Metáfora da mestiçagem

Recentemente, publiquei um livro que é uma delícia e cuja leitura, antes de falar de coisas mais profundas, dispõe bem – o que, numa época em que andamos um bocado zangados com o mundo, não deixa de ser importante mencionar. Trata-se de O Legado de Nhô Filili, de Luís Urgais, um romance que, podendo denominar-se «histórico» por se referir a um episódio histórico de relevo – a abolição da escravatura em Portugal –, vai claramente além de um relato dos factos que podem ser conhecidos através de ensaios ou manuais, construindo uma ficção primorosa à roda de um casal bastante improvável (e da sua descendência): o branco João Bento Rodrigues, funcionário régio nascido na ilha do Fogo de família minhota (conhecido como Nhô Filili) e a guineense Maguika, uma escrava negra como o carvão, trazida por negreiros para Cabo Verde já depois da proibição do tráfico. Mas não se pense que é a história de amor, como nas telenovelas, que aqui importa (embora seja de uma ternura extraordinária e suscite uma inegável empatia por parte do leitor), pois o romance atravessa quase um século de história e traz-nos, de mão beijada, ao embrião dos primeiros movimentos pela independência das Colónias, bem como à história da mestiçagem cultural e biológica e à questão do racismo, protagonizada não só pela elite branca da cidade da Praia (escandalizada com o casamento misto), mas, de forma bastante mais inovadora, pelos mulatos emergentes e interesseiros (e, note-se, nem sempre bastardos). Uma série de histórias e lendas locais, excelentemente articulada com a intriga do romance, fazem dele uma leitura de grande prazer.


 


Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de julho de 2012 às 03:48

    Bom dia a Todos, hoje sou o primeiro...
    Calhou!

    Um livro mesmo à minha medida, aposto... até e sobretudo porque dispõe bem.
    As minhas tendências não são os exorcismos dumas memórias vividas ou imaginadas, as depressões sociais nem angústias e traumas de autores assombrados por negros fantasmas.

    Já agora, li algures, que a grande diferença entre o português que colonizou meio Mundo, é o facto reconhecido que normalmente quando um anglo-franco-saxónicos fizesse um filho a uma mulher local, nascia um bastardo! Mas se fosse português, dava-lhe o seu nome!
    Esta é uma realidade que conheço na primeira pessoa.

    Saudações do campo!

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    Respostas
    1. António, é capaz de não ter sido assim tão pastoril.

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    2. António Luiz Pacheco5 de julho de 2012 às 06:15

      Claro que não foi Paulo... o muito sangue que se misturou custou também sangue derramado, suor e lágrimas... julgo que todos temos essa noção.

      Mas, há um detalhe que noto e não serei eu a fazer a sua interpretação, explico-o a mim mesmo e isso me basta. É a atitude dos nossos ex-colonizados face ao pormenor do nome!

      Quando se entrevista um trabalhador, sobretudo os simples por mais puros ou genuínos, nota-se o seguinte e isto é quase uma certeza:

      Pergunte-se o nome, seja a preto ou mulato...
      A resposta é dada sem emoção, nem qualquer espécie de reacção, sai apenas:

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    3. António Luiz Pacheco5 de julho de 2012 às 06:17

      Claro que não foi Paulo... o muito sangue que se misturou custou também sangue derramado, suor e lágrimas... julgo que todos temos essa noção.

      Mas, há um detalhe que noto e não serei eu a fazer a sua interpretação, explico-o a mim mesmo e isso me basta. É a atitude dos nossos ex-colonizados face ao pormenor do nome!

      Quando se entrevista um trabalhador, sobretudo os simples por mais puros ou genuínos, nota-se o seguinte e isto é quase uma certeza:

      Pergunte-se o nome, seja a preto ou mulato...
      A resposta é dada sem emoção, nem qualquer espécie de reacção, sai apenas: Jombe Calandula (escrevo sem K)
      Ou então, endireita os ombros, levanta a cabeça e declara-se com ênfase:
      Adão Pedro Carlos!

      Há nítido orgulho em portar nome português!
      Compreende o que eu quis dizer antes?

      Saudações coloniais - a brincar! Eheheh !
      Um abraço!

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    4. Pois, mas agora os tempos estão mais de "entrevistar" um Diretor , quando não Administrador ou Accionista maioritário, e sai mesmo um Jombe Kalandula (General) nada humilde.

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    5. António Luiz Pacheco5 de julho de 2012 às 12:24

      Nem tanto... não vou dizer o nome, mas ainda há meses um general de apelido português, mulato, dono de fazendas, me dizia cheio de orgulho que o seu pai era ribatejano (nem referia português) de Almeirim... o que segundo ele criava entre nós os laços de cumplicidade que uns copos valentes reforçaram, e para que me valeu bastante o ter ido muito aos treinos quando era novo, e nunca ter deixado de praticar...
      Ahahah!

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  2. Boa ventura aos escritores em especial Luís Urgais do resgate histórico parabenizo a pena: "O legado de Nhô Filili" obras deste padrão em conquista mais real a imaginária.

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  3. Ilha do fogo em reparado livro.

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