O senhor das velas

Há muitos anos, acompanhei a uma sessão da Comunidade de Leitores da Biblioteca de Almada (a propósito de Morreste-me) José Luís Peixoto (de quem então era editora) e assisti à conversa. No final, soube que o livro a tratar na sessão seguinte seria As Velas Ardem até ao Fim e dele me falou entusiasticamente na altura o jornalista José Mário Silva, que ali fora também. Como na altura desconhecia a obra, comprei-a e li-a com bastante prazer, mas, sei lá porquê, nunca mais tinha voltado a Sándor Márai até este ano. Ora, caiu-me nas mãos o fabuloso A Herança de Eszter, uma pequena maravilha que gira em torno de Lajos, um canalha irresistível que regressa, viúvo, ao fim de vinte anos, a casa de Eszter, a mulher que o amou de forma definitiva (tendo recusado outros dois homens) e com cuja irmã ele se casou, depois de ter desbastado o que seria a herança de ambas, à excepção de um anel (embora sobre esse anel muito haja a dizer) e da casa onde Eszter ainda mora com uma velha prima que a ajuda na organização doméstica. E, por muito avisados que estejam, todos neste livro conhecem os próprios limites e o sem-limites que é Lajos e o que ele vem ainda buscar. Surpreendente até à última página, como uma vela que arde mesmo até ao fim, esta é uma daquelas pérolas que não se esquecem, escrita por um senhor que descobri ter-se suicidado (estranhamente) aos 89 anos.

Comentários

  1. Magnífico livro esse! Li-o, há dois ou três anos, fazendo o mesmo percurso que a Maria do Rosário Pedreira. Também comecei com "As velas..." e gostei tanto que decidi descobrir o autor. Fui por aí fora e hoje tenho-os todos. Os publicados em Portugal, claro. "A Mulher Certa" é também muito bom.
    Congratulo-me com o seu regresso. Gosto sempre das suas sugestões.

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  2. Fico triste por perceber que nunca terei tempo de ler todos os livros que gostaria...

    Vou procurar este na biblioteca!

    Cláudia Moreira

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  3. Completamente de acordo: livro curto e inesquecível sobre o parasitismo sentimental. Só uma nota quanto ao suicídio de Marai, em particular em relação ao (estranhamente) com que é qualificado, isto porque as últimas páginas do diário dele (na versão inglesa) estão disponíveis na net. É um texto elegante e dramático que nos vai narrando a progressiva degradação física do autor, problemas de saúde cada vez mais limitantes, a perda da companheira e uma desalmada solidão em terra estranha (califórnia). Tudo acentuado por um agudo espirito analítico e uma beleza de escrita indicando que as capacidades mentais de Marai estariam pouco afetadas pela sua idade avançada. Essas páginas finais do diário tornam quase inevitávelmente lógico o seu suicídio (um pouco como em Hemingway em que a velhice juntou as misérias da doença à perda da capacidade de escrever).
    Artur Águas

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    Respostas
    1. Obrigada pela informação sobre os diários. Já estou a salivar...

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  4. Vicente Lopes Saudade7 de setembro de 2011 às 02:55

    Este episódio (e comentários) do suicídio de marái recordou-me, por momentos, a cena do suicídio do escritor no filme \'as horas\', personagem interpretada brilhantemente por Ed Harris. A morte de Hemingway também continua a ser misteriosa; o homem teve a frieza de esperar o sol nascer, antes de apontar a caçadeira contra a própria face. Quanto ao autor referido, confesso que não conheço, mas fiquei encantado com a história que MRP contou.

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  5. Sou uma fã incondicional de Sandor Marái. Tudo o que foi cá editado dele nos últimos anos, eu li. Há uma elegância e lirismo na escrita dele que chegam a ser perturbantes. Muito bom!

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  6. Então falta ler "A mulher certa", a história dum adultério dividida em 3 partes e em que cada parte é narrada por um dos elementos do triângulo e "Divórcio em Buda". Os dois são fantásticos.

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  7. Muito boa noite. Já me tinham falado do seu blog por diversas vezes, mas como sou recém-chegada a esta vida «bloguística», só hoje por aqui passei. E que feliz estou! Extraordinário sítio para quem gosta de ler e para quem vive os livros e as histórias. Voltarei certamente e vou já à procura de algumas das obras que aqui estão referidas. As suas descrições abrem de tal forma o apetite... ainda para mais estando eu a descobrir-me como uma «contadeira de histórias»; às vezes dou por mim a escrevê-las coladas a outras que leio.. Obrigada! (historiasdenos.blogspot.com)

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  8. Considero-o igualmente uma pérola, assim como As velas ardem até ao fim. Homem misterioso, sim, morte misteriosa, sim. Que escritor fascinante.

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