A companhia dos livros

Há uns anos, resolvi que a minha assinatura dos e-mails poderia ser enriquecida com uma frase que, de algum modo, tivesse que ver comigo e com as minhas funções. Escolhi nessa altura uma de que não me arrependi e ainda lá está, debaixo do meu nome, em português e inglês, de cada vez que envio um e-mail. Diz «Lemos para sabermos que não estamos sozinhos» e o seu autor é o britânico C. S. Lewis. A leitura é de facto uma excelente companhia e a mim já me salvou de umas quantas depressões. Uma vez, Mario Vargas Llosa contou ao vivo que, em adolescente, ler sobre o sofrimento alheio o fez sentir-se menos só e triste no colégio interno onde o padrasto o metera. Ler é isso, como diz a frase que escolhi, descobrirmos que não estamos sós nos nossos infortúnios. Encontrei no mural do Facebook de uma amiga um cartaz bonito que dizia «Não estou sozinho, tenho muitos livros», o que é só mais uma maneira de dizer que a leitura faz mesmo companhia; no entanto, há momentos em que ler não pode ser uma obrigação, e a grande Virginia Woolf, numas resoluções para o Ano Novo em 1931, escreveu, entre outras coisas: «Ser livre e gentil comigo mesma [...] Às vezes ler, às vezes não ler. Sair, sim, mas ficar em casa apesar de convidada. Quanto a roupas, comprar boas.» Pois, às vezes não ler também é muito bom, sobretudo para quem lê por profissão o dia todo.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de janeiro de 2024 às 03:35

    Porque lemos?
    Na verdade nem nunca pensei nisso como é difícil responder, pois ler não é um acto único ou isolado e sim parte de um todo, pois a diversidade das leituras disponíveis é imensa e faz da leitura algo de tão alargado que nem consigo exprimir. Portanto, não partilho desse sentimento que resume a leitura a não estarmos sós!
    Ler é sentir LARGUEZA, é sair para outra dimensão, é preenchimento, é viver fora da nossa vida, é receber e construir sentimentos... sei lá eu.
    Leio muito por razões profissionais. Se gosto de o fazer? Sim, gosto, gosto da procura, gosto de seleccionar, gosto de receber a informação e com ela poder construir aquilo de que preciso. Falo de leitura técnica.
    Porém não sou leitor profissional! Muito menos de romances. Penso mesmo que detestaria ser obrigado a ler aquilo que não me apetece, e, manifesto a minha admiração por quem o consegue fazer.
    Saúdo pois a Nossa Extraordinária Anfitriã! Fazem falta pessoas e profissionais assim, por nosso bem, o dos leitores e diletantes.

    Saudações e votos de um Extraordinário Fim de Semana que se adivinha propício à leitura, cá desde a Cidade Morena.

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  2. Nos quatro bancos do metro, eis os meus companheiros de viagem.
    Uma menina, com, não mais de 3 anos, cabelos negros e franjinha meticulosamente acertada, cantava incessantemente " anda cavalo, tchutu".
    O irmão, uns anitos mais velho, lia, por indicação expressa do seu pai, o "Diário de um banana".
    Ao meu lado, um rapaz de menos de 20 anos, que ontem também vira ler, lia um livro que não identifiquei logo.
    Nós, os três que liamos, estávamos assim a dar um pontapé nas estatísticas que dizem que os portugueses não lêem ou estávamos no grupo dos que lêem?
    Não interessa, continuemos pois na mesma aventura que nos uniu até aqui, a leitura.
    Lancei dois ou três mirones ao livro do rapaz de cerca de 20 anos, mas, de cada vez que o fazia, os óculos embaciavam - se por mero efeito da máscara que uso nos transportes públicos.
    Não vi o título do livro nem o autor.
    O "anda cavalo tchutu" continuou e tanto andou que dei por mim rapidamente na estação de saída.
    O " anda cavalo tchutu" ficou, o rapazinho e o rapaz também e eu lá fui para a minha vidinha cinzentona e sem brilho no emprego que dura há mais de vinte e cinco anos....

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  3. A mais antiga recordação que tenho de livros, não teria eu mais de 4 ou 5 anos, vivia no Alentejo mais profundo (nem sei se, na altura, haveria algum livro lá em casa) quando, numa noite de Inverno, o meu pai, que não tinha hábitos de leitura (tinha outros caracteristicos do Alentejo daquela altura), aparece com uma caixa com 40 livros que tinha comprado a um caixeiro viajante de uma editora do Porto (creio que a Civilização), e lembro-me que o n.1 daquela colecção de 40 livros, era "A VIDA DE UM RAPAZ POBRE" e lembro-me também de um outro autor (a?) CONCHA LINARES BEZERRA, o n.2 creio que era do Dostoievsk, creio que "MEMÓRIAS DO SUBTERRÂNEO", dessa colecção não me resta um sequer, foram-se perdendo nas nossas contínuas mudanças de terra (o meu pai chegou a ter, com outro sócio, um cinema ambulante, isto creio que ainda nos anos 50 e andava por diversas aldeias do Baixo Alentejo, naquela altura nem luz eléctrica havia naquelas aldeias por onde passavam). Não tenho memórias dessas aventuras, é a minha mãe que me as conta.
    Bem mas vamos lá ao que me trouxe o vício dos livros -foi o grande VITOR HUGO com o, naquela altura, assombroso livro "OS MISERÁVEIS" e logo a seguir o fabuloso "O HOMEM QUE RI".

