Sentimento de posse
Ser possessivo não é, necessariamente, uma coisa boa, mas a verdade é que há muitos livros que queremos ter na estante e não nos basta ler emprestados ou descarregados num aparelho qualquer. Mesmo sem grande afecto pelos e-readers, tenho de confessar que ultimamente tenho achado graça ao iPad e à sua excelente visibilidade e até já «folheei» livros e artigos no do Manel, que – ele, sim – é doido por gadgets electrónicos e está sempre ansioso pelas versões mais modernas. E, mesmo assim, a circunstância de, pela primeira vez, considerar possível e agradável ler um livro num dispositivo deste tipo não me retira a vontade de o ter em papel; porque, mesmo que o saiba ali ao alcance de uns cliques, a verdade é que esse livro não é meu, é de uma empresa qualquer que mo disponibiliza mas mo pode tirar quando lhe der na gana (já aconteceu com a Amazon quando se puseram problemas de copyright); e, além disso, basta que a bateria se esgote para ele me desaparecer da frente sem dó nem piedade. Enfim, é um serviço, e não um bem. Possuir um bem é coisa humana e todos gostamos de ter coisas, nem que seja para saber que as temos ou olhar para elas de vez em quando. No artigo de Beigbeder de que falei há dias, publicado na revista Lire, o escritor diz que, no dia em que desaparecer este mediador que é o editor e os livros estiverem apenas disponíveis na Internet, as pessoas deixarão de ler. Vivam então os possessivos.
Temos mesmo de olhar de vez em quando. Adoro entrar no meu escritório e olhar para os meus livros. São objectos. Não são, felizmente, ficheiros digitais.
ResponderEliminarO sentimento de posse, de ter, creio que é algo de atávico... faz parte da Natureza humana.
ResponderEliminarTirando os san (bosquímanos ou mucancalas), só os santões e os místicos conseguirão deveras desprender-se de tudo o que é material e serão excepções!
Tanto quanto julgo, quem tenha paixão pela leitura tem igual paixão por livros, e a sua posse física é uma necessidade. A minha mulher que é dada à mística, presume não ter esse sentimento de posse por coisas, mas na verdade tem a sua biblioteca separada da minha... e um destes dias questionou porque é que eu tinha um livro dela em cima da mesa do meu escritório... ou seja, lá está... felizmente ainda não sou casado com uma santa!
Não consigo imaginar uma biblioteca virtual... como a Drª Mª do Rosário descreve, assim num aparelho, sem prateleiras nem lombadas. É como ter um quadro guardado no PC em vez de na parede... ou jogar farmville ?
Mas nunca se sabe e o ser humano a tudo se adapta... se calhar é uma questão de gerações.
Vejamos como pensavam os nossos avós, como pensamos e sentimos hoje... e quem sabe como pensarão e sentirão as gerações seguintes e como nos verão a nós, ultrapassados e até... ridículos!
Pela minha parte tenho uma sobrinha de 34 anos que gosta de livros... e eu costumo dizer que não sou mais do que o guardião da "nossa" biblioteca que foi dos avós e bisavós, sendo composta ao longo do tempo e já de gerações... sendo antiga a nossa relação com os livros:
Temos uma História de Santarém, da autoria de Ignacio da Piedade que levou vários anos até ser autorizada e só foi aprovada pelo Prégador Geral Fr . João Pacheco em 1738, entre muitas voltas... sendo só impressa em 1740!
Temos livros com 150 anos e o mais antigo é Histoire dv roy Lovis Le Grand " editada em 1693...
Será que a biblioteca virtual vai permitir este tipo de transmissão? Creio que não...
Mas é um excelente tema de reflexão!
Estou muito tentado a comprar um Kindle por um simples factor: a sua capacidade de aumentar o tamanho das letras. Isso não é vantagem de somenos para os pitosgas. Por muito que goste de ter livros...
ResponderEliminarQuem tem a sorte de amar os livros pode gabar-se de saber que há poucos objectos tão especiais. As engenhocas permitem a leitura, mas não nos dão o livro. Os gadgets dão-nos quantidade mas retiram sabor. Na leitura em ecrãs uma parte de nós assume-se também como máquina. Os livros, concedo, nem todos, mas muitos, são jóias, objectos preciosos que não troco por bijutaria por mais brilhante, vibrante, estonteante que seja. A leitura em livros é em pele natural, em ecrãs é em poliéster.
ResponderEliminarCada livro é uma cicatriz na minha vida: umas profundas, outras ligeiras, e a sua posse dá-me segurança, como se a minha história de vida, de existência, pudesse estar contida naquele silêncio que deles emana, naquela presença sólida em toda a minha casa.
Desconheço o dia de amanhã, mas algo me diz que este amor é eterno.
Caramba... até me emocionou!
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