A prevalência da imagem
Diz-se que uma imagem vale mais do que mil palavras. Talvez, mas para mim há por vezes um pequenino conjunto de palavras que vale mais do que mil imagens. A verdade é que somos diariamente matraqueados com imagens (em anúncios, em blogues, em videoclips, em fotos e vídeos nas redes sociais e até nas partilhas telefónicas) e de tal maneira nos viciámos nelas que, ao que parece, já poucos de nós conseguem ter paciência ou concentração para ler até ao fim um post ou um e-mail mais longo (lemo-lo, regra geral, na diagonal), mas somos facilmente atraídos pelos ecrãs onde passam imagens. Isto explica o recente sucesso mundial daquilo a que se costuma chamar «novela gráfica» (um romance contado em versão «texto + imagem» a partir de uma ideia original ou baseado num romance existente em versão apenas de texto); e também explica o crescente interesse dos autores de ficção em terem uma versão «ilustrada» dos seus romances, além do e-book e do audiolivro, até porque a adaptação cinematográfica é muito difícil de obter. O género tem, assim, ganho leitores todos os dias e essa circunstância leva ao aparecimento de excelentes artistas nesta área da edição (e cá em Portugal podemos citar, entre outros, o par Filipe Melo-Juan Cavia e a novela gráfica Balada para Sophie, por exemplo). Na lista dos finalistas do Booker Prize também já houve uma novela gráfica (Sabrina), e qualquer dia ainda temos um Nobel da Literatura capaz de escrever e desenhar ao mesmo tempo. Livros com imagens são também prevalecentes nos TOP de vendas e, em França, por exemplo, no ano passado, os dois títulos mais vendidos eram livros de BD com os heróis Astérix e Gaston Lagaffe, escritos ainda por cima por novos escritores que substituem os criadores das personagens, esses mortos e enterrados. Um dia destes ainda me pedem que ponha um boneco para atrair leitores aqui para o blogue...
Vá lá Rosário, pelo menos
ResponderEliminarum emojizinho para animar a malta . Quanto às imagens, vivemos na era do vazio. O excesso delas, o tempo efémero e acelerado com que somos continuamente bombardeados, aliciados, forçados "a ver", não passam, afinal, de
puro ruído visual. E, para o Alentejo (Cidade morena até ao Algarve), cá deixo duas imagens com samba em fundo, "Chove chuva, chove sem parar" ou aquela outra "Tomara que chova 100 dias sem parar ", bem precisamos. Bom dia e excelente semana.
Vejamos, a "novela gráfica" já existe e há muito tempo... não sei precisar quando surgiu, mas arrisco dizer que remontará pelo menos ao século XVIII.
ResponderEliminarMais novo do que isso, eu lembro-me bem das empregadas domésticas lerem e trocarem umas revistas com fotografias de novelas, isto muito antes das telenovelas. Havia na altura as rádionovelas, aliás já muito populares, eu mesmo grande fã do "Teatro Trágico" dos saudosos Parodiantes de Lisboa, para não falar da "Miscelânea Radiofónica" também editada em livrinhos, da autoria do grande humorista esquecido, que foi José de Oliveira Cosme (o criador do Menino Tonecas, entre outros).
Ainda antes disto, houve novelas gráficas, ilustradas com desenhos, portanto, bem mais antigas do que com as fotografias, lembro as famosas faixas nos jornais, ou por curiosidade a imagem que compunha uma rubrica, julgo do Diário Popular, "o fotógrafo não estava lá". Normalmente eram reproduzidos gráficamente romances clássicos, Moby Dick ou o Conde de Monte Cristo, ou de aventuras como o Príncipe Valente, Tarzan, Sandokan, etc.
Claro, hoje temos uma Nova Arte que é a Banda Desenhada, através de quem se reproduziu muita obra clássica ou divulgou novos autores e heróis por si criadas. Julgo que deve ser considerada uma Arte, que resulta da união de texto com imagem, e, dessa capacidade de o fazer com perfeição e qualidade, já não é de mero "comics" mas uma nova Arte, sem qualquer dúvida para mim.
Portanto não é admiração nenhuma, aliás NIHIL NOVI SUB SOLE, os nossos longínquos antepassados caçadores primitivos que não sabiam escrever, deixaram-nos muitas imagens desenhadas em pedras.
Lamentável é, isso sim, que se perca a capacidade de ler textos mais longos e faço notar que se memoriza melhor o que se lê em texto do que aquilo que se ouve, como será difícil reproduzir em imagens a maior parte do pensamento humano e do saber. Talvez faça parte do declínio civilizacional em que parecemos arrastar-nos actualmente, substituída a Inquisição religiosa pelo políticamente correcto, regressando a uma barbárie que se presume esclarecida, porém não percebe para onde caminha. Resta aguardar a retoma da civilização como sempre tem acontecido, alternando ao longo da história da humanidade.
Recordo que, sempre que se abandou a escrita/leitura, entrou-se no obscurantismo.
Um dia destes li por aí uma afirmação curiosa que vos deixo:
"A principal lição da história, é que não aprendemos nada com a história".
Saudações cá da Cidade Morena.
Excelente!
ResponderEliminarSempre tive em grande consideração a frase " uma imagem vale mais do que mil palavras" mas, quando as imagens são mil e muitas mil, logo reconheço que "uma palavra vale mais do que mil imagens".
ResponderEliminarEm certas circunstâncias uma imagem vale mais que mil palavras, por exemplo para memorizar algumas coisas. Mas para um pensamento profundo é o contrário: a palavra vale mais que mil imagens. Dou um exemplo numa actividade que me é cara: a Matemática. Na Matemática lida-se com conceitos que não é possível representar com um desenho. Não é possível apresentar uma imagem mas com a palavra chega-se lá.
ResponderEliminarEspero ainda que chova. Mas ainda não foi hoje. Ontem choveu alguma coisa. E amanhã se verá. E que chova com fartura também no Algarve.
ResponderEliminar