Ça bouge
Nas últimas férias grandes, reparei que muitos estrangeiros que escolheram as praias do Algarve levavam com eles um e-reader, quase sempre um Kindle, poupando-se ao peso dos livros que iam na minha pasta – e que, por me deslocar de carro, pude levar comigo. Porém, eram ainda muito poucos os portugueses que se serviam desses dispositivos para ler, talvez porque a crise instalada não desse para mais do que o hotel, a gasolina e as refeições (que este ano, sem subsídios, muitos já não poderão pagar). No final do ano passado, pedi, por curiosidade, os números de vendas de ebooks de um dos autores que publico, parecendo-me que, pelas suas características, seria dos que teriam mais leitores com e-readers. Surpreendi-me com a parca meia dúzia de exemplares vendidos e, até há pouco, rendi-me à evidência de que ainda estávamos um bocado atrasados ou falidos para podermos concorrer com suecos e holandeses (os estrangeiros de que atrás falei) nesta matéria. Contudo, há dias chegou-me uma informação sobre as vendas do romance vencedor do Prémio LeYa e, ao contrário do que pensava, neste caso os ebooks ultrapassavam os 120, quase todos na versão para iPad. Será que também em Portugal as coisas estão decididamente a mexer e as pessoas não resistiram, apesar de andarem mais apertadas de dinheiro, ao gadget da Apple, mas pouparam no preço do livro, que é mais barato na versão electrónica?
O meu Kindle custou menos de 1/4 do iPad mais barato, mas como só posso comprar livros na Amazon , quando compro um livro (em) português tenho a sensação que estou afinal a importá-lo. Faz-me impressão e tenho resistido ajudado também pela pouca oferta disponível e por sempre preferir o livro em papel. Uso muito os seus dicionários (inclui o Priberam) como auxiliares de outras leituras (o K liga-se e desliga-se num instante). É também muito fácil usá-los no K na leitura de livros em outras línguas. Depois, permite-me ter um ou outro livro no original que de outro modo nunca teria. Exemplo: Finnegans Wake , como se sabe basicamente ilegível mas acessível e desfolhável " na totalidade, ou todos os Sonetos de Shakespeare. Finalmente, tenho construído "livros" no K, em especial de poesia, sacando aqui e ali na net . O método de carregamento é facílimo. Enfim, apenas mais um brinquedo.
ResponderEliminarNão desfolhem os livros, por favor, folheiem-nos, mesmo nesses aparelhos...
ResponderEliminarEheh !... Obrigado. Pode ser no singular, pois fui só eu o calino. Não desfolho mais o K.
EliminarOs autores portugueses dificilmente terão mais vendas por vários motivos, mas podemos começar pelo facto de os seus ebooks apenas estarem disponíveis em formato epub, um formato que não é lido no Kindle. E o formato epub nem sequer pode ser convertido de modo legal porque está protegido por DRM que supostamente protege os direitos de autor das obras. Ou seja, para poder ler um ebook da Leya ou da Bertrand no meu kindle tenho que cometer uma ilegalidade. Não é à toa que as editoras estrangeiras estão a caminhar cada vez mais no sentido de eliminar o DRM nos seus ebooks porque já perceberam que é uma medida contraproducente. É importante disponibilizar o maior número de formatos para todo o tipo de aparelhos e não faz sentido eliminar da equação o e-reader mais popular que é o kindle (por ser um aparelho mais barato e mais focado na leitura). Mas a questão principal assenta nos preços. Fui ao site da Leya e admito que fazem um trabalho mais dinâmico e interessante do que a PE/Bertrand. Apresentam mais descontos e vá lá que já têm os livros do Saramago em ebook (penso que há 1 ano não havia quase nada). Ainda assim, a oferta continua reduzida. Depois há a questão dos preços que estão sempre debaixo de fogo porque a Amazon tem tácticas muito agressivas de descontos e vendas de ebooks que deixam o leitor bastante mal habituado a preços de ebooks considerados "normais". Há gente que não pagaria mais do que 2 ou 3€ por um ebook (na verdade preferem ebooks à borla), essa é a realidade a que temos sido habituados pela Amazon. Aliás, a guerra Amazon/editoras, que ainda não assentou, gira muito em torno disso. Mas por 2 ou 3€ por ebook como é que uma editora pode esperar sobreviver? Afinal quem suporta os custos editoriais da produção de um ebook são eles... Quanto ao iPad, permite ler todos os formatos mas os compradores dos iPads não são pessoas que compraram o aparelho só para leitura, ao contrário dos compradores dos Kindle. Eu uso o meu kindle apenas para leitura e pela duração de bateria, mas uso o iPad para muitas outras funções de trabalho. Além disso, é um "brinquedo" caro demais para ser massificado apenas para efeitos de leitura. A verdade é que as regras deste mercado ainda não assentaram e ainda é um "work in progress" que, na minha opinião, não acabará por favorecer muito os editores.
