Excerto da Quinzena

[...] Mãe, a senhora que diga se o santo tombou na fundura, diga, mãe, se for de tombar eu não tenho medo. Mais medo me dá que meu irmão seja sozinho à boca dos bichos, a podrir por feridas que abra, perplexo no abandono. A senhora que diga, mãe, a senhora que diga onde devo ir.


Mariinha dos Pardieiros senrou-se sobre os joelhos, desmoronada. Ruíra de si mesma. Era pelo chão. Dizia que o menino entrara na escuridão. Ficara tão escuro em volta que não se tornava mais possível enxergar coisa alguma.


Certamente pelo medo, pela pressa do sangue no interior do corpo, o espelho silente nsinuava ondular. Ou o modo como caíramos de corpos no chão abalara as madeiras e o espelho reflectiu sua pequena vertigem. Ondulou. Tive a impressão de se mover sozinho, aflito por dentro, na sua ínfima espessura onde todas as coisas eram apenas fantasmas das coisas reais.


 


Valter Hugo Mãe, Deus na Escuridão

Comentários

  1. Ora aqui está um livro que largava logo à primeira página.

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  2. "O meu pai sempre tratou o facto de eu ser negra como um segredo que ele escondia de mim. Julgo que, desse modo, imaginava proteger-me do racismo. Se eu não lhe contar que ela é negra, talvez ela não perceba, talvez ninguém note, parecia pensar, por estranho e absurdo que pareça. Cresci com outras mulheres, que me foram ensinando a ser mulher. Mas com nenhuma dessas mulheres brancas aprendi a ser uma mulher negra no mundo. Não aprendi com nenhuma delas a defender-me do mundo como tem de fazer uma mulher negra."

    Djaimila Pereira de Almeida , "O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo, Companhia das Letras,pág.17

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  3. A princesa era tão escrupulosa e perversa como o costumam ser todas as mulheres, o que é dizer muito, pois o sexo fraco sai sempre vencedor de todos os desafios.
    William Beckford - Vathek
    Tradução (e introdução e notas) de Manuel João Gomes

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  4. Eu também. Pedante. E a piscar o olho ao mercado brasileiro:

    "Mais medo me dá que meu irmão". Eu gosto da ausência do adjectivo e gostava que ainda me soasse bem... mas não sou capaz de usar, em Portugal soa-me hoje em dia a pedante.

    "Ficara tão escuro em volta que não se tornava mais possível enxergar coisa alguma." Mas ele é brasileiro ou português? 'Não se tornava mais possível"??? Será que quis dizer "Já não era possível?"

    De enxergar, gosto, bem português apesar do que se possa pensar.

    Já li um ou dois livres do Valter Hugo Mãe e aquilo nem é poesia nem é prosa. É uma treta.

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  5. Estes romances supostamente coloridos com nuances "abrasileiradas", ao fim de uns tempos, até a tinta com que é impresso o texto desaparece, tornando-o descorido, e o autor fica esborratado aos olhos dos leitores. Quanto aos críticos literários, têm sempre tinta nova para avivar os autores do costume. Ainda assim, creio que este romance não terá grande sucesso de vendas. Há uma coisa positiva: ao menos, o autor já adiantou a tradução para português do Brasil, provavelmente tendo em atenção o vasto mercado brasileiro.

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  6. Quando comecei a ler (no telemóvel, não se vê o fim do texto), pensei que a Rosário tinha aqui trazido o Itamar Vieira Júnior. Estava a ficar muito desiludida, com este texto estrambólico. Depois de tantos elogios que lhe fazem... Ao chegar ao fim, vi que afinal era o Hugo Mãe. Fiquei mais descansada.

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  7. Albertino Nunes Ferreira26 de janeiro de 2024 às 13:41

    É caso para dizer, não li e não gostei; nunca li nada do gajo e não estou arrependido; algumas vezes leio as suas croniquetas no JL.

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  8. é claro que onde digo 'adjectivo' referia-me a determinante ou artigo... 'o meu'...

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  9. De Valter Hugo Mãe gostei muito de “A máquina de fazer espanhóis “
    Acho que depois de ficar famoso,não voltou ao mesmo registo

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  10. «Fósforos. Ela regressa para acender as velas dispostas na cornija da lareira decorada, e pergunto-me se os ramos de abeto são verdadeiros, se cheiram como no bosque. Imagino, por uns instantes, que estou a ver os galhos a arder, enquanto vocês dormem, esta noite. Imagino o brilho quente e amarelo-amanteigado da sua casa a transformar-se num vermelho quente e crepitante.»

    Instinto, de Ashley Audain - Suma de Letras

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  11. “O que incomoda pessoalmente no big bang é talvez a sua grande simplicidade. Como imaginar que o nosso mundo, hoje tão extraordinariamente complexo e variado, tenha nascido de tal maneira? No capítulo seguinte veremos como o “complexo” nasce do “simples”. Mas este simples não conterá, pelo menos em potência, o complexo? E onde se situava essa potência do complexo nos primeiros minutos do universo?

