Confissões
Não é, nem de perto nem de longe, o meu livro favorito do autor, mas, impelida pelo entusiasmo de alguns leitores deste blogue – mais do que todos, Ana B. e Isabel –, lá me apressei a «ouvir» A Confissão da Leoa, de Mia Couto, um romance baseado em acontecimentos reais que se prendem com o aparecimento de leões numa aldeia moçambicana, onde foram devoradas algumas pessoas. O assunto não é fácil porque o ponto de partida parece até demasiado ficcional para poder dar certo, mas as duas personagens que dão conta do drama – Mariamar e o caçador – são muito bem desenhadas e têm, efectivamente, vidas que valem a pena ser narradas. A primeira é a irmã mais nova da última vítima dos leões e foi proibida de sair de casa, não por causa da proximidade das feras, mas justamente para que o caçador não a leve consigo quando, enfim, conseguir dar cabo delas; o segundo é um homem apaixonado pela mulher do irmão, internado num hospital psiquiátrico desde que disparou contra o pai de ambos, em circunstâncias tão ambíguas que nunca se chegou a saber se foi um acidente. E, com a ajuda deste duo improvável – caçador e presa –, acompanharemos o dia-a-dia numa aldeia atrasada e machista, onde há quem pense que os homens são muito mais perigosos do que os leões, sendo alguns deles capazes, inclusivamente, de os fabricar. Embora a primeira metade do livro me tenha parecido bastante mais conseguida do que a segunda (com algumas coisas mais ou menos previsíveis), este é um bom livro sobre as feras que os homens trazem dentro deles, sobre as superstições e como servem o poder dos homens, sobre as feridas e o desejo da cura.
Há homens (seres humanos) que efetivamente são mais perigosos do que os leões!
ResponderEliminarDe resto, parece um livro interessante; não considero o ponto de partida demasiado ficcional, infelizmente, casos desses (raros) acontecem. Claro que leões desse tipo são quase tão perigosos como certos homens...
Eu li o livro porque Agualusa me disse para ler.
ResponderEliminarJá não sinto o que sentia pela escrita de Mia Couto. Ele melhorou, mas eu mudei.
Finalmente, emancipou-se de si mesmo. O Mia Couto, que criava palavras como uma criança desenha bolas de sabão, cresceu. A criação de neologismos diminuiu drasticamente. A prosa melhorou com isso.
Tem uma particularidade que continua: O autor recorre, constantemente, a aforismos.
De resto, o enredo está muito bem montado, homogéneo, e tem a capacidade de levar o leitor até ao fim do livro.
Agora...sem ainda ter lido o livro todo, fui conquistado logo às primeiras páginas do livro "Teoria Geral do Esquecimento" de José Eduardo Agualusa. Grandes expectativas.
P.S. Já alguém leu uma tradução português-inglês de um romance mais antigo de Mia Couto? Leiam. É um outro romance.
"É bom ler e é ótimo ter lido"
EliminarNão gosto da preocupação quase exclusiva com a história bem contadinha, como agora é a moda neste nosso país anglossaxónico. Para mim tem de haver trabalho de linguagem. E, nesse sentido, Mia Couto talvez seja o melhor escritor actual em língua portuguesa. Muito de perto, nunca o escondi, está para mim Luís Caminha, um autor completamente desconhecido e ausente das livrarias, apesar de ainda nem há um mês ter lançado um livro maravilhoso.
ResponderEliminarCaro Nuno,
EliminarQuanto ao "seu" Luís Caminha (seu, porque já o vi aqui, e a outras pessoas, elogiar várias vezes a sua escrita), digo-lhe ele não tem hipótese de sucesso. Escreve de um modo que não é moderno nem clássico, concilia enredo e linguagem; não se preocupa em usar as palavras "erradas" quando percebe que elas emocionam mais que as certas; aborda temas universais como se não o fossem; etc.
Isto é o que eu penso e julgo que comigo estará a sua primeira editora, a Caminho, que não terá querido publicar este excelente romance que é o seu segundo livro (que, se não sabe, é uma edição de autor, porque a sua editora é daquelas que se faz pagar pela edição; por isso, aliás, é difícil ou impossível encontrar o livro nas livrarias).
Quanto ao Mia Couto, é um grande escritor que nunca teria publicado se fosse português. Brinca demasiado com as palavras e isso só se perdoa a um africano. Mas eu estou consigo, ambos os escritores têm universos muito diferentes mas uma capacidade enorme de usar as capacidades plásticas da língua para falar de emoções.
Vai-me perdoar... sei que diz não só a verdade, como sabe o que diz! Daí eu pedir-lhe desculpa antecipadamente e porque sei aquilo que sou:
EliminarUm ignorante!
Não se ofenda com as minhas palavras porque não é esse o meu propósito, e sim desabafar.