ResponderEliminarPeço desculpa pelo comentário longo demais, não me apercebi a tempo.
ResponderEliminarMas nem pense nisso, pelo contrário... tem não só informação útil como a idéia que expressa me parece de todo o interesse!
EliminarConcordo, o comentário de Safaa é muito interessante. Talvez seja essa a razão porque os iPads são tão populares em Portugal, enquanto que no estrangeiro se opta mais pelos "e-readers" propriamente ditos (como o Kindle), que são mais baratos.
EliminarQuanto aos custos de produção de um "ebook"... são mínimos, por isso se justifica o preço de 2 ou 3 euros. O autor ganha menos do que isso com os livros em papel (normalmente, 10% do preço de capa).
Os custos de produção de um ebook são minímos? Ai é? Se estamos a falar do negócio do "do it yourself" em que se pega num PDF e vende-se como um ebook manhoso, como já tenho visto tantos por aí a fazer, até poderia concordar... Porque é que o custo de um ebook haveria de ser assim tão minímo se ainda estamos a pagar direitos de autor, design, paginação, revisão, marketing, publicidade, royalties? Tanto no livro físico como no ebook estes custos mantém-se para o editor. Mas no caso de ebooks acresce: custo de software anti-pirataria, preparação dos ficheiros digitais e conversão para vários formatos, mais toda a parafernália digital para fazer o upload dos ficheiros no servidor. Ainda há custos de distribuição digital envolvidos. E parece-me que as pessoas não têm noção dos custos de desenvolvimento de aplicações (as famosas apps) para produtos Apple que são exorbitantes! São essas aplicações que permitem ler os livros nos iPads e iPhones e envolvem custos tremendos (a própria Apple fica com uma comissão de vendas por cada produto vendido nessa aplicação). Mas caramba, se as pessoas não estão dispostas a pagar por um ebook nem uns 5 ou 6€ então mais vale desisitirem de ler em digital. Um mercado em que oferece o menor custo possível para o consumidor, sem qualquer margem de lucro para editoras ou autores, há-de ter um brilhante futuro pela frente. Claro que não faltam por aí negócios a florescer de livros auto-publicados e vendidos na amazon ou noutros livreiros que decidiram que a melhor solução possível é eliminar o editor da equação. Mas a morte do editor é tão exagerada e falsa quanto a morte do papel, por mais que os marketeers tentem dizer o contrário. Não vou dizer que a adaptação do editor às novas tecnologias está a ser fácil, mas a adaptação é possível, só ainda não foram encontradas as condições certas.
EliminarTambém não acredito em grandes leituras no iPad , mas ainda acredito menos nesses valores que apresentou (2 ou 3€) para um ebook . É que há um trabalho de base, o criativo, que deverá ter um valor intrínseco independente do formato final do livro, e que não pode (ou não deve, digo eu que não sou escritor) baixar assim tanto. Repare: se só recebem até 10% do preço de capa dum livro em papel, quanto receberiam então num ebook a 3 €? 30 cêntimos. Obviamente que o aumento do volume de vendas poderá alterar o raciocínio, mas estamos ainda longe disso.
EliminarO Safaa disse tudo, melhor do que eu.
