Poeta escondido com o rabo de fora

Durante muitos anos, o jornalista Nicolau Santos, hoje na presidência da administração da RTP e antes na da LUSA, foi o editor do caderno de Economia do Expresso (a sua formação é, de resto, em Economia). E, se bem se lembram, na primeira página desse suplemento havia sempre um poema, como que para alegrar e dar alguma cor a um espaço em que era quase tudo relacionado com números. Depois disso, embora mais na sombra, continuou sempre a amar a poesia, organizando leituras e conversas que anima em bibliotecas e convidando muitos poetas para discutirem a sua arte e outras questões. Foi sempre, sabe-se, um grande leitor de poesia e uma espécie de poeta com o rabo de fora, mas agora mostra-nos mais: dá-nos um livro novo de poemas, chamado A Feliz Embriaguez de Existir, que ainda praticamente só folheei mas me pareceu logo conter várias pérolas, não só pela claridade (África, onde nasceu, e o amor devem ter alguma coisa a ver com isto) mas também pela ressonância de certos poetas que homenageia nas entrelinhas. Deixo-vos um cheirinho:


 


Debaixo de uma pedra


 


Se encontrares uma pedra


Que te pareça estar há muito tempo


No mesmo sítio


Pelo musgo e pelos líquenes que a envolvem


Não a levantes


Sem te perguntares


No mais íntimo de ti


Se estás mesmo preparado


Para enfrentar o que de lá vai sair.

Comentários

  1. Albertino Nunes Ferreira11 de janeiro de 2024 às 02:46

    No fundo todos somos poetas ou poetinhas, como o grande Vinicius de Morais; acho que a "escrivósis" anda por aí também contaminando a poesia!

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  2. Exemplo acabado de um post anterior: a pobreza da “literatura” portuguesa actual!

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  3. “…continuou sempre a amar a poesia…”? então faça-lhe um favor, não persista no desconchavo!

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  4. Parece-me mais uma máxima particular que podia estar escrita em prosa. Mas gosto do jornalista e julgo que colocar um poema no início dessa secção do jornal é um gesto bonito que louva a poesia. E não sou crítica nem entendo de poesia mais do que gostar de lê-la.

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