Pobres autores

Não me canso de dizer que a edição já não é o que era – e que, se nos velhos tempos era em torno do autor que tudo girava, agora parece ser o leitor quem dita as regras do jogo. Fui, aliás, surpreendida um dia destes por uma notícia que me fez pensar que os escritores foram irremediavelmente atirados para segundo plano. Rezava o texto que a autora norte-americana de The Vampire Diaries (colecção de livros e série de TV de enorme sucesso), de seu nome L. J. Smith, acaba de ser despedida pela editora Harper Collins, que é dona dos direitos de autor da saga. Parece que os seus últimos livros se afastaram bastante da ideia original da colecção e, ainda que os espectadores de TV não tenham dado por isso, a editora mandou a senhora embora e comunicou que a série vai ser prosseguida por outra autora. Ou seja, o que importa são as personagens e os seus conflitos, e não quem os criou e escreveu (e, se Smith tinha um estilo de escrita distinto da sua sucessora, isso não parece afligir ninguém). Mas o mais estranho é que a vítima de despedimento pede, na sua página de Internet, aos leitores da saga que não boicotem a editora e continuem a ler as aventuras dos vampiros que inventou. Ou recebeu uma choruda indemnização para ficar quieta, ou realmente um autor já não é senão uma peça facilmente substituível da engrenagem.

Comentários

  1. Interessante reflexão e que muito dá que pensar... infelizmente. Cada vez mais os criadores são seres descartáveis, manietados pelo lucro que possam gerar.

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  2. As personagens, quais filhos, parecem ganhar vida própria para além dos seus ‘pais’. Vida própria, mas não natural, é antes uma vida artificial pois do ponto de vista da escrita em si é um ligar à máquina que suporta uma vida que, por si só, não existiria, ou caminharia, quem sabe, noutra direcção. É uma espécie de balão de oxigénio colocado nas pontas de dedos alheios. É uma espécie de efeitos especiais da escrita, num trabalho de computador, virtual, mas que ninguém poderá dizer que não viu.
    A tirania do leitor/espectador é soberana e dita resultados comerciais, único critério que não pode ser posto em causa, valham-nos todos os deuses de todos os Olimpos se assim acontecer! O que não faltam aí são escritores!
    De certa maneira, esta problemática liga-se com a dinâmica de Budapeste, já referido neste blog, a propósito doutras matérias.

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  3. Se bem percebi, e sou tentado a concordar com a estimada Areia, há um facto inegável que é o perfilhar das personagens pelo seu autor...

    Será isso que está por trás da atitude referida?
    Enfim, um caso de amor "maternal" que as quer manter vivas?

    Creio que como em tudo o mais, o autor acaba por ser mais uma peça na "fileira" e um dia destes será possível através da inteligência dita artificial e novas tecnologias, usando como matriz os grandes mestres (ou quem se queira) até produzir literatura sem autor...

    Será?
    Isso então era um maná para a indústria editorial!

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  4. Discordo. O mais importante, na minha opinião, são as personagens e a história. É que no extremo oposto deste ‘escândalo’ pressentido no post, está o endeusamento acrítico dos autores em lances de marketing produzidos pelos agentes culturais ligado à literatura.
    A forma como se vende um autor, apesar dos livros, causa-me tanta estranheza, ou mais, como o caso descrito.
    Há muitos casos em que o que se escreve não é assim TÃO importante.
    O expoente máximo no modo como se vende um escritor é ALAntunes. A rebeldia, ou seja lá o que for aquilo, ou a sua pretensa rivalidade com Saramago, interessam mais, na verdade, do que os seus livros. Estes são acriticamente comentados na imprensa, falando-se sempre mais do autor do que do livro em causa. O mesmo com Saramago, claro. JLPeixoto vai a caminho, bem lançado entre os gritinhos de desejo e suspiros femininos pelo rebelde que é poeta, pai, tem piercings, era um filho dedicado, é jovem (sendo que um escritor é jovem até aos 45!), é metaleiro, usa t-shirts a dizer Fuck Harry Potter em sessões de autógrafos mas, ao mesmo tempo, tem aquele modo de falar que enternece e desarma, como se estivesse a pedir desculpa ou assim. Todos estes autores pejados de prémios e medalhas honoris causa, claro.
    Prefiro o livro pelo livro. O autor que vá pastar. O livro ser bom é o que interessa. O nome de quem o escreve, sugiro, deveria ser o mais pequeno possível. Isto porque a literatura são livros, não são autores, embora perceba que para o negócio editorial de autores nacionais, coisa já de si tão pequena, dê jeito que seja ao contrário.

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  5. Meu Caro JML

    Compreendo o seu ponto de vista, sim...
    Mas, se o que interessa é o livro e não o autor, coisa de que me atrevo a discordar porque sem autores não há livros, como sem galinhas não há ovos e vice-versa... então repare:
    - Num futuro breve, com a tecnologia e a tal inteligência artificial, você coloca os parâmetros ou matriz ou o que seja, num "authormatic " e zás! Sai a obra como se quer...

    E deixa de haver autores, e, até se escrevem obras primas, pois será possível escrever "como" quem se quiser... Saramago, Tosltoi, Hemingway Balzac ou Júlio César...