Eliminar"A" Safaa, não "o". ;)
EliminarOk, a Safaa ! Já agora, poderia ser mais explícita quanto à "ilegalidade" da conversão de epub em formato kindle . Existe software que o faz, espero que bem. Logo, assumindo que comprei 1 ebook em formato epub , se eu o converter noutro formato para meu uso que direitos de autor estou a desprezar? Não estou a tentar polemizar, é pura ignorância. Assim à partida, a Amazon talvez não goste, mas a minha consciência aguentar-se-ia. Quando compro um livro tradicional, nada me impede que o leia na sala, no quarto ou na rua, que o dê ou empreste. Não poderei copiá-lo para difusão, bem sei, mas ao eletrónico não estou a copiá-lo, estou simplesmente a convertê-lo para um suporte que consigo ler. Território pantanoso...
EliminarÉ precisamente disso que se trata: terreno pantanoso. Uns dizem que quebrar o DRM é ilegal, outros dizem que quebrar DRM para que um ebook legalmente comprado possa ser lido no nosso próprio aparelho não é ilegal. De qualquer modo, a distribuição ou cópia desses ebooks sem DRM, é sem dúvida nenhuma, ilegal. Verdade seja dita, se o ebook já está comprado, não estamos a prejudicar a propriedade intelectual do autor, pelo que só torna ridículo o gasto das editoras nesse tipo de anti-pirataria que, ainda por cima, é muito fácil de infringir. Ao libertarem os ebooks de DRM,permitindo-os serem lidos em qualquer tipo de aparelho, poderão aumentar ainda mais a competitividade neste mercado e incentivar mais vendas. Acho que o DRM se está a revelar cada vez mais ineficaz em cumprir os seus objectivos e um estorvo desnecessário. Só é talvez vantajoso para os fabricantes dos aparelhos. De qualquer modo, a medida mais importante primeiro passa por criar um formato universal standard para os ebooks, coisa que ainda não há... Esse é um passo crucial que tem que ser resolvido para podermos clarificar melhor certas regras neste mercado tão frágil ainda em regulação.
EliminarBem, quem paga 3 ou 4, também paga 5 ou 6 euros...
EliminarRepare que me baseio em dados aqui disponíveis, pessoalmente, não tenho, ainda, nem iPad, nem e-reader.
As praias, a leitura o bem estar.
ResponderEliminarPara mim, essas geringonças, só quando forem obrigatórias...:)
ResponderEliminarHum... é interessante aprender aquilo que não sabemos!
ResponderEliminarEntão, em termos económicos, a versão e-book não fica tão barata assim de produzir? É isso?
Embora, mesmo assim fique mais barata que a versão em papel, que ainda apresenta como custos toda uma operação logística mais o espaço de venda, a reposição, retoma, etc.
Isto sou eu a discorrer...
Já agora um comentário o questão: Se o campeão de vendas da Leya , "O teu rosto..." , apenas vendeu 120 exemplares na versão coisa... digital ou lá o que seja, então isso pode querer dizer que ainda estamos a uma grande distância de ser uma forma corrente de leitura?
Esse número também me desiludiu.
EliminarDiria que pouco mais de 120 exemplares digitais vendidos de um livro premiado e que é considerado um best-seller é um número insignificante no quadro geral, mas um avanço em relação a números anteriores em Portugal. Do que me contam, os números neste país são mesmo muito reduzidos.
EliminarNão leio livros sem ser de papel, contudo, estou a gostar imenso de ler este post de hoje, apercebo-me de questões que nunca me tinham ocorrido. E aprendo.
ResponderEliminarIsabel
"Não leio livros sem ser de papel", não por convicção mas tão só porque nunca se proporcionou (mas gosto tanto de sentir a folha!), não quer dizer que não estarei disposta a fazê-lo um dia...Sei lá.
EliminarIsabel
Olá,
ResponderEliminarGosto muito de livros (fisicamente falando). Há coisa de um ano comprei um Kindle e estou muito contente com a experiência. Parece-me haver pouca oferta de e-books em português e o preço (muito elevado para competir com o objecto livro) são as maiores objecções à, na minha opinião, maior divulgação do e-book.
Mónica
Os 120 exs do prémio Leya foram vendidos quase todos fora de Pt por causa da publicidade internacional do prémio e por ser muito mais económico e pratico adquirir lá o ebook do que o pbook. Ou seja, mesmo em Pt o ebook do prémio Leya nao vendeu mais do que os 20 dedos de uma pessoa.
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