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  4. Uma grande companhia sempre pronto para o ser.

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  5. Involuntariamente, acho que sigo Virginia Woolf quanto a leituras. Tem dias em que não leio. Nesses dias vejo filmes ou um episódio de uma série que me faça o gosto - busco uma que me motive a ver um episódio por dia, o que nem sempre acontece. Ver por episódios tem a chance de sabermos que, no dia seguinte, estará à nossa espera pelo menos um tempo nosso e prazeroso. Aos livros também os leio assim, em episódios; e só se me apetecem. O aborrecido é quando apetece e não podemos ler ou escrever (há demasiados dias comuns nesta vida). A leitura deu-me o que nela procuro, outras vidas. Se me enriquece a mente é puro acaso, entrego-me a ela e faça de mim o que quiser. Enquanto leio não estou cá nem sou eu, sou eles, esses dos livros.

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  6. Vida cinzenta, Vítor? Pois se até um simples trecho de metro mostrou como é colorida!

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  7. Gostei muito deste seu comentário com sabor a crónica, Vítor. Fiquei com vontade de ler mais.
    Espero que lhe surja uma boa oportunidade para um trabalho mais colorido.
    Bom fim de semana a todos os Extraordinários, com ou sem leituras.

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  8. Entretanto acabei de ler o seu “calhamaço”, com belas descrições da região onde a história acontece, boas descrições de caçadas e pescaria, e um enredo imaginado de tal modo, que enquanto não se chega ao fim não se descansa! Não está a ser contraditório?

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  9. Para mim, os livros de que gosto, são muito boa companhia, sem dúvida. E saber que estão disponíveis para reler, quando quiser, é muito bom. Uma casa sem livros é uma desolação.

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  10. feliz , alem de concisa, a frase que cita.
    Já nao aprecio a frase da amiga.
    Mas o post sendo naturalmente apologista, fala em mais mundo para alem de.

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  11. António Luiz Pacheco21 de janeiro de 2024 às 01:41

    Li algures a afirmação de que todo o homem é uma guerra civil - aliás título de um livro de Jean Lartéguy. O contraditório fará parte de nós, portanto... será? Sem contraditório como evoluir e prosseguir?
    Enfim, somos seres pensantes.
    Gosto de saber que gostou do meu cartapácio, como já se disse é esse o objectivo.
    Saudações cá da Cidade Morena, inspiradora.

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  12. Gostei e concordei com todos os vossos diálogo... mas depois também pensei que certamente para um fumador, também aquele objecto branco é uma forma de companhia... para quem gosta de fotografia, fazer-se acompanhar por uma máquina fotográfica, é um motivo para o dia, uma ajuda para uma decisão, o braço dado, a tal companhia. Em comparação, um livro será mais que um companheiro, é sim todo um mundo paralelo aos nossos próprios dias, um complemento, uma lupa dos nossos próprios sonhos e viagens, uma aprendizagem sem enfado... será, no fundo, um perpetuar, uma mão dada áquilo que podemos e anseamos ser... é um duplo ou gémeo, uma sombra que por vezes caminha à frente. Para aqueles que não têm ou não descobriram qualquer prazer na leitura, das duas uma: ou perdem, do mesmo modo que um comum mortal pode perder por de alguma forma não conseguir levantar os pés do solo ou alcançar como um qualquer Buda, ou então, não necessitam do livro porque buscam e encontram os tais sonhos e experiências, através de outra coisa, pelos seus próprios pés. Os últimos serão muito poucos e ainda assim, talvez se façam acompanhar por alguma forma de leitura, nem que seja um mapa geográfico ou galáctico que por si só é o mundo. Pelo meio, existe e consome-nos, a ilusão de prazer, a ilusão da verdade, daquilo que deveria ser o mote: os cowboys televisivos, as imagens e as redes rápidas, de ler e olhar sem ver. Miguel Sousa Tavares lembra que a sua mãe lhe dizia "viajar é ver"... de certa forma, ler é ver, idêntico a uma viagem de 2cv, sem tecto, metro a metro, de forma a vermos e sentirmos num ângulo e lassiidão muito completos.

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  13. Acrescento :
    😀
    cada autor um candidato a amizade, uns ajudam-nos a questionar a vida, os que se repetem, geralmente nunca desiludem

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