Tristeza
Hoje vou falar de um dos melhores livros que li nos últimos tempos (imperdoável não o ter lido antes) e que, se pensar bem, é também um dos livros mais bonitos que li na vida. Chama-se Almas Cinzentas e escreveu-o o francês Phillipe Claudel, tendo com ele arrebatado o Prémio Renaudot (mas merecia todos os outros, que são muitos, em França). E, para além de bonito, é um livro inteligente, com uma particularidade rara, que é a de só sabermos quem é o narrador já a história vai a meio. História triste esta, que parte de uma morte – ainda por cima de uma criança – para contar a vida de uma pequena cidade do Norte de França e dos seus habitantes – o procurador, o juiz, o presidente de Câmara, a professora, o dono do restaurante... – durante a Primeira Guerra Mundial, num cenário quase sempre triste e cinzento, quase sempre frio e miserável, no qual os ricos são sempre os mesmos e os pobres muitos e cheios de medo. Mas há um crime hediondo que é preciso perceber – ainda que alguém já tenha sido condenado por ele à pena capital – e o narrador tem quase a certeza de que o criminoso continua à solta. Por esse crime, perderá ele o pouco que tem, assemelhando-se nisto ao seu adversário, a quem uma jovem e bonita professora chama Tristeza num tom de carinhosa compaixão. Retrato magnífico de um tempo e de um lugar, com personagens muito bem desenhadas, cheias de humanidade, este romance vale cada página que tem; já não é novo e pode ser difícil de encontrar, mas é preciso andar por aí à procura dele porque não há muitos assim, que nos deixem uma pena imensa de chegar à última página.
Li o original, Les âmes grises, muito pouco tempo depois de ter saído, e ainda cá tenho as várias reacções à morte de Belle de Jour e as características cinzentas daquelas almas (cinzentas também de não serem nem boas nem más, como todas as almas). Um livro maravilhoso, sim.
ResponderEliminarTodos os livros de Phillipe Claudel que li até hoje são absolutamente MAGISTRAIS, creio até que já tive oportunidade de aqui o referir; "ALMAS CINZENTAS" deixou-me absolutamente siderado, grudado ao chão, e parti de imediato em busca de mais livros deste grande escritor francês que ainda recentemente esteve em Portugal e "A NETA DO SR LIHN" é outro belo livro, para além de "AS CHAVES ROUBADAS" (não me lembro se será este o título", ainda não li o último "O RELATÓRIO DE BODRECk" . Não se podem perder estas ALMAS CINZENTAS
ResponderEliminar"O Barulho das Chaves" é o título correto . Refere-se ao barulho que as chaves fazem ao abrir as celas da prisão onde ele deu aulas durante vários anos.
EliminarConcordo totalmente consigo! O Plillipe Claudel é um escritor extraordinário, um dos melhores do mundo! Tenho todos os seus livros editados em Portugal. Soube que ele esteve em Portugal, no Instituto Franco-Português, mas já tinha passado o dia da sessão. Tive imensa pena.
O "Almas Cinzentas" foi também o primeiro livro dele, que li. E adorei, claro! Curiosamente, o seu último romance -"A Investigação" - foi o que menos gostei. Se calhar porque as espetativas eram demasiados elevadas. Todos os restantes são EXCELENTES!
Oh Ana e já leu "A NETA DO SR LIHN "?
EliminarClaro que li! E adorei! Mas nem queira saber a trabalheira que este livro me tem dado. Há coisa de umas semanas, deu-me um ataque de arrumações e decidi, finalmente, pôr ordem na minha biblioteca. Tirei os livros todos, limpei-os uma um e organizei as estantes segundo a minha ordem ( tinha tudo misturado o que me dava uma trabalheira, quando queria encontrar um livro). Nas arrumações dei por falta desse livro. Nem imagina como fiquei! Ia tendo um ataque! Não me lembro nada de o ter emprestado ( anoto na agenda as raras vezes que o faço...). Ora como ele não tem asas, alguém o levou. E eu suspeito quem foi. Os danos colaterais dos divórcios são terríveis...:) Claro que ele negou prontamente mas vislumbrei um esgar de sorriso por trás daquela carinha ingénua. À homem! Certamente saberá do que estou falar...:) Tudo isso seria irrelevante se o livro não estivesse esgotadíssimo. Mas está! Já tentei encomendar através da livraria e nem assim! Mas ainda não perdi a esperança de o recuperar. Nem que tenha que pedir uma rusga à GNR para ver se vislumbra por lá o livro.. Eheheheh
Eliminarnão, não está esgotadíssimo...