    HUBERT REEVES - Um Pouco Mais de Azul
    Tradução- Armando da Silva Branco

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  12. António Luiz Pacheco28 de janeiro de 2024 às 01:32

    Ainda bem que não disse nada... penso exactamente o mesmo, e, senti em relação a este excerto aquilo que os demais Extraordinários exprimiram em vários comentários.
    Faz parte do grupo de autores portugueses actuais, ditos consagrados (pelas editoras e a crítica) que me afastam da ficção nacional.
    Não, não é inveja nem despeito (não pretendo ser escritor): é mesmo não gostar do que escrevem, sobre o que escrevem e a forma como escrevem, ao contrário de alguns outros que vão de Miguel Real a Paulo Moreiras, passa por Afonso Reis Cabral, Mário Cláudio, Carlos Campaniço.
    Votos de um Extraordinário fim de semana, cá da Cidade Morena.

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  13. Agradaram-me os primeiros romances do autor cuja criatividade e sintaxe, à época, conseguiram mexer com a minha leitura, a minha "estante". Outros novos autores o seguiriam, felizmente (Afonso Cruz como exemplo), formando um grupo, uma geração actual muito apetecida. Com o Valter embirrei depressa e abandonei (quiçá injustamente) devido ao seu posicionamento ortográfico de quebrar algumas regras (dei recentemente os 4 livros que tinha de edição Alfaguara)... como se o autor procurasse uma forma rasgada, um vinco de identidade que não lhe eram necessárias, já que era muito bom na sua forma de raciocínio, de sentimento exposto em escrita, criatividade. Existem obras, estructuras literárias que de certa forma chegam e parecem fugir a preceitos, mas apresentam-se de modo a que a escrita e a viagem tenham um ritmo próprio, uma cadência construtiva que se explica a si mesma, e lembro-me por exemplo de António Lobo Antunes... Com o VHM, havia para mim, algo de forçado no facto de não existirem por exemplo, caixa alta. Sentia não um ritmo mas uma quebra abrupta. Entendo com alguns textos poéticos (o tal ritmo, o balanço que leva à linha ou frase seguinte), com o Valter não (nos romances). Aceito que na maior parte das vezes a culpa da embirração será do leitor e da sua incapacidade de análise, de conhecimento para estar à altura de determinado autor.... mas na discussão, no diálogo é que se pode alcançar mais além. Alguém me elucide.

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  14. António Luiz Pacheco28 de janeiro de 2024 às 15:43

    "...a culpa da embirração será do leitor e da sua incapacidade de análise, de conhecimento para estar à altura de determinado autor...". (sic)

    Talvez. Sou capaz de não estar à altura de determinados autores, sendo por isso que os não leio. Todavia lembro o que me disse uma vez um autor que, o ouviu por sua vez a um outro escritor de referência: Lembra-te de que tens de escrever para os outros, não para ti.
    Acredito que seja este o principal dever do autor, seja escritor, realizador, compositor... afinal e como já se discutiu por aqui, quem escreve não o faz para ser lido?
    Ser um autor tão elevado que os leitores não o merecem, serve para quê?
    Para afastar leitores? Para puro gozo da crítica ou de uma minoria, a tal elite muito culta e entendida, capaz de o merecer porque consegue (ou finge) percebê-lo e apreciá-lo?
    Não sei, suponho que não o mereço certamente e nem a uma série deles, por demérito e falha minha, que assumo e de que me não orgulho de forma vã e estúpida, mas porque não chego lá tão simplesmente quanto não sou capaz de correr a maratona.
    Mero esclarecimento que me presumo ter.
    Afirmação ousada a sua, talvez certa, que sei eu na minha ignorância? A não ser que não aprecio nem VHM nem ALA, tendo-os lido para concluir tal.
    Em compensação delicio-me com um de Hemingway que ainda não lera: "Ter e não ter".
    Abraço e saudações de um final de Domingo, deleitado, cá na Cidade Morena.

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  15. António Luiz Pacheco28 de janeiro de 2024 às 21:40

    Algo pelo que vale a pena vir a este espaço Extraordinário é tanto pela qualidade dos temas e dos comentários, tanto quanto pelo que eles nos fazendo pensar nos levam a ter interesse em interagir. É o caso, e, aquilo que disse deixou-me a "moer" esta noite e pela manhã. Bom sinal, portanto, direi eu, traça tonta pela luz das idéias escritas.
    No que fiquei a pensar é, se, mestre Aquilino se enquadra nos autores que não são merecidos pelos leitores? Ou Saramago? Para me ficar apenas por estes dois que considero geniais e leio.
    O que quereria dizer que somos selectivos na referida capacidade de análise e de conhecimento. Estarei a pensar bem?

    É sempre um prazer ler e conversar consigo.
    Abraço e votos matinais de uma Extraordinária semana, cá desde a Cidade Morena.

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  16. ...foi (é sempre) um prazer lê-lo, António Luiz Pacheco.
    Pela autora (a minha poetisa preferida), por si António, por todos os diálogos que aqui assisto, nunca perco este blog, esta conversa à volta dos livros... que para um leitor banal como eu, enriquece sempre.
    Um Abraço!!!

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