Excerto da Quinzena
Disseram-nos que tínhamos a sua permissão para nos tornarmos marido e mulher, e foi só isso. Só isso.
Decidi então que pelo menos iria ter um vestido que não fosse feito da serapilheira que usava para trabalhar. E assim comecei a roubar pedaços de tecido e acabei com um vestido impossível de imaginar. A blusa era feita de duas fronhas que se encontravam na cesta de costura de Mrs. Garner. A frente da saia era um bocado de tecido usado para tapar uma cómoda, no qual uma vela caída fizera um buraco, e uma das antigas faixas que Mrs. Garner usava à cintura e na qual costumávamos ver se o ferro de engomar já aquecera. Ora as costas foram um problema durante muito mais tempo. Parecia-me que não conseguia encontrar nada cuja falta não fosse notada de imediato. Porque depois eu teria de desmanchá-lo e colocar os pedaços onde os encontrara. O Halle era paciente e esperou que eu acabasse de costurar o vestido. Sabia que não haveria casamento sem que eu o tivesse. Acabei por tirar uma rede mosquiteira que estava presa a um prego no celeiro. Usávamo-la para coar as geleias e conservas. Lavei-a e branqueei-a o melhor que consegui, e depois cosi-a para formar a parte de trás da saia. E ali estava eu, no vestido mais horrível que se possa imaginar. Apenas o meu xaile de lã evitava que me parecesse com uma assombração. Mas ainda nem tinha catorze anos, e acho que era por isso que estava tão orgulhosa.
Toni Morrison, Beloved, trad. de Maria João Freire de Andrade
“ - Ah, gostei sim.
ResponderEliminar- Está num livro que fiz.
- Como se chama o livro? Jem perguntou.
O Sr. Blake fez uma pausa.
- Chama-se Canções da Inocência.
- Ah! - exclamou Maggie. E começou a rir; o Sr. Blake e, por último, por Jem. Riram até as paredes de pedra tinirem e os primeiros fogos de artifício do final do espetáculo circense subirem e explodirem, brilhando como fogo no céu da noite.”
Viva Chama, por Tracy Chevalier
Ed. Bertrand Brasil
[...] porque é que a não-ficção era definida em tom condescendente e nomeada meramente em função do seu oposto? Definiríamos os frutos como não-vegetais?
ResponderEliminarOu (no caso de sermos lentos a perceber a dedução) definiríamos os vegetais como não-frutos?
Julian Barnes - Amor & Etc.
Tradução de Helena Cardoso
"Não me venham dizer que as estrelas são mundos:
ResponderEliminarelas são dos meus versos e dos meus sonhos...
Não posso acreditar que é do sol êste luar:
êle é para a minha saudade e para a minha esperança...
Não quero saber a origem deste vento manso:
sabe a carícia da vida na minha face...
Que me importa saber o que sou, donde venho, aonde vou?
Neste silêncio anda a voz das sereiras que me chamam do mar... "
Alberto de Serpa, Poesia, Inquérito, Lisboa 1944