EliminarA sério!? Então, por favor, onde o posso encontrar?
EliminarPode encontrar na fnac online e na wook online, por exemplo. Creio que também o vi na Fnac do Chiado recentemente. Abraço,
EliminarCristina
Cara Cristina, se pesquisar em ambos os sites que sugere verá que o livro está " esgotado ou indisponível". Apesar de o saber, pedi na Fnac de Alfragide que mo tentassem arranjar. Infelizmente, passados cerca de dez dias recebi uma mensagem a informar que lamentavam mas que não tinha sido possível satisfazer o meu pedido. Por isso acho estranho que o tenha visto na Fnac do Chiado. Não terá sido nalguma livraria menos mediática?
EliminarVá a este portal e encomende. Provavelmente, ainda haverá lá algum exemplar. Tem uma lindíssima capa da ASA.
Eliminarhttp://www.bulhosa.pt/livro/neta-do-senhor-linh-a-philippe-claudel/
Obrigada! Já vislumbro uma luz ao fundo do túnel...:)
EliminarEm "A LESTE DO PARAÍSO" vi um cágado numa estrada e vi-o a subir um passeio e em "ALMAS CINZENTAS", vi, mas vi mesmo, almas cinzentas, tristes e sempre uma chuva miudinha a cair, um miúdo com uma boina preta na cabeça (esfiada), descalço, calça à meia canela e ranho no nariz...
ResponderEliminar"A LESTE DO PARAÍSO" do imortal John Steinbeck ; para os mais novos -leiam os livros deste grande/grande escritor (de Salinas-EUA)-.
EliminarMuito, muito bom! Belíssimo livro...
ResponderEliminarDepois de Almas Cinzentas, li O Caçador de Tesouros, de J.M. Le Clézio. Passei da paisagem cinzenta e carregadas de sombras do Norte de França para o vento quente e exótico das Ilhas Maurícias. Foi uma felicidade ler estes dois romances de seguida...
«Je n'ai plus rien à dire. J'ai tout dit. Tout confessé. Il était temps.»
EliminarUma grande voz, a de Claudel, concordo em absoluto com o que dizes.
Deste J.M.Le Clézio já li dois ou três livros mas ainda não consegui perceber porque é que foi Prémio Nobel (apesar de não ter desgostado dos livros que dele li-ESTRELA ERRANTE, O CAÇADOR DE TESOUROS e outro de que agora não recordo o título )
EliminarDe J.M. le Clézio apenas li "a música da fome" e gostei muito, mesmo muito.
EliminarIsabel
Li o livro quando saiu. Belíssimo e marcante. É devida uma palavra à qualidade da tradução da edição portuguesa. Altamente recomendado, sob todos os aspectos, portanto. Um abraço, Rosário, com votos de boas férias, se for o caso.
ResponderEliminarSim, claro, a tradução é muito boa, esqueci-me de a elogiar! Assina-a Isabel St-Aubyn, uma grande tradutora da língua francesa.
Eliminar"(...) (imperdoável não o ter lido antes) (...)"
ResponderEliminarNão me faça rir. Eu então devo ser um pecador daqueles que já não salvação; eu que descobri a literatura aos 32 anos - vou pelos 36.
Bom, tanto falatório acerca deste franciú, lá terei que vasculhar nas prateleiras. Obrigado pela sugestão.
