Ser e parecer
No ano passado, apostei em Milan Kundera para o Nobel da Literatura, pois houve movimentações que o faziam supor, das quais fazia parte a edição da sua obra em França na Pléiade, que é só mesmo para os autores especiais de corrida. E numa noite destas li um livro seu muitíssimo curioso – A Identidade. Conta a história de um casal que se ama e que, se não (se) questionasse, poderia ser o casal perfeito. Mas, às tantas, o medo instala-se. O medo do envelhecimento e de deixar de atrair a atenção dos homens (da parte dela, porque o amante é uns anos mais novo); o medo de ter estado enganado sobre ela e de perder a ligação ao mundo (da parte dele, pois Chantal é o elo que o une à vida). As questões do sexo e das fantasias eróticas, a sedução das cartas anónimas de um estranho admirador, os mortos e os vivos de um passado que parecia remoto – mas afinal regressa –, a descoberta de que a pessoa amada não é exactamente quem pensávamos e ainda uma frieza em relação à morte de uma criança, que é, simultaneamente, uma ardência que permite o encontro de ambos, conduzem o par a uma experiência de ruptura e a uma espécie de arrependimento. Mas não será demasiado tarde para recuperar o que já se perdeu? Pouco mais de cem páginas, mas sempre profundas, como é habitual em Kundera. Talvez este ano lhe dêem o Nobel, veremos.
Leio um livro de Kundera com um prazer infinitamente maior do que um livro de qualquer outro nobelizável actual. Mas alguma coisa me diz que não lhe querem atribuir o prémio e não acredito que lho deêm.
ResponderEliminarSe bem que pensava o mesmo do Vargas LLosa... e surpreenderm-me. De qualquer modo, desconfio que este seja o ano de um americano e, portanto, do Philip Roth (o que não fará com que eu o leia mais; americanos que o mereçam mais, há para mim uma boa meia dúzia).
Oh Nuno recomenda-me aí, por favor, um livro que tivesses gostado muito, muito, do Kundera , é que, do Kundera , apenas li um livro (UM ENCONTRO) e não era ficção era ensaio, não sei lhe assim lhe poderei chamar (sabes a minha incultura ainda é vasta, vastíssima).
EliminarASeverino,
EliminarPor acaso ainda não li este, o "Um Encontro".
No caso do Milan Kundera, o livro mais conhecido dele é maravilhoso (não gosto de tops 10, mas que se lixe: este está no meu). Chama-se "A Insustentável Leveza do Ser".
Depois, se gostares, tens também "O Livro do Riso e do Esquecimento", belíssimo, "A Lentidão", etc.
Milan Kundera é um pensador que ensaia nos seus romances. O "A Insustentável Leveza do Ser" começa por exemplo com uma discussão inesquecível acerca do Mito do Eterno Reterno, do Nietzsche, e de como essa ideia está presente na história das personagens do romance.
Caríssimo Nuno Serrano
EliminarJá tive oportunidade de dizer neste blogue que o livro "A Insustentável..." foi publicado pela D. Quixote no mesmo ano em que um outro meu saiu para as livrarias. É claro que o meu livrinho passou a ser insustentável nas vendas e nas receitas, o que fez com que eu, com um injusto ressabiamento, levasse à contracapa de um outro, publicado ainda nesse mesmo ano (obra humorística), que não tinha escrito a "Insuportável Subtileza do Parecer".
Julgo que a deturpação que fiz do título, a engoli quando li a obra do Kundera e lhe reconheci o mérito. No entanto, já vi pessoas das miunhas relações falarem do livro, que gostaram do livro, quando nalguns casos não o leram todo ou não gostaram.
Entre a insustentável leveza do ser e a insuportável leveza do parecer, prefiro a primeira, porque, da segunda, estou farto.
Já encontrei num café um determinado indivíduo que trazia na mão uma obra muito recomendada e reconhecida, abrindo-a para ler (ou fingir que lia) e marcando-a a cerca do meio. Uma semana depois, num outro café, o mesmo "leitor" continuava com o mesmo livro - abre e fecha - e o marcador sensivelmente no mesmo sítio.