Compreendo o que diz! Sei que é a realidade.
Porém, que feio é aquilo que diz!
Afinal são as editoras quem decide o que é bom ou não é... e o público leitor está sujeito a essa atitude inquisitorial e até fascizante, castrante, da rentabilidade do livro imposta pelos interesses da moda e da economia.
O público só pode decidir dentre aquilo que as editoras permitem que se publique e as livrarias que se exponha... condicionando gostos e até as escolhas de leitura - basta ler a Atual ....
Mas a culpa será só da economia?
Ou será também responsabilidade dos que se arvoram em decisores, em fazedores de opinião e se quiser em censores, que só divulgam aquilo que acham que devem e de que gostam?
Todos sabemos que as coisas são assim, mas é desagradável confirmá-lo! Desculpem-me...
Péssima coisa para se ler de manhã e no dia em que faço a adiafa da tiragem da cortiça... fiquei com uma azia tremenda e até algum ódio aos tais escritores eleitos, da moda, e que eu detesto!
Sinto-me um dissidente num Gulag literário.
Vou-me curar, e logo em indo à cidade vou comprar um ou dois temas dos que gosto, e para ser honesto, que alguém ainda publica!
Saudações do campo.
Caro António Luiz Pacheco,
EliminarDesejo-lhe óptimas leituras daquilo que lhe agrada. Que mais interessa nos livros?
Peço desculpa se lhe afeiei (isto diz-se assim?) uma manhã bonita mas tudo o que disse em resposta ao meu comentário são verdades. Grandes verdades.
Mas olhe: se estiver atento, como sei que está, encontrará, aqui e ali, outros livros que também lhe dirão muito apesar de passarem ao largo dos jornais e da blogosfera.
Um abraço!
Caríssima Anfitriã: Ainda bem que me diz que não é o melhor! Como, para além desse, só li o Jesusalém ( muito bom, também, mas continuo a preferir A Confissão...) já estou a antecipar as maravilhas que me esperam. E logo ele que tem tantíssimo( não resisto a esta deliciosa expressão usada no livro) .
ResponderEliminarAinda ontem comprei mais um livro do Mia Couto:" Venenos de Deus, Remédios do Diabo". Espreitei e pareceu-me, também, imperdível! Confesso que estou totalmente apanhada pela sua escrita. Até já pensei em fazer um clube de fãs... Pronto! Ok! A Isabel será a presidente! É justo!:)
A sério: gostei muito do "A confissão da leoa". Mais que a verossimilhança da história, prendeu-me o talento e a enorme sensibilidade com que o escritor a contou. Não tenho dúvidas que é um dos nomes maiores da literatura portuguesa. E tem uma particularidade que adoro: para além de refletir seriamente no mundo e na condição humana, fá-lo com toques de humor deliciosos! A viagem do caçador, do escritor, do administrador e da primeira dama é hilariante Fartei-me de rir! Maravilhoso livro!
Oh Ana, hoje fomos mimadas pela nossa anfitriã, não fomos? E o nosso Mia teve direito ao seu post, bem o merecia!!!
EliminarGostava de ter mais tempo para poder falar sobre esta paixão que tenho pela Escrita deste escritor, mas não tenho, de qualquer forma tão pouco a saberia exprimir...Sei que gosto das palavras que inventa, do universo que descreve e dos sentimentos que revela, mas é muito mais do que isso ...Quanto ao clube de fãs, eheheh, Presidente?!! Nada mau, finalmente vou ser "presidenta" de alguma coisa, hein??
Boas leituras a todos estes amigos "extraordinários"
Já não era sem tempo! Até se me partia o coração de ver o nosso Miazinho completamente ostracizado . ...Mas pronto, finalmente foi feita justiça!:)
EliminarGostei bastante deste livro de M.Couto , e já tive a oportunidade de dizer porquê...
ResponderEliminarNão gosto da maioria dos autores portugueses contemporâneos! Nuns não gosto da forma de escrever, noutros, daquilo sobre que escrevem!
Lamento sinceramente, porque parece que devia, mas estou noutro comprimento de onda!
De vez em quando lá aparece, isolado e quase o desapercebido - não fora este Extraordinário lugar onde se fala deles - um Paulo Moreiras ou João Rebocho Pais...
Em contrapartida gosto sobretudo da maneira como escrevem e daquilo sobre que escrevem autores lusófonos como os citados José Eduardo Agualusa, o sempre Pepetela... e Mia Couto, embora deste nem de tudo! Por vezes consegue ser demasiado... psicadélico?
Saudações corticeiras!
O Agualusa afirmou (vi e ouvi) que A Confissão da Leoa é o melhor romance do Mia.
ResponderEliminarNestas coisas da literatura, já se sabe, há gostos e desgostos de todos os feitios __ onde eu, naturalmente, me incluo.
Barrius