofia simples de homem que vive na e da Natureza, como é o camponês ou o caçador. Tem reflexões sobre a vida e as coisas, e quadros dessa mesma vida e da Natureza, desta vez pintados com as palavras e uma simplicidade absoluta mas que não deixa dúvidas: é o que ali está! Não é preciso andar às voltas e a esgravatar á procura das idéias , elas são bem claras! Não é livro para urbano-depressivos nem góticos que cultivam negros pensamentos, ao contrário do que hoje impera e se cultiva este não é um livro negro e sim de luz, onde se fala e cabem bons sentimentos e a bondade dos homens. Melhor o compreende aquele que tenha alguma vez sido expulso do mar pelo vento, que tenha visto nascer o Sol ou a Lua no grande palco da Natureza e que se tenha molhado com o cacimbo nas madrugadas frias, ouvido cantar o leão e dormido sobre a terra, bebido água duma corrente e comido o pó da terra, suado na mata e rasgado os pés nas serras e areais, sentido o mato na pele, aspirado os cheiros e os sons que o vento trás e tenha sentido bater o coração na aproximação aos animais. Esse o meu receio para que o livro possa não ser entendido e apreciado como merece. Sérgio Veiga é um filósofo puro e duro, na verdadeira acepção da palavra, um naturista, um cultor da vida e da Natureza e das emoções e sensações puras e naturais, que pode não ser entendido pelos que cultivam o sofisticado, o artificial...

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    1. António Luiz Pacheco13 de julho de 2012 às 06:36

      PERDÃO: O título é "O QUENTE aconchego da mãe negra" ...

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    2. Caríssimo António Luiz , como Miacouteira convicta seguirei a sua sugestão. Até já sei a que livro se refere. Vi-o há pouco na livraria e estive indecisa em trazê-lo. Como já tinha sete no saco achei por bem moderar-me um pouco... Mas sei que, da próxima vez, já não vou resistir.:)

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    3. Infelizmente, tenho tido pouquíssimo tempo para mim, de resto só faço um curto intervalo para vir espreitar este blogue (funciona como a minha pausa "prazer"), mas não resisto a este apelo do nossos amigo António Luiz e, como boa Miacouteira, tive de vir "marcar o ponto" (já ontem senti imensa vontade de escrever acerca do Milan Kundera que marcou uma parte da minha vida, era a chamada "fase M.Kundera"), mas já me estou a alongar e o tempo é curto, só queria dizer que aceito a sua sugestão António (oh ana b. qualquer dia vou ter consigo para me emprestar livros, que eu cá não consigo encher o saco com sete livros de uma vez!!ok?).
      Boas leituras a todos, ah, e a propósito, sim o título é importante se não houver mais nenhuma referência ao livro ou ao autor.
      Isabel

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    4. Será sempre bem-vinda :)

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    5. "CONFESSO QUE VIVI" - de Pablo Neruda, mas haverá título mais belo e mais sugestivo?

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    6. É lindo!! E confesso que gostaria que fosse esse o meu último pensamento.
      Isabel

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  12. Eu leio agora O Rio que Corre na Calçada - riverrun ... - o que me parece um excelente nome, só que o livro não existe, ou melhor, existe o romance mas não está editado em livro. Existe agora no meu Kindele depois dumas artimanhas autorizadas pelo autor JJMadeira. Leitura nem sempre fácil, que obriga a retroceder e voltar, ainda mais difícil num K onde o folhear (folhear, ein !...) nos faz perder um pouco a noção do sítio onde estávamos, quanto já se leu ou falta ler, seja no livro todo, seja no capítulo em curso. Mas vai seguindo, pois parece haver uma trama consistente no meio de alguma divagação.

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    1. Obrigado, amigo Paulo. Sobre o "Rio..." falaremos daqui a uns tempos, assim o creio.

      Também gosto desse título que, ainda por cima, está relacionado com a história. Mas o título que mais gostei de criar, de outro livro meu que também não existe, foi "Tratado Moderno de Como Acender Lareiras em Apartamentos". Abraço e bom fim de semana para todos os extraordinários.

