Crise na ficção portuguesa

Ao longo do tempo, tenho sentido que os originais que me chegam anonimamente são cada dia mais fracos e mais pobres em termos de linguagem e imaginação. No final do ano, descobri dois que me agradaram muito, mas são excepções, e a regra tem sido a pura desilusão. É verdade que, quanto mais lemos, mais exigentes nos vamos tornando; mas não sou eu apenas que me queixo disto, porque há pouco tempo Miguel Real escreveu um artigo no JL perguntando-se se a ficção portuguesa não se encontrá realmente em crise e confirmando o que aqui escrevi há tempos (que os vencedores de alguns dos prémios literários mais importantes para a língua portuguesa, como o Saramago, o LeYa ou o Oceanos, têm sido ganhos por autores do Brasil e dos PALOP). Diz ele, entre outras coisas, que a língua portuguesa na Europa está longe de ter a vivacidade que tem noutros países, que os assuntos tratados nos romances portugueses são cada vez mais fúteis, que as nossas narrativas se tornaram insignificantes em termos estéticos e que a receita do modelo saído do 25 de Abril se esgotou. Aposta, mesmo assim, em autores como Ana Margarida de Carvalho, Patrícia Portela, Joana Bértholo e outros, mas afirma que, no geral, os autores actuais «repetem o repetido». Houve muitos que se apressaram a dizer que o próprio Miguel Real é romancista, quiçá acusando o toque; na verdade, quem conhece o autor do artigo sabe que ele nunca se considerou mais do que um «escritor médio» (as palavras são suas) e, por isso, talvez se esteja a incluir sem problemas entre os autores desta ficção em crise. Mas, embora dê razão a Miguel Real pela minha experiência, gostaria de acreditar que a crise é passageira. Só o futuro, porém, o poderá dizer.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco8 de janeiro de 2024 às 00:54

    ALELUIA!
    Não sou escritor nem tenho pretensões, não pertenço ao Mundo da Edição nem nada que se pareça, sou um mero leitor.
    Posso ser considerado um chato e até desagradável, porém, deverá haver quem se recorde de que há vários ANOS eu aqui digo isso mesmo!
    Finalmente parece que se acordou para o problema da pobreza da literatura nacional, dos que escrevem sempre o mesmo ou sobre o mesmo, quem aliás que são sempre os mesmos ou quase pois parece que não se pode publicar mais ninguém que uma muito pequena elite dos que se acha que serão lidos - mas pelos vistos não estão a ser e não apenas por mim. Da futilidade dos temas, no entanto altamente intelectualizados, do vazio dos personagens que se esgotam em ser anti-heróis e pessoas pseudo-comuns porém irreais, completamente destituídas de interesse, dos enredos mal tecidos ou quase inexistentes, ETC!
    Louvo a coragem de quem o diz, seja Miguel Real ou a Nossa Extraordinária Anfitriã.
    Práticamente deixei de ler autores portugueses, já o disse repetidas vezes, raros são os que me fazem comprar um livro. Se forem verificar os anteriores "o que ando a ler" verão que dos "badalados", dos premiados e dos promovidos pelas editoras, não rezam as minhas leituras. No entanto há sempre uma surpresa ou outra que até custa entender como conseguem furar o muro erguido sobre os ditos consagrados. Uma séca!

    Ora vamos lá a ver se descobrem ou deixam vir ao palco alguns que tenham outras coisas, coisas novas, coisas interessantes para contar, sem ser os umbigos clássicos e os fantasmas bafientos de cada autor de referência, que têm feito escola e limpam todos os prémios da rua deles, já que não há outra forma de os publicitar!

    Saudações aliviadas de um leitor exilado cá na Cidade Morena!
    Nota: Acabei o último de J.E. Agualusa, um dos raros consagrados que ainda me atrai... a grande dúvida é se o considero um autor português, ou é angolano? Ou brasileiro?
    Na volta ele vai dizer-me que se considera um luso-tropical o que explica a diversidade e a verve.

