O sentido artístico

Para escrever um livro decente, sabemo-lo bem, não é preciso ser um artista. Há por aí muitos títulos no mercado – e não estou a falar só, ou principalmente, de estudos e ensaios – que, por muito «correctos» que se apresentem ao leitor, não podem considerar-se exactamente objectos artísticos, mas são obviamente legíveis; enquanto outros, nem que seja por ruptura ou descontinuidade, inauguram novos caminhos literários que se aparentam, de certa forma, com as vanguardas na música e na pintura. Pergunto-me, aliás, se os seus autores, ao contrário de todas as outras pessoas que escrevem e publicam, não terão uma espécie de sentido artístico inato que acabou por se desenvolver na escrita, mas que, se as circunstâncias e a formação tivessem sido outras, bem poderia ter «degenerado» em outras formas artísticas igualmente interessantes. Digo isto ao descobrir que vários autores que publiquei (e outros que gostaria de ter publicado), muito embora se tenham tornado conhecidos através dos seus livros, se dedicam (ou dedicaram) – ainda que por vezes «domesticamente» – às artes plásticas, ao vídeo e ao cinema, ao canto, a um instrumento musical, à representação teatral. E fico a pensar que, se calhar, a arte já estava toda dentro deles antes de escreverem a primeira linha e que, não saindo por esse poro, sairia por outro qualquer, destacando-os, de qualquer modo, entre os seus pares. Afonso Cruz, por exemplo, de que acabam de sair duas obras – Jesus Cristo Bebia Cerveja e Enciclopédia de História Universal: Recolha de Alexandria –, é um desses casos: fez filmes de animação, é músico e ilustrador. Mas há mais, na vida de Afonso Cruz e na de outros escritores-artistas.

Comentários

  1. Não sei por quê, imagino a Maria do Rosário como violinista.
    Também não sei se esta presunção, certamente originada no meu imaginário, não terá sido colhida nas leituras da sua poesia.

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  2. Vou exemplificar, uma vez que procurei um poema da Autora e estou a ouvir Tchaikovsky, parte um do "Allegro moderato".
    Ei-lo:

    "Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
    devagar sobre o peito da terra e sente respirar
    no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
    crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
    e as campainhas azuis; a menta perfumada para
    as infusões do verão e a teia de raízes de um
    pequeno loureiro que se organiza como uma rede
    de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
    foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
    Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
    tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
    da tempestade que faz ruir os muros: explode no
    teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
    pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
    hão-de pedir-to quando chegar a primavera."

    Tal como a música, o poema entra no ouvido após uma segunda ou terceira leitura.
    Para começar bem o dia, não há como a leitura de boa poesia ea audição de boa música.
    A Maria do Rosário, se não sabe, devia aprender a tocar violino!

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    1. Desculpem o lapso, que agora corrijo: o poema intitula-se "Não tenhas medo do amor" e é extraído de 'Nenhum nome depois'.
      Tenham um bom dia.

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    2. Obrigada! Mas o violino é muito difícil, tem de se começar mesmo cedo... Já não vou a tempo.

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    3. Obrigada caro Jocamartinho por reavivar a minha memória, já conhecia este poema que é de facto muito bonito (e não esqueçamos que em Setembro há a reedição da obra completa!)
      Isabel

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  3. Parece-me que a vontade de criar, de exteriorizar o que não se consegue «dizer» de outro modo, a procura de uma certa estética ou de uma certa imortalidade talvez, pode impulsionar para qualquer forma de arte. E a sensibilidade artística pode ser aproveitada, ou não, em diferentes vertentes.

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  4. O Afonso Cruz é como acho que os escritores deviam ser: com uma ampla visão do mundo, polivalente e muito humilde. O Afonso tem muito valor.

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  5. Não vem ao caso, mas eu adorava ser realizadora de cinema. Mais do que tudo. Mas é como a Maria do Rosário diz: as circunstâncias, a formação...

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  6. António Luiz Pacheco4 de julho de 2012 às 07:35

    Há artistas polivalentes, ou multifacetados, sem dúvida. Serão os verdadeiros génios?
    Ocorre-me logo o nome da Vinci !
    Conheço casos de quem seja investigador e professor universitário, excelente pescador submarino, escritor com obra publicada tanto no ramo científico como no "não", ilustrador científico, pintor com exposições feitas, e ainda músico... tocando piano e viola!
    E como ele, há outros que todos conhecemos!
    Serão geniais? Mais do que "artistas"?

    Há os que só fazem uma coisa... Saramago era só escritor (julgo eu...), Eunice Muñoz é só actriz e Paula Rego só pinta... todos com grande êxito!

    O que prova que nem os que se dedicam em exclusivo são mais reconhecidos nem os que se dispersam se perdem...

    Pessoalmente gosto muitas vezes de ver esse entrecruzar das artes... imaginem:
    - Ouvir João Villaret dizer um poema de Gedeão, musicado por... com um fundo de imagens de... (à escolha).

    Vão-me perdoar os que o não compreendam, mas dos espectaculos mais bonitos a que já assisti, foi na inauguração da praça de toiros do Campo Pequeno, o Pedrito de Portugal em traje Goyesco , a capear um toiro, ao som de um flamenco enquanto uma bailarina dançava, tudo tão bem enquadrado, passes do capote, música e dança... que até tirava a respiração!

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  7. O sentido artístico são nuvens passageiras.

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  8. Sentido artístico ou uma visão da realidade com dioptrias bem diferentes do comum dos mortais...

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  9. Luís Caminha: "Enfim, um poeta é como se bebesse tudo. Se eu fosse poeta beberia o mundo por garrafas inteiras de universos paralelos. A luz apresentaria então um leve tremor – mas isso seria apenas lembrança. Assim como quando um toque na mesa é reminiscência de onda no mar, sobretudo se a mesa for de madeira."
    (http://ocasosluiscaminha.blogspot.pt/2007/08/o-que-me-faz-correr.html)

    Numa tertíúlia em que o autor participou e a que eu assisti, percebi que para ele poesia e arte são a mesma coisa: "pensamento em acção."

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  10. "OS LIVROS QUE DEVORARAM O MEU PAI" é uma maravilha; já não gostei tanto de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças" e menos ainda da "Enci­clo­pé­dia da Estó­ria Uni­ver­sal" talvez porque o primeiro que li colocou a fasquia (da expectativa) demasiado alta.

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