A América auto-suficiente
Li no resumo de notícias que todos os dias é enviado para o meu e-mail que, em 2023, houve uma greve histórica na indústria do cinema nos Estados Unidos e que, por causa dela, muitos dos mais aguardados filmes só chegarão às salas de cinema neste ano de 2024. Lembrei-me então de uma outra greve ligada ao cinema norte-americano, esta de argumentistas, ainda nos anos 1990, que durou meses e preocupou muito os grandes estúdios. Nós aqui acompanhávamos o que se passava no mundo em geral (e, portanto, essa notícia vinha à baila frequentemente nos noticiários) mas, claro, o mesmo não acontecia com a maioria dos norte-americanos, cujos conhecimentos se cingiam frequentemente ao que acontecia no seu bairro, na sua cidade ou, quando muito, no seu Estado. Ora, veio nessa altura a Portugal lançar um livro o historiador Daniel Boorstin, professor universitário e então director da Biblioteca do Congresso. Numa noite em que o levámos aos fados, coube-me fazer conversa com Ruth, a sua simpática mulher, e perguntei-lhe se tinham filhos e se algum era historiador como o pai. Ela respondeu-me que tinham dois rapazes, e o académico interveio para dizer que um deles era argumentista em Hollywood, perguntando eu de imediato se aderira à greve. Daniel Boorstin ficou completamente aparvalhado: mas como é que neste cantinho da Europa se sabia de uma greve de argumentistas em Hollywood? Pois é, os países auto-suficientes raramente se interessam pelo que se passa no resto do mundo... Muito interessante, deste autor, é o livro Os Criadores, sobre as mentes geniais e fundadoras em todas as áreas artísticas, incluindo, claro, a literatura. Se ainda o encontrarem, leiam-no, vale mesmo a pena.
Concordo inteiramente, o livro de D. Boorstin, "os Criadores é uma referência e daqueles livros que devem ser lidos. Reforço o seu conselho, e acrescento "Os descobridores" que também fala de nós portugueses! Faz parte dos livros a ler.
ResponderEliminarOutro livro incontornável deste académico e investigador notável é toda a série de "Os americanos..." e ainda, talvez um dos mais celebrados, "The Image: A Guide to Pseudo-events in America", que infelizmente só encontrei em "americano", mas é muitíssimo interessante!
"A lady's life in the Rocky Mountains", também é interessantíssimo, apesar de só o ter lido igualmente em "americano".
Boornstin é deveras uma referência e ainda bem que se lembrou dele.
Nota final: os americanos são dos povos mais desinformados em relação ao resto do Mundo e a outros povos, que jamais conheci! Privei com eles, com gente que deveria ser mais informada, quando estive uma temporada na Universidade de Cornell. Inacreditável o grau de desconhecimento que mostravam os quadros de grandes empresas agroalimentares e distribuição, que comigo frequentaram o Food Executive Program. Recordo um colega, antigo oficial da US Air Force, que estando destacado por dois anos na base aérea das Lajes (Ilha Terceira) me contava que apanhava um avião e vinha à capital portuguesa (Madrid!), passar fins de semana!
Para quem esteve dois anos nos Açores... revela no mínimo, desatenção!
Saudações informadas cá da Cidade Morena.
Nota II:
ResponderEliminarMais desinformados que os americanos, só mesmo os böers, mas é feitio e não defeito!
Depois da peça “terem pisado na lua” os americanos descobriram que podem ou não, investirem nas informações que quiserem. Particularmente tudo é “volátil” em Hollywood e por ali não se sabe onde começa a literatura e termina a cena. Mas, que Kirk Douglas doou $65 milhões de dólares aos orfanatos… Sim, senhor auto-suficiente.
ResponderEliminarSe esteve a residir nos EUA saberá melhor do que eu e de forma mais concreta, mas é geralmente conhecida a ignorância quase total sobretudo em termos de geografia. Ainda há poucas décadas parece que uma esmagadora maioria dos congressistas americanos nem passaporte tinham. Dada a sua dimensão, riqueza e impacto global, os EUA consideram-se o mundo, ponto final. Só não é anedótico para eles o facto de organizarem uma competição de uma coisa à qual eles e só eles chamam futebol, na qual só eles participam e à qual chamam qualquer coisa como campeonato do mundo. Já quanto aos filmes e o facto de os marcianos atacarem invariavelmente a sua capital, enfim, são eles que os fazem, é no mercado americano que eles têm de ser vendidos, aí pronto, faz algum sentido. Haverá muitas razões, algumas já as disse, mas uma das fundamentais terá a ver com a escolaridade, que é básica para o grosso da população, e de elite para a elite.
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