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  2. Sou apenas uma aspirante da escrita, publiquei três livros. Quando iniciei esta jornada nunca pensei ter a necessidade de obter uma analise crítica, sincera por parte de uma editora, (algo que não tenho por parte deste grupo editorial), talvez pela idade e por pensar que hoje toda a gente escreve. Mas é chegado o momento, da verdade que ninguém diz. Este sentimento deve ser partilhado por outras pessoas. Mas onde ficará o manuscrito, no fim da pilha de tantos outros, onde possivelmente nunca será lido.
    A maioria Escreve e auto publica para alimentar o ego ou a alma?
    Muito obrigada
    Bem haja

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  3. António Luiz Pacheco8 de janeiro de 2024 às 01:53

    Se me permite meter conversa, de uma forma muito simples e clara lhe direi que em minha opinião, a estafada questão "a auto publicação é por vaidade ou satisfazer ego", tem uma resposta: - É! Bom, e depois? Vem daí algum mal ao Mundo?
    Mas direi mais, a publicação através de uma editora é-o igualmente e mais nada!
    Só que uns conseguem e outros não, pois nem todos conseguem ganhar prémios literários que possibilitem ser-se publicado (adoro esta prescrição).
    Alguém que escreve não quer ser lido?
    Quem fala não é para ser ouvido? (Os maluquinhos é que falam com eles mesmos).
    Tudo o resto é treta. Desculpas de quem não tem coragem de recorrer à auto-edição ou está mal-informado sobre o processo.
    Continue a escrever, deixe falar...
    Saudações cá da Cidade Morena, terra de Pepetela!

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  4. A propósito do tema de hoje, recomendo a leitura do último prémio Oceanos (prosa), SIRÍACO E MISTER CHARLES, do luso-caboverdeano Joaquim Arena, obra, e prémio, infelizmente, tão pouco celebrados, vá-se lá saber porque. A história de um encontro e uma amizade improváveis, bem construída, bem escrita, com doses equilibradas de factos históricos e ficção, com um final surpreendente. Gostei muito.

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  5. Caro Luiz, essa de "mero leitor" não pega. Mais do que isso, muito mais mesmo. Pelos comentários, mais próximo desse leitor cujo ato de ler, considera Steiner, é a retribuição de "uma dívida de amor ".

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  6. António Luiz Pacheco8 de janeiro de 2024 às 02:30

    Registado!
    Grato pela partilha, é tão bom vir aqui...
    Abraço e bom ano.

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  7. Albertino Nunes Ferreira8 de janeiro de 2024 às 05:03

    Essa crise é verdadeira, ser-se original é difícil, convenhamos sobretudo na ficção; na poesia é possível alguma originalidade. Hoje, até pivots televisivos escrevem e são best sellers; toda a gente escreve e publica, há até editores que publicam de borla; em tempos recuados li um comentário premonitório de um escritor estrangeiro, no suplemento literário do defunto jornal República que dizia que no futuro toda a gente escreveria, o que ele designava por "escrivósis" talvez uma pandemia da escrita que existe hoje. Não leio escritores actuais, prefiro os clássicos: Camões, Pessoa, Camilo, Torga, Eça e Aquilino Ribeiro.

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  8. Quem se deu ao luxo de rejeitar todos os romances do autor Fernando Esteves Pinto, um deles por "excesso de qualidade", argumentando que não havia público para o livro (palavras de MRP), não se pode queixar muito.

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  9. Acabei de ler «O cão no meio do caminho» de Isabela Figueiredo e que livraço! Não creio que a ficção portuguesa esteja em crise, é talvez preciso saber escolher bem e ler o livro certo no momento certo.