    É claro que hoje há muito "autorismo ", isto é, se calhar autores de quem vende mais a imagem do que o têm para contar... como há quem vista uma marca ou compre vinho pelo rótulo... mas ainda penso que o autor tem peso, pois a sua visão das coisas, a sua experiência e a forma como conta é que faz o livro... depois se vende muito ou pouco... bem, actualmente isso é uma questão do marketing mix!

    Cumprimentos e votos de um bom fim de semana a todos!

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  6. Boa tarde a todos.
    Não costumo comentar publicações em 'weblogs', sejam eles quais forem, mas enviaram-me esta ligação por 'email' e, a título excepcional, achei que valia a pena comentá-la e oferecer um ponto de vista de autor sobre a questão.

    Desconheço em que circunstâncias se operou o despedimento da escritora L. J. Smith e a contratação de um escritor-fantasma para prosseguir a série de livros por ela iniciada, assim como desconheço as referidas obras e o seu conteúdo. No entanto, avanço com a ideia de que esta situação nada tem de inédito, a não ser pela parte do afastamento prematuro do autor, pois quantas séries, literárias ou não, não são continuadas depois da morte do ou dos criadores? É, pois, a tónica colocada no afastamento da autora que surpreende, pois reveste-se de contornos complexos: ou seja, quase que inspira a que se pense que existe por parte dos seus editores a tácita aceitação de que ela é incompetente e, tal como uma peça defeituosa, tem que ser substituída. Gostava de acreditar, talvez com ingenuidade, que a situação não será assim tão simples e que meandros contratuais de diversas ordens terão para ela contribuído. Logo, o único comentário que posso fazer neste ponto é declarar estupefacção.

    Mas o que posso e vou comentar com mais propriedade é a postura 'blasé' revelada por alguns dos comentários acima, em particular do utilizador JML que a dada altura escreve: «Prefiro o livro pelo livro. O autor que vá pastar. O livro ser bom é o que interessa.»

    Com efeito, comprar um livro (ainda) não é a mesma coisa que comprar uma mercadoria de marca branca na mercearia ou no supermercado; uma escolha orientada pela estratégia de que aquilo que interessa ao consumidor é que o produto branco tenha uma vantajosa relação de qualidade e preço, independentemente de qual o fabricante que se esconde atrás da albumina. Há leitores que compram livros desta forma, como quem compra uma marca branca, na qual as características que interessam são as personagens e o enredo, independentemente da voz autoral que as criaram? Se existem leitores que não compreendem que, de facto, não compram livros, mas uma voz autoral, seja ela mais fraca ou mais forte, mais comercial ou mais artística, então será legítimo que os escritores também os «mandem pastar», para usar as palavras de JML?

    A fronteira entre o autor e o público é um valor que poucos ainda estimam. É um sinal dos tempos e que, de uma maneira ou de outra, terá vindo para ficar. Mas o que não pode ficar são as interpretações desviantes que esta nova relação imprime nas mentes de determinados leitores.

    Se existem leitores que desejariam ser escritores e, por culpa desse desiderato, olham para os escritores como sendo concorrência, é natural que, a curto ou médio prazo, os comecem a desvalorizar, numa tentativa, mais ou menos consciente, de promoverem as suas próprias agendas. A noção de que os leitores sabem melhor que os escritores como se deve ou não deve escrever, que sabem melhor que os editores como se deve ou não editar, é um precedente para que se digam e escrevam muitos disparates.
    Um livro, infelizmente, pode passar muitos anos sem ser lido (às vezes, por quem o compra), mas felizmente nunca poderia ter-se escrito a si mesmo. O que significa que sem escritores (e editores) não há livros.

    Cumprimentos.
    David Soares

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  7. David Soares... O David Soares do Evangelho do Enforcado????

    Caramba... coisa cada vez mais rara ver alguém mostrar a cara ou dar o nome!!!!!

    Saúdo-o meu caro e já agora felicito-o, e, creia que foi um prazer e um privilégio ler esta sua intervenção!
    E se concordo não é por subserviência é porque penso o mesmo (perdoe a imodéstia).

    Bom fim de semana!

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  8. Se a alta crítica faz justiça nos vereditos que dá, então foram sempre as pessoas dos autores meio dispensáveis ao bom desenvolvimento e ao bom sucesso das personagens, mesmo as mais fundamentais. Mas eu prefiro crer que se equivocam e que, no fundo, só são substituíveis os criadores das que quaisquer outros podem imaginar e dar seqüência, isto é, das más.

    Abraço do Brasil.

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  9. Para além da acutilância do post a que a Maria do Rosário Pedreira já nos habitou, se o David Soares não costuma comentar por aqui, então ficamos todos os leitores do Horas Extraordinárias a perder, pois o seu comentário foi simplesmente...excelente!
    Estranho é realmente esse pedido que a escritora despedida faz na sua página da internet, mas como bem refere deve depender do tamanho da indemnização.

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  10. Caro David Soares,
    concordo consigo na maior parte do que diz. Ressalvo só que há muitos tipos de leitores.
    Por exemplo, li o seu A Luz Maldita na última semana. Gostei, mas por razões diversas, talvez, de um outro leitor que tenha gostado. Eu respondi de um modo ao que li e esse leitor poderá ter respondido de outra forma. Não é relevante para mim que tenha sido o David Soares a escrever os três contos. Até poderia ter sido a Margarida Rebelo Pinto. Já para o outro leitor poderá ter sido fundamental para gostar