À chegada
Faço parte daquela parcela de portugueses que trabalha em empresas que fecham umas semanas em Agosto. Parti, por isso, para o Sul no princípio do mês à cata de sol mas, como levei com a chuva à chegada tal porta na cara, nos primeiros dias sobrou-me apenas o consolo da leitura enquanto ouvia uma assanhadíssima trovoada. Comecei por Raduan Nassar, o grande escritor brasileiro nascido em 1935, que pouco escreveu – mas bem – e que, depois de um romance, uma novela e uns contos, resolveu retirar-se da vida intelectual e ir cuidar de uma chácara para desgosto dos seus leitores. Em apenas um par de horas – que a novela é mais uma noveleta – tinha matado a sede com Um Copo de Cólera, uma fantástica peça literária sobre um casal apaixonado e desavindo: ela jornalista, jovem e algo progressista, ele mais avançado nos anos, convencional e bruto – mas o amor tem destas coisas, e o sexo pode ser tão perfeito entre dois seres humanos que a ira, por mais medonha, pelos vistos às vezes não chega para apagar o desejo e as boas recordações. Este é um livro sobre a sedução, a manha, o confronto, a fragilidade do forte e do fraco no meio de uma discussão muito feia descrita de forma muito bela. Traduzido em várias línguas, este livrinho tão pequeno já deu filme, não imagino de que tamanho. Mas a minha alegria ao lê-lo foi imensa.
Excelente livro esse. Tal como Lavoura Arcaica, que é provavelmente o meu romance brasileiro preferido.
ResponderEliminarBem-vinda de volta. O que me move aqui é isto mesmo, saber de Um Copo de Cólera, ir procurar referências a ver se me palpitam, saltar depois para Lavoura Arcaica... assim haja tempo e eu não me esqueça entretanto, ou me salte algo mais à vista. As as minhas leituras são assim meio anárquicas, ao sabor do vento. Nas férias li finalmente A Viagem à Índia, incluindo o prefácio de Eduardo Lourenço, que adoro ler mesmo se raramente entenda. Nos intervalos, li também os dois primeiros Diários de Torga: vi um programa na tv sobre ele, levantei-me, fui a uma estante, vasculhei e lá estavam eles, os dez diários, herdados. Quanto à Viagem... acho que vou voltar a ela muitas vezes. Cmprs ,
ResponderEliminarNão é a primeira vez que sigo uma sugestão sua, cara Maria do Rosário Pedreira, e aposto que não será a última.
ResponderEliminarVou, pois, à procura desse copo, para melhor cuscar :))
E bom sabê-la de volta e com um livro que nem conhecia, mas que vai ter que esperar mais uns tempos.
ResponderEliminarÉ interessante vir a um blog português para ouvir falar de um autor braileiro que desconheço completamente. Sempre uma dica para conhecer mais um pouco o que é nosso e não damos valor.
ResponderEliminarUm abraço
Mais que interessante chega ser vergonhoso, e assim atesto para este complexo que assombra como reflexo de uma educação distanciada da realidade que nos cerca.
ResponderEliminarEntre tantos despropósitos os quais, referencias do que ler.
Um verão com mau feitio, uns pingos de chuva aqui e ali..salva-se o seu regresso e com uma excelente sugestão.
ResponderEliminarPor favor, insista, insista na divulgação de Raduan Nassar, cuja obra me deixa em queda livre sempre que a ela retorno.
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