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  13. E será que um dos grandes romances contemporâneos não teve os leitores que merecia devido ao seu infelicíssimo título: Alguns Homens e Duas Mulheres e Eu ?
    Artur Águas
    Artur Águas

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    1. Sim o título não faz jus ao livro, mas sobretudo o que não lhe dá o devido valor é o texto da contracapa, percebo a intenção já que supostamente o seu lado "atrevido" poderia atrair certos leitores. Mas esse lado é uma ínfima parte do que está no romance...
      Isabel

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    2. Este para mim é mesmo novo...e pensava eu que andava a par da "livraria"...

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    3. Na verdade já tem uns bons anitos. Não sabe quem é o autor?
      o Título é o seguinte "Alguns homens, duas mulheres e eu" (O Artur Águas colocou um "e" em vez da vírgula mais).
      Boas leituras
      Isabel

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    4. "Alguns homens, duas mulheres e Isabel" ou "Alguns homens, duas mulheres e eu"? é que nunca vi, ouvi tal título...

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    5. Não, caro amigo, o eu não sou eu! Este romance é da Maria do Rosário Pedreira, nossa anfitriã.
      Julgo mesmo tratar-se do seu único romance. a poesia e a literatura infantil são as áreas onde tem produzido mais.
      Boas leituras.
      Isabel

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  14. Dentro de poucas horas vou ter amigos em casa, para o fim-de-semana.
    Jantar, abrir uma garrafa, conversar pela noite fora, amanhã e depois continuar neste padrão – trocar o passo às noites para pôr a amizade em dia.

    De modo que não vou poder acompanhar-vos neste debate. Talvez apenas uma espreitadela ou outra.

    Em todo o caso, os mais atentos adivinharão qual é o meu título favorito, já aqui o citei algumas vezes, e creio até que referi a volta que ele meu deu na vida, a viagem em que embarquei.

    A quem adivinhar, ofereço o poema de Borges – que fica já aqui transcrito como prémio de consolação para os que não adivinharam.

    (Não, o poema não tem pistas para o tal título. E daí…)


    Do que Nada se Sabe

    A lua ignora que é tranquila e clara
    E não pode sequer saber que é lua;
    A areia, que é a areia. Não há uma
    Coisa que saiba que sua forma é rara.
    As peças de marfim são tão alheias
    Ao abstracto xadrez como essa mão
    Que as rege. Talvez o destino humano,
    Breve alegria e longas odisseias,
    Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
    Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
    Em vão também o medo, a angústia, a absorta
    E truncada oração que iniciamos.
    Que arco terá então lançado a seta
    Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

    (Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda")

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  15. Fez-me lembrar "A sombra do vento", de Carlos Ruiz Zafón.

    O título é estranho... Não?

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  16. Não é de um livro, mas é um bom título:

    HORAS EXTRAORDINÁRIAS

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  17. Eu sou mesmo muito maus nos títulos. No primeiro livro fui buscar um nome da minha família , ficou "Frederico Garcia ou Existência Inacabada" e toda a gente me perguntou se era sobre o Garcia Llorca (não fazia ideia que fosse Frederico). No segundo livro escolhi "Gedeão, auto-retrato de um homem mau" e assim que o submeti à tia Rosário fui logo desancado por ter um titulo péssimo. Agora estou a escrever o terceiro e o ficheiro de word chama-se "Livro 3". Na verdade, o nomear o livro no fim da escrita, faz como que, depois de afeiçoado, acabe sempre por pôr como titulo o nome da personagem principal. Parece-me que antigamente não se ligava tanto a esse assunto, pelo menos os clássicos, na sua maioria, têm títulos bastante mais simples e concisos do que os contemporâneos.

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    1. Se te sentires esvaziado e escorraçado pelos monstros dos títulos, Que são criaturas estranhas com duas antenas içadas num caminho estreito, Amordaçado na criação da titulação que remunera, Faz favor de recorrer a este pobre mendigo, Arrumador sem abrigo dos muito temporariamente desprovidos, Desvalido por bramidos que assustam e, Em troca, De uma moedinha que conforte a barriga, De preferência não das castanhinhas que se trincam e entram na circulação e no aparelho digestivo, Mas das que nos confortam pelo sonho da leitura nos dias tempestuosos e húmidos, Recebe deste dador uma humilde oferta, Uma bênção, Para te secar e confortar momentaneamente a dor da criação.
      Experimenta fazer dos títulos, personagens, elas encarregar-se-ão, Numa luta de eleitos para um só lugar, De afastar as concorrentes, E nessa luta sem quartel do universo da escrita, Onde serás mero espectador sem meter prego ou estopa, Haverá no fim só um, ou uma: Das cinco iniciais, intermédias ou finais, Que tomará para si o Ceptro da eleita, Da tua Venturosa Escrita e da Nossa Prazerosa Leitura.

