A loucura por herança
Este é um tempo de falarmos de saúde mental (tanto jovem a tomar antidepressivos não pode ser normal...) e o romance As Herdeiras, da escritora basca Aixa de la Cruz, fala-nos justamente disso. Passaram seis meses desde que Dona Carmen cortou os pulsos na banheira, e ainda ninguém percebeu porquê, tendo ao seu alcance comprimidos suficientes para acabar com a vida de modo mais suave. Isto descobrem, intrigadas, as suas quatro netas – Lis, Erica, Olivia e Nora – quando se instalam na casa da aldeia onde a avó vivia e que lhes foi deixada em testamento. Lis, que tem um filho pequeno, está ainda a recuperar de um trauma que sofreu ali dentro e só lhe interessa vender tudo e seguir em frente, enquanto a sua sonhadora irmã Erica planeia organizar no local retiros espirituais e passeios na natureza. Por sua vez, Olivia – a prima mais velha, que se formou em medicina por ter visto o pai morrer com um enfarte – não desiste de procurar em tudo o que é gaveta uma pista que explique o que realmente levou a avó a suicidar-se; e Nora, a sua desastrosa irmã, tem a ideia maluca de deixar o seu dealer usar o espaço como depósito de «mercadoria»; de resto, é ela quem a dada altura diz sem complacência: «Parece que um suicídio na família confirma a suspeita de sempre, de que a loucura corre nos genes, de que estamos biblicamente perdidas.» Considerada internacionalmente uma digna sucessora de Henry James, Aixa de la Cruz constrói neste romance intenso e dramático – considerado um dos melhores livros de 2022 pelo jornal El País – a ideia da família como lugar de dissensão e calamidade, explorando a ténue fronteira que existe entre loucura e sanidade. Não deixem de ler, inesperado e muito actual.

A loucura por herança... aí está um gene muito difundido, eheheh! E, um título muito sugestivo, que se encaixaria muito bem nalgum romance do nosso Extraordinário Paulo Moreiras ou quem sabe num de Tom Sharpe.
ResponderEliminarDá pano para mangas!
Confesso que apesar de tudo não deverá ser livro que eu leia, mas talvez compre para oferecer lá em casa, ahahah! Cai que nem uma luva a algumas das minhas parentas próximas. Se calhar fica apontado para o Natal.
No entanto o que me deixou curioso foi a afirmação de que a autora é considerada uma sucessora de Henry Miller? A que propósito, consegue esclarecer-me?
É um escritor complexo, mas não me parece que tenha tido algo de loucura, pelo contrário e é bem denso.
Saudações cá da Cidade Morena, onde um fumo de loucura ajuda a viver.
Caro ALP.
ResponderEliminarHá uma substancial diferença entre Henry James e Henry Miller. Desculpe apontar este lapso.
Que disparate... claro que há! Escrevi Miller por lapso... obrigado pela chamada de atenção!
ResponderEliminarO Miller, ao contrário do James tinha a tal loucura e não faz sentido.
Portanto a questão deve ler-se como: - porque dizem ser esta autora a sucessora de Henry James?
Caríssimo, as semehanças são estilísticas, não temáticas. É o estilo dos autores, a sua maneira de contar as histórias, de escrever, que têm afinidades. E quem tem essa loucura são as personagens, não quem as inventou.
ResponderEliminarCompreendido... o estilo, ok! A sua maneira de contar histórias, o que se entende, quem leia determinado ou certos autores pode apanhar algo da forma.
ResponderEliminarQuanto à loucura, patente em muitos autores sem dúvida, foi uma tentativa de provocação... a ver se animava as conversas que volta não vai, andam um bocadinho chochas.
Grato pelo seu esclarecimento!
Caríssima, este livro vai ficar disponível no kobo plus?
ResponderEliminarAgradecida,
Inês