Excerto da Quinzena

Disseram-nos que tínhamos a sua permissão para nos tornarmos marido e mulher, e foi só isso. Só isso.


Decidi então que pelo menos iria ter um vestido que não fosse feito da serapilheira que usava para trabalhar. E assim comecei a roubar pedaços de tecido e acabei com um vestido impossível de imaginar. A blusa era feita de duas fronhas que se encontravam na cesta de costura de Mrs. Garner. A frente da saia era um bocado de tecido usado para tapar uma cómoda, no qual uma vela caída fizera um buraco, e uma das antigas faixas que Mrs. Garner usava à cintura e na qual costumávamos ver se o ferro de engomar já aquecera. Ora as costas foram um problema durante muito mais tempo. Parecia-me que não conseguia encontrar nada cuja falta não fosse notada de imediato. Porque depois eu teria de desmanchá-lo e colocar os pedaços onde os encontrara. O Halle era paciente e esperou que eu acabasse de costurar o vestido. Sabia que não haveria casamento sem que eu o tivesse. Acabei por tirar uma rede mosquiteira que estava presa a um prego no celeiro. Usávamo-la para coar as geleias e conservas. Lavei-a e branqueei-a o melhor que consegui, e depois cosi-a para formar a parte de trás da saia. E ali estava eu, no vestido mais horrível que se possa imaginar. Apenas o meu xaile de lã evitava que me parecesse com uma assombração. Mas ainda nem tinha catorze anos, e acho que era por isso que estava tão orgulhosa.


 


Toni Morrison, Beloved, trad. de Maria João Freire de Andrade

Comentários

  1. Cláudia da Silva Tomazi12 de janeiro de 2024 às 04:40

    “ - Ah, gostei sim.
    - Está num livro que fiz.
    - Como se chama o livro? Jem perguntou.
    O Sr. Blake fez uma pausa.
    - Chama-se Canções da Inocência.
    - Ah! - exclamou Maggie. E começou a rir; o Sr. Blake e, por último, por Jem. Riram até as paredes de pedra tinirem e os primeiros fogos de artifício do final do espetáculo circense subirem e explodirem, brilhando como fogo no céu da noite.”



    Viva Chama, por Tracy Chevalier
    Ed. Bertrand Brasil

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  2. [...] porque é que a não-ficção era definida em tom condescendente e nomeada meramente em função do seu oposto? Definiríamos os frutos como não-vegetais?
    Ou (no caso de sermos lentos a perceber a dedução) definiríamos os vegetais como não-frutos?
    Julian Barnes - Amor & Etc.
    Tradução de Helena Cardoso

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  3. "Não me venham dizer que as estrelas são mundos:
    elas são dos meus versos e dos meus sonhos...
    Não posso acreditar que é do sol êste luar:
    êle é para a minha saudade e para a minha esperança...
    Não quero saber a origem deste vento manso:
    sabe a carícia da vida na minha face...

    Que me importa saber o que sou, donde venho, aonde vou?
    Neste silêncio anda a voz das sereiras que me chamam do mar... "

    Alberto de Serpa, Poesia, Inquérito, Lisboa 1944

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