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    2. Sinto-me confuso perante um monstro translúcido , Que é criatura estranha com duas antenas içadas até branco nada, Amordaçado na criação que desconhecia ser-me solicitada, Recorro pois a si postiço andrajoso, Arrumador em si abrigado, Mestre de bramidos que de fora pouco ecoam e, Em troca, Da minha amizade, Divisa nimiamente subestimada e não menos geradora de conforto -geradora porque rara, geradora porque firme- peço a tão gentil dador uma oferta, Uma bênção , Para me embriagar na fátua ilusão de ter criado. Farei como me diz, Dos títulos personagens, Ao invés do meu predilecto revés, Admira-los-ei enquanto se esgrimem, Ouvi-los-ei tombar no pó da minha inépcia enquanto titulador, E nessa luta sem quartel do universo da escrita, Onde aquilo que serei cheira a coisa por criar, Haverá no fim só um, ou uma: Sem que aqueles que tombaram me tenham sido dados ao conhecimento, Que tomará para si o Ceptro da eleita, Da minha *** Escrita e da Vossa graciosa Leitura.

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    3. - Vem devolver o livro? - perguntaria o funcionário solícito.
      - Não, não! Venho devolver apenas o conteúdo - responderia o leitor compulsivo. - O título quero-o guardar, porque agradou-me. Venho só devolver o conteúdo! - repetiria, perante o olhar prazeroso e cúmplice do funcionário, agradado por tão avisada escolha. - Qual o desconto do conteúdo?
      - Caro amigo!... - responderia o satisfeito funcionário, que nem sempre se sentia em sintonia com o cliente - Paga quase nada! Quase noventa por cento de desconto! - garantiu, entusiasmado, enquanto entregava o título ao comprador e guardava para a casa o conteúdo, com a capa como brinde.
      1 Abraço e Boa Escrita!

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    4. Caro Pedro
      Veja, por favor, lá para o fim o meu comentário a propósito deste seu texto.
      Cumprimenta,

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    5. Oh Courinha mas já saíu o 2ª.? ainda não o vi...

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  18. Títulos que me apeteceram logo... sem comentar o conteúdo!

    No meu coração não moram pássaros - Nuno Camareiro (foi paixão à primeira vista)

    A Arte da Prudência, de Baltazar Gracián (velhinho, velhinho...)

    Falar Verdade a Mentir, de Almeida Garrett

    O livro do desassossego, de Bernardo Soares, um dos seres que habitava a ele de Fernando Pessoa

    Diário dos infiéis, de João Morgado


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    1. Esclareço apenas que o romance de Nuno Camarneiro se chama "No Meu Peito não Cabem Pássaros", ainda melhor do que o título acima referido.

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    2. Precisamente!
      E ainda mais bonito, sem dúvida!

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  19. Esta coisa dos títulos tem muito que selhe diga. O título pode não corresponder ao conteúdo; pode ser um mero chamariz para a obra; talvez até seja uma sugestão - ou exigência - do editor; pode surgir ao autor, no acordar da manhã; porventura rebuscado numa pequena frase da obra, talvez num diálogo, o que me parece justo e recomendável - está lá!
    Não quero colocar aqui, como habitualmente o faço (com dfesfaçatez, até) alguma coisa relacionada com a minha experiência literária, mas asseguro que já "perdi" uma obra por lhe ter colocado um título "esfarrapado".
    Estamos a falar de títulos, não é verdade?
    Pois bem - e se bem me lembro - falei neste blogue (algures, atrás) da característica que algumas editoras têm em colocar o chamariz na capa das obras que editam, à guisa da flor que atrai, com o seu colorico, a abelha, não para lhe dar a matéria prima necessária ao melífero, mas para polinizar a seu proveito. Daí, as editoras chamam o título a segundo plano e espalham na capa, com corpo três ou quatro vezes superior ao título, o NOME do autor. Ainda recentemente foi aqui chamada uma capa, de Philip Roth, onde se evidencia esse chamariz.
    Gosto dos títulos onde haja uma carga homófona e homógrafa evidente, tal como acontece com o "Horas Extraordinárias". Ora, este título cai bem num blogue - onde exraordinárias não tem a carga de horas para além do horário, suponho -, mas seria certamente um atestado de insucesso numa obra literária. No entanto, "Histórias Extraordinárias", pela sua simplicidade e mistério, ficam a "matar" nas narrativas de Edgar Poe.