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  10. Acredito que haja muito talento por descobrir por grandes editoras, apenas não haja tempo e vontade para o ler os manuscritos que lhes são enviados. Dou o exemplo aqui nos blogs do sapo - muitos autores talentosos com textos magníficos, mas isto é a minha opinião, e quem sou eu perto de uma editora.
    Bom ano.
    Bjs

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  11. A ficção portuguesa está em crise? Não leio o suficiente para poder responder. Vou lendo, como boa alentejana que sou. E gosto de alguns autores portugueses e de outros brasileiros, e de um ou outro moçambicano ou angolano. E de não sei quantos estrangeiros Há autores portugueses que nunca li. Poderão ser os melhores. Os atributos dados por outros aos livros pouca mossa me fazem. Leio uns bocadinhos do livro, às vezes o resumo e compro mais por intuição que por conhecimento. Posso dar-me a esse luxo. Também porque não aprecio as influências na leitura, mas podem apontar. Aceito de amigos que me conhecem e eu conheço as sugestões, como aceito as deste blogue. Mas isso não me faz comprar, faz-me tão só interessar-me pelo livro, entrevistá-lo, digamos. Apanho por vezes grandes desilusões (a intuição é humana), mas, na maioria dos casos, gosto. Que também não sei se objectivamente é bom ou mau, faz o meu gosto. Que de próprio e intrínseco temos menos do que pensamos.
    Tenho amor aos clássicos porque sim e porque já não podem desanimar-me. Mas não me cinjo a eles.
    Pergunto à Rosário se há uns anos, do monte de romances que pretendiam chegar a livro, se salientavam mais do que um ou dois ou três, se não foi sempre assim. Outra coisa é saber se a qualidade que hoje aparece e se exige, é semelhante à desses anos. E não entendo o motivo de se exigir a variação, o original. Os clássicos tratam as questões mais humanas e de todos os tempos. E há muito autor consagrado a dizer que escreve sempre o mesmo livro, mas de outro modo; ignoro se a afirmação é verdadeira, os escritores primam pelo inesperado nas respostas a tais perguntas.
    E não penso que as pessoas escrevam apenas para serem lidas e seja apenas um culto do ego (que também é, sim). Mas esse é outro assunto.

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  12. Que bom saber que livros também são rejeitados por esse motivo. É uma espécie de consolo.

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  13. Recentemente li uma obra de ficção de um autor que não conhecia muito criativo e imaginativo. Uma estória que remete ao realismo fantástico. O livro chama-se “Memórias pós cera de Abílio Abelha” de Nilton Arruda.

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  14. Não vejo crise nenhuma... é um conjunto de proporções matemáticas endémicas: 1: temos poucos leitores e menos ainda que leiam autores nacionais, logo temos poucos autores nacionais e desses temos poucos com qualidade/originalidade; 2: nunca se publicaram tantos ficcionistas portugueses como hoje em dia, mas quantidade não é qualidade e quantidade com má qualidade por um lado afasta leitores, por outro lado, se os livros não vendem, os responsáveis de compra das cadeiras livreiras encomendam menos e, por conseguinte, mesmo os livros melhores sofrem por tabela e aparecem menos no mercado com menos possibilidades de chegarem a leitores que um dia possam ser por eles influenciados a escrever um bom livro; 3: Portugal nunca teve mais que 3 ou 4 bons escritores por geração e 1 a 2 a cada meio século com nível para poderem ser reconhecidos internacionalmente de forma consistente. Nihil novum sub solem.

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  15. Só não é um consolo para os leitores que ficam privados de bons livros, por capricho dos editores (neste caso, foi da responsabilidade de MRP).

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  16. Gostei (muito sinceramente) do livro "O Colecionador de Ruas" da autora Ana Gonçalves, uma escritora transmontana nascida em 1988. Acho que esta também psicóloga poderá ter algum futuro nas letras. Alguém leu?

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  17. António Luiz Pacheco10 de janeiro de 2024 às 04:21

    Não conheço, mas ficou o interesse em procurar...
    Obrigado pela sugestão.

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  18. António Luiz Pacheco10 de janeiro de 2024 às 04:22

    Muito interessante a sua análise... penso que bastante realista e verdadeira.
    Ajuda a pensar...
    Abraço e cumprimentos cá da Cidade Morena.

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