Bolas, esqueci-me de uma palavra. Reformulando a frase:
Eliminar"Eu então devo ser um pecador daqueles que já não HÁ salvação;"
Foi a ana b. que deu a "dica" à Maria do Rosário para ler este do Claudel, conforme comentário em 1 de Junho? Se foi, fez bem.
ResponderEliminarFiquei a saber que gostam de romances policiais - porque se trata de um romance policial, este Almas Cinzentas - pois, conforme já se escreveu atrás neste mesmo blog, "todo" o livro tem um fundo de trama policial, ainda que ténue ou dissimulada, muito embora o termo "policial" ou "policiário" ultrapasse a limitada abrangência que se dá a este género de literatura.
Se querem ler a influência "policiária" do Claudel, encontram-na em A Investigação.
Oh Joca "ALMAS CINZENTAS" romance policial, tamos a brincar ou quê...
EliminarMeu caro, esclarecido e extraordinário Severino
EliminarAlmas cinzentas é um livro policial - melhor, de mistério - na senda de outras obras do género, embora tenha mais profundidade do que os vulgares romances do crime, investigação e acusação.
É o próprio autor que, numa entrevista, assim o classifica (e não estava a brincar):
"Sim, é um romance sobre o mistério e mistérios que nunca se chegam a compreender. Acho que vivemos num mundo em que queremos que tudo seja explicado e não é fácil explicar tudo, ou compreender tudo. Li muitos romances policiais até há dez anos e depois parei, porque cheguei à conclusão que há sempre um culpado, que é apanhado. Acho que por vezes a realidade é mais sombria, mais difusa e menos acessível. Todo o romance é um inquérito sobre um crime, sobre a própria dor do narrador e sobre os homens. Quando escrevo é para compreender os outros."
Nessa entrevista, sobre "Almas Cinzentas",o entrevistador pergunta:
"As comparações que fazem da sua obra com a de George Simenon incomodam-no?"
E ele responde:
"Em França os jornalistas gostam muito de fazer comparações. E porquê Simenon? Porque nas primeiras entrevistas que dei, há seis anos, disse que gostava de Simenon. Mas sinto-me próximo de Simenon através dos universos geográficos e de coisas nele que sempre admirei. Encontra sempre palavras e frases muito simples. Uma criança de dez anos pode ler um ‘Simenon’ sem precisar de ir ao dicionário procurar uma palavra. E com essa grande simplicidade aparente foi muito longe."
Aqui:(http://portalivros.wordpress.com/2009/03/31/philippe-claudel-entrevista-a-proposito-de-almas-cinzentas/).
Oh amigo Joca não se esqueça que está a falar com um inesclarecido daí esta minha admiração e esta minha "bojarda", mas ALMAS CINZENTAS só será um livro policial se "O HOMEM QUE VIA PASSAR OS COMBOIOS" do Simenon também o for!
EliminarMas não sei se por preconceito ou não nem ALMAS CINZENTAS nem O HOMEM QUE VIA PASSAR OS COMBOIOS, dois extraordinários livros, são livros policiais (para mim)!
Livro policial para mim só do ROSS PYNN.
Já agora, para além do Ross Pynn (Roussado Pinto), terá lido os "estrangeiros de cá", como Dennis McShade (Dinis Machado) e Orl Mark (Orlando Marques)?
EliminarEm literatura sou muito eclético. Confesso que li, em garoto, livrinhos "western" (concordo, pobremente escritos) e, um pouco mais crescidinho em centímetros de altura, li livros policiais, "puros no género", de autores como Dashiell Hammet, Simenon, Erle Stanley Gardner ou Rex Stout.
Vou ainda confessar-lhe outra coisa: nunca escrevi um "policial" puro, mas ando com ganas para o tentar.
E falta acrescentar à lista dos nossos portugueses o Dick Haskins (António Andrade de Albuquerque).
ResponderEliminarAntónio Breda Carvalho
Li-o há cerca de seis anos e também achei que era um dos melhores livros que tinha lido, nos últimos tempos.
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