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  20. Como estou hoje, ao fim do dia, com uma pachorra danada, vou brincar com alguns títulos de livros de escritores célebres, de modo a formar um texto "sem pés nem cabeça". É um pouco tétrico, mas a minha disposição, apesar da pachorra sobredita, não é melhor.

    "À Procura do Tempo Perdido (Proust), Adolfo (Constant),o Camponês Pervertido (La Bretonne), que ra um verdadeiro Camponês de Paris (Aragon), quis escrever As Memórias de Além Túmulo (Chateaubriand), os cânticos das Orações Fúnebres (Bossuet) e das suas Almas Mortas (Gogol). Para isso, aproveitou a ocasião do Duplo Suicídio de Sonezaki (Chikamatsu), devido a Falsas Confidências (Marivaux) e a Ligações Perigosas (Pierre Laclos), ocorrido no Monte dos Vendavais (Bronte), durante as inesquecíveis Bodas de Sangue (Lorca). Fez a Viagem ao Fim da Noite (Céline), pois se Numa Noite de Inverno um Viajante (Calvino) lhe aparecesse junto às Cruzes de Madeira (Dorgelès) do cemitério, A Terra Devoradora (Eliot), diria que ia À Procura de Godot, Por quem os Sinos Dobram ( Hemingweay),e que era O Sobrinho de Rameaut (Diderot) e ia em busca do Mestre Puntilla e o Seu Servo Matti (Brecht).
    O que viu? À entrada, A Louca de Chaillot (Giradoux), mais conhecida por A Cantora Careca (Ionesco), os Falsificadores da Moeda (Gide) e um Hussardo no Telhado (Giono), para além de O Vigário de Wakefield (Goldsmith) nas Lamentações ( J. Laforgue), pois tinha ali assistido um funeral.
    Adolfo decidiu, desde essa hora, escrever um livro com o título “Crónica da Cidade de Pedra” (Kadaré)."

    Trata-se de um exercício que já me ocupou as meninges em antigas aulas de literatura.

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    1. Caro Jocamartinho
      Veja, por favor, lá para o fim o meu comentário a propósito deste seu texto.
      Cumprimenta,

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  21. O elogio a quem o merece: a Maria do Rosário "espremeu-me" até aos limiares da tortura para me sacar um título melhorzinho. E funcionou. Obrigado!
    Luís Francisco

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  22. Há quem diga que o primeiro parágrafo é fundamental para que um romance agarre o leitor. Eu sou mais radical: digo que um romance começa no título, que é pelo título que se apanha o leitor, pelo menos no contacto inicial. Há belíssimos títulos seguidos de belíssimos primeiros parágrafos; e há romances belíssimos no seu todo, incluindo, já agora, a capa.
    Um mau título pode matar um bom romance? Talvez, se considerarmos a perspetiva comercial, que é a obsessão que hoje impera no mercado. Mas, creio, um bom romance supera sempre um mau título. Temos muitos exemplos na História da nossa literatura. Na primeira vez em que ouvi falar do romance Os Maias, era eu adolescente, julgava tratar-se de um livro sobre a Civilização Maia. Os Maias é um bom título? Pois... Depende do ponto de vista.
    Afinal, o que deve ser o título de um romance? Curto ou extenso? Prosaico ou poético? Objetivo ou subjetivo? Intelectual ou popular?
    Cada época e cada cultura dominante têm o seu próprio título. Também cada leitor é um título.

    António Breda Carvalho

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  23. Espreitadela.

    O prémio que prometi na tarde de sexta-feira vai para Jocamartinho.
    Por duas razões: refere o meu título favorito, “Se Numa Noite de Inverno um Viajante” e, mais do que isso, faz algo que nem a Italo Calvino lembrou – constrói uma narrativa usando títulos de livros.

    Mas Pedro Sande tem direito a um prémio especial, por levar um leitor (Jocamartinho?) à livraria a devolver o conteúdo e ficar apenas com o título do livro – o que podia muito bem ter lembrado a Calvino...
    Para o Pedro vai um texto que, por outras palavras, nos confronta com a mesma questão que Borges nos coloca no poema que transcrevi.
    (Para facilitar o cotejo, coloco aqui de novo o poema de Borges, seguido do texto de Philip Roth)

    Do que Nada se Sabe

    A lua ignora que é tranquila e clara
    E não pode sequer saber que é lua;
    A areia, que é a areia. Não há uma
    Coisa que saiba que sua forma é rara.
    As peças de marfim são tão alheias
    Ao abstracto xadrez como essa mão
    Que as rege. Talvez o destino humano,
    Breve alegria e longas odisseias,
    Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
    Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
    Em vão também o medo, a angústia, a absorta
    E truncada oração que iniciamos.
    Que arco terá então lançado a seta
    Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

    Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"


    Por outras palavras:


    Porque nós não sabemos, pois não? Toda a gente sabe. O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que está subjacente à anarquia da sequência dos acontecimentos, às incertezas, às contrariedades, à desunião, às irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. «Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o início da banalização da experiência, e o que se torna tão insuportável é a solenidade e a noção de autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum. O que nós sabemos é que, de um modo que não tem nada de lugar-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, não as sabemos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de coisas que não sabemos. E mais espantoso ainda é o que passa por saber.

    Philip Roth, in “A Mancha Humana” (pág 223-224)


    Boa semana para todos.

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  24. Caríssimo Joaquim Jordão
    Perdoe-me deturpar desta guisa que vai ler o seu Roth; perdoe-me o Roth por remedar o que tão sensatamente escreveu; perdoe-me a Rosário por este comentador, ao cair do pano deste dia, vir ainda a terreiro dançar com as palavras.
    Peguei no texto que o Jordão me deu - como que agradecer-lhe o facto de me ter premiado - e agradeço-lhe com este desaguisado, amuado, descochavado e despudorado texto, alterado em relação ao original. Se alguém tiver pachorra, encontre as diferenças entre o Roth e este que nunca poderá comparar-se ao Roth:

    "Porque nós não lemos, pois não? Toda a editora sabe. O que faz as editoras publicarem da maneira que publicam? O que está subjacente à anarquia da sequência dos livros editados, às incertezas dos autores, às contrariedades dos editores, à desunião dos livreiros, às irregularidades chocantes que definem quem é o melhor escritor? Ninguém sabe, professora Rosário. «Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o início da publicação e da concorrência, e o que torna a leveza tão insuportável é a solenidade e a noção de autoridade que as editoras sentem quando rejeitam o autor-comum. O que nós sabemos é que, de um autor que não tem nada de autor-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que escrevemos, não as publicamos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de títulos que não lemos. E mais espantoso ainda é o que passa pelo título de um autor que nunca lemos."
    Boa noite a todos, pois ainda tenho algumas horas a matarquear as teclas do computador para não romper um compromisso.

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    1. Regresso horas depois para corrigir duas coisinhas que, mpor lapso, deixei escapar neste meu comentário. Sei que escrever directamente na caixa de comentário - principalmente para quem é Mister Magoo - é difícil de apanhar as gralhas, que são mosquitos.
      Vejamos: é incompreensível, sem as vírgulas, o começo do comentário. Assim, devia estar lá - Perdoe-me deturpar, desta guisa que vai ler, o seu Roth.
      Onde está matarquear, devia estar matraquear.

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  25. "O Deus das Moscas" ainda hoje me desencadeia algum repúdio como título e pensando na passagem do livro que lhe está associada.
    Esqueço-me rapidamente disso, ao recordar na história e o impacto que teve em mim quando a li há muitos anos atrás.

    Mesmo assim, também aprecio bons títulos. Marcam a diferença.

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