Milan Kundera - concordo - é um ensaiador de literatura, mas ensaia bem. O exemplo retro dar-lhe-ia azo ou ensejo para produzir uma personagem e uma obra.
Também aposto no Roth para o Nobel deste ano...
ResponderEliminarSeria mais do que merecido
Veremos em Outubro!
Querem uma opção sibilina? Um vaticínio?
ResponderEliminarPois bem, vai apenas o meu palpite.
O Prémio Nobel da Literatura não vai para: Rotn; nem Lobo Antunes; nem Kundera; Thomas Pynchom; nem para cerca de 170 renomeados.
Irá,sim para um dos 46 nomeados pela primeira vez, desde que: não seja sueco; abranja poesia; não seja sul-americano (apesar de os brasileiros apostarem em Ariano Suassuna).
O Prémio Nobel irá parar a Joyce Carol Oates ou Don DeLillo, por serem norte-americanos.
A Sextante, se isto lê, esfrega as mãos.
Uma inconfidência: seria para mim, não fosse o caso de terem omitido o meu nome nas propostas (eh,eh!).
Era muitíssimo merecido para Kundera, como o era para os já aqui referidos Roth, DeLillo, Pynchon... só que também não acredito muito. deve ser mais um daqueles nomes que uma "meia dúzia" conhece minimamente bem.
ResponderEliminarQuando aparecer um post sobre o Nobel, falar-se-á do Kundera?
ResponderEliminarCriatura simples, escrevera a obra: "A pedra do reino"; bem haja Suassuna! Homem em meio as palavras.
ResponderEliminarReentro nesta caixinha de comentários para reincidir sobre a opinião manifestada no meu comentário anterior.
ResponderEliminarRegistem isto: o Nobel da Literatura de 2012 será entregue à Joyce ou ao DeLillo; julgo mesmo que será entregue à Joyce.
Quanto ao Milan Kundera, não me palpita que será desta, muito embora ele seja cerca de 10 anos mais velho do que estes dois nomes.
Para amenizar o tema, até vou deixar aqui, "mutatis mutandis", parte da acta do júri de Estocolmo:
"A autora (Joyce) cria personagens instigantes, gerados por uma linguagem marcada pelo lirismo e pela violência do quotidiano".
Onde já lemos isto?
Meditem, se quiserem. Herta Muller venceu em 2009, Doris Lessing em 2007, Elfried Jelinek em 2004, bem longe da Wislawa em 1996. Reparem no espaço temporal e na distribuição por países; saibam que, tal como no prémio LeYa, dos duzentos e um propostos, apenas 20 vão ao "à final" do júri. O Roth e o Kundera são mais conhecidos, tendo o primeiro dado uma entrevista ao Rodrigues dos Santos, o que o tornou "mundialmente" conhecido.
Pronto. Nada mais sobre o assunto. Os editores e os agentes literários (em Portugal só conheço um capaz de cativar estes direitos), podem pensar duas vezes e apostar nesta corrida, pois um Nobel, por muito desconhecido que seja, vende sempre, mesmo sendo poesia. No entanto, poesia foi em 2011; não acredito que em dois anos seguidos, volte um poeta ao galardão. Depois não digam que eu não avisei!
Caro Jocamartinho,
EliminarJoyce, não acredito mesmo nada. Mesmo na América, não é nada consensual (eu também não gosto muito). Para mim, americano que ganhasse teria de ser o Don de Lillo.
Mas ganha o Roth, que tem a máquina muito bem montada (como o nosso Gonçalo M. Tavares, o que prova que as nossas editoras quando querem investir sabem pensar a longo prazo). Eu ponho uma garrafa de Monte Velho no Roth. E se ganhar a Joyce, caso queira apostar, apareço a cobrar!
Oh Joca essa do Roth ter ficado mundialmente famoso depois de ter dado uma entrevista ao 575 tá muita boa...fartei-me de rir...
EliminarPode-se mesmo dizer que foi "Uma (entrevista) num sopro".
EliminarCaríssimo Nuno Serrano
ResponderEliminarSeja uma de Monte Velho, com todo o prazer, quer ganhe quer perca.
O Roth venceu o "Príncipe das Astúrias", este ano; no ano passado foi o "Man Booker International Prize"; em 98 foi o "Pulitzer"; finalmente, tal como o Jorge Amado, é um eterno candidato. São muitos ovos para o mesmo cesto. E Roth, apesar de bom, não é assim tão "bom" para as características do Nobel. Ele e o Milan Kundera são sempre favoritos (tal como a Alemanha neste "Euro").
Há outra coisa, Serrano. Geralmente, os Nobel têm o condão de terem sido publicados por pequenas editoras, como a Cotovia, etc. Ora, o Roth é publicado pela D. Quixote. E isto não lhe traz, obviamente, uma mais-valia.
De qualquer forma, ambos apostamos num prémio a distinguir um norte-americano. Mas pense nas mulheres, Serrano. Elas são tão boas escritoras como os homens e, como é dos cânones, tem de haver rotatividade, uma vez que o Nobel distingue não só determinada obra como o conjunto das obras.
Se eu fosse um candidato (cruzes Canhoto!), apostaria uma das caves do Monte Velho no meu nome (risos e gargalhadas a solo).
Sr. Kundera
ResponderEliminarPara mim é Nobel da Literatura há imenso tempo. Não dou prémios monetários, mas como leitora sou verdadeira e genuína como nenhuma comissão Nobel alguma vez será na vida.
Abraço eterno
AO
Muito provavelmente uma das obras que mais me marcou, para além da trilogia dos caminhos da liberdade de Sartre.
ResponderEliminarA perspectiva do conflito entre o amor ideal e o amor real e toda a ambiência da insustentável leveza do ser torna-se quase inexplicável na marcação do nosso ser.
Se me perguntassem porque a insustentável leveza do ser me toca profundamente, não sabia explicar, porque me toca ser insustentável escavar na beleza.
A idade da razão, a permanência e o com a morte na alma, são elas a minha insustentável razão de viver e sonhar. Será que passa por aqui a leve insustentabilidade do ser?
Eu voto no Roth mas confesso que também ficaria muito feliz se fosse o Kundera a ganhar. Ambos merecem!
ResponderEliminarQuanto ao Identidade " li-o já há algum tempo e adoraria relê-lo. É dos tais livros que necessitam de vivência para serem devidamente apreciados. Mas eu não tenho tempo para reler livros...Que angústia!
Amiga Ana,
EliminarOlhe que tem... Eu pensava o mesmo, mas a verdade é que quando se relê um livro bom, ainda mais se for vários anos depois, já não se está a reler um livro... Precisamente pelo que diz, porque a pessoa que está a ler já não é a mesma. Aconteceu-me isso, por exemplo, com "A Insustentável Leveza do Ser" (MK), "Crónica de uma Morte Anunciada" (GGM), "Memórias de Adriano" (etc.). Destes três, garanto-lhe que li sete (as memórias de adriano são responsáveis pelo aparente erro de tabuada).
Amigo António,
EliminarEstá coberto de razão! Sei que deveria dedicar algum do meu tempo a reler algumas obras. Mas tenho tantos livros imperdíveis por ler que acabo por nunca voltar a trás. Daí a sensação de angústia que referi: por mais que leia sinto sempre que nunca hei de ler tudo o que gostaria. Pode ser que na reforma ( se alguma vez a tiver...) me dê para os reler. Estou certa que seria um forma de reviver a vida de novo: recordo-me exatamente de quando e onde os li. Podia até reconstituir a minha vida através deles. Estou certa que, mais cedo ou mais tarde, vou reler alguns dos livros que, por imaturidade, não saboreei devidamente. Faltava-me vivência para os poder entender.
Do Kundera leio tudo e gosto de tudo, mas A Identidade faz parte de um tema (a emigração) sempre recorrente neste autor, e além deste tem A Ignorância e a Lentidão que também gostei muito. editado pela Leya
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