Escritores na sombra

Tenho um amigo escritor (de grande qualidade, é bom que se diga) que, no seu país, e quando era mais jovem, escreveu a autobiografia de outra pessoa – o presidente de um grande clube de futebol. Calculo que lhe tenha feito algumas entrevistas e lido o bastante a seu respeito – e a verdade é que o homem se reviu no que leu como se tivesse sido ele próprio a redigir o texto (parece que só o título do livro é da sua autoria). Conheço outra pessoa que vive de escrever livros alheios, mas não escreve os seus – e tão-pouco quer que o seu nome apareça sequer como colaborador ou redactor na ficha técnica, mesmo quando lho sugerem; talvez, no seu íntimo, esteja convencido de que um dia ainda há-de escrever alguma coisa que valha a pena e não queira que os leitores identifiquem o seu nome com obras que julga menores (mesmo se escritas pela sua mão). Sei que existem muitos escritores na sombra neste momento em todo o mundo – e Portugal não é excepção – e pergunto-me o que sentirão quando vêem os seus textos serem publicados com a assinatura de outra pessoa. Claro que, nestes casos, a discrição é a alma do negócio e nunca se acusarão, mas não terão pena de que, como acontece nos EUA, o seu nome não apareça na capa debaixo do do (falso) autor? E não gostariam de ocupar o tempo a escrever outras coisas, que pudessem assinar e publicar, em vez daquelas? E, quando um desses livros vende às pazadas, não pensarão no que poderiam ter ganho se fossem (e são) os seus verdadeiros autores? E como serão as pessoas que aceitam ficar com os louros (e o dinheiro) dos que assim trabalham?

Comentários

  1. Sou uma dessas pessoas. Se há dias em que tenho vontade de contar tudo, há outros, a maioria, em que as facturas das contas por pagar acenam-me e fazem parar os meus instintos.

    Tudo começou há alguns anos quando choraram no meu ombro afirmando a incapacidade de entrega dum trabalho universitário no dia seguinte; o assunto era-me chinês, mas nessa noite ficou concluído e o ‘autor’ tirou um 14. O rapazito contou a façanha a alguns amigos do peito e, através dele, comecei a escrever sobre diversos assuntos. O facto de ter começado a ler aos cinco anos de idade, de ler muito, de gostar de quase todo o género de leitura levou-me a perceber que aquilo era mais fácil do que pensava.
    Fazia-o a pedido de superiores hierárquicos, para quem escrevi discursos; a pedido de colegas, para quem escrevia ofícios e informações empresariais; a pedido de amigos e desconhecidos para quem escrevia cartas – até de amor, tantas – sobre os mais variados assuntos, até que mudei de local de trabalho e um dia pediram-me ajuda para rever o português em 30 páginas de texto. Por coincidência dominava o assunto e comecei por fazer tímidas sugestões de alteração no português mas também no conteúdo. As 30 páginas transformaram-se rapidamente em 300, com várias edições que muitos dos que me lêem agora têm lá por casa. O meu nome não consta nem nos agradecimentos.
    A seguir vieram outros e outros. O pedido era sempre o mesmo: rever o texto. O resultado era sempre o mesmo também: aquilo funciona como sinopse e eu faço o resto. Apenas num consto dos agradecimentos sem menção a qualquer função.

    Um dia cheguei ao trabalho e tinha um envelope em cima da secretária: o livro de Jostein Gaarder, O Vendedor de Histórias, estava embrulhado em papel pardo com um cartão onde alguém desenhara um sorriso. Nunca soube quem mo deu e, na altura, isso assustou-me um pouco e não aceitei alguns trabalhos. Depois veio a necessidade, novamente expressa em dificuldades financeiras, e aceitei fazer artigos para jornais cujo pagamento era dividido a meias com quem assinava. Dava-me prazer andar de transportes e ver as pessoas a ler-me. Houve momentos em que os leitores do jornal faziam comentários, críticas, etc., e o ‘autor’ enviava-mos para que eu respondesse.

    Em simultâneo criei um pseudónimo e sugeri uma coluna (gratuita) para um certo jornal. Foi aceite. Decorria assim um período da minha vida em que escrevia para o grande público, sob os mais variados assuntos, e ninguém sabia que era eu.

    Guardo cópias diferentes versões, de cheques, de transferências e em cada trabalho publicado em livro há um ‘erro’ consciente, uma gralha específica, uma marca invisível, só desvendada a um eleito, a única pessoa que tem conhecimento desta actividade.

    Apesar de tudo sempre que acabo um trabalho sinto-me como uma mãe a quem tiram um filho, sei que sou uma espécie de barriga de aluguer, o que me entristece, mas...

    Já mandei trabalhos para editoras: foram todos recusados. Tento gerir a raiva que isso provoca com a certeza que tenho de os enganar a todos. É assim a vida...

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    Respostas
    1. Uau! Bela história!

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    2. Também adorei ler a sua história! E, como sempre, não sabemos quem a escreveu. É pena!

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    3. Mas que história! Sou mesmo ingénua. Nunca pensei que isto pudesse acontecer. E deixa-me com um misto de admiração e pena. E cheia de curiosidade de saber mais...

      Porque não usar esse tal pseudónimo e enviar um manuscrito para a autora deste blogue? Não se sente provocada? Tente! E boa sorte.

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    4. Boa história... dava para um livro...
      Mas sem dúvidaque é ficção, basta ler com atenção e verificar detalhes e contradições.
      É no que falham muitas boas histórias...

      Será este o mesmo anónimo que afirma que a maioria dos posts aqui postados (passe o pleonasmo) são de escritores falhados?
      Porque este é mais um, sem dúvida!

      Mas a história é boa! Lá isso é...

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    5. Estimada Anabela F.
      Sorri ao ler o seu comentário: sou um homem e não sei o que a levou a pensar o contrário. Talvez o facto de ter afirmado que me sinto barriga de aluguer, mas sou pai e daqueles que, durante as gravidezes da minha mulher, afirmava com orgulho: Estamos grávidos!
      Limitei-me a tomar de empréstimo a situação para melhor expressar o que sinto.

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  2. «...como serão as pessoas que aceitam ficar com os louros (e o dinheiro) dos que assim trabalham?»
    Paul Bowles e o desgraçado Mohamed Choukri, até aprender a ler e escrever, e mais algum tempo; o necessário para publicar «Paul Bowles, le reclus de Tanger».
    Fica bem

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  3. É do conhecimento público o facto de haver quem faça teses de doutoramento por outrem. Bem pagas.
    Para quem escreve deve ser assunto complicado, duro, profundo para além da imaginação. Doloroso mesmo. Ainda assim, dum romantismo atroz.
    Para quem assina é fácil. E ponto.

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  4. Não tem nada a ver com o post. Mas resolvi antecipar-me, pois penso que o próximo post (ou um dos próximos) será, mais ou menos nestes termos:

    “O Bom Inverno” (Dom Quixote), de João Tordo, foi uma das três obras nomeadas para a categoria de Melhor Livro de Ficção Narrativa, dos Prémios Autores 2011, iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores (cuja Gala SPA/ RTP) decorre no dia 21, às 21h, no Centro Cultural de Belém.

    Parabéns!

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  5. É uma temática bastante fascinante. Sobre o tema aconselho a quem não leu, o livro Budapeste de Chico Buarque, cuja a adaptação cinematografica chegará às nossas salas já para a próxima semana.

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  6. é uma realidade, cada vez mais evidente.

    penso que os editores são os seus grandes responsáveis. são eles que contratam pessoas sem nome para escrever no lugar de actores, apresentadores de programas televisivos e outras figuras públicas.

    actualmente também escrevo trabalhos que não assino, mas são textos feitos a várias mãos, que têm como objectivo a promoção de lugares e de pessoas, quase sempre ligados ao turismo.

    e sim, o "budapeste" analisa muito bem deste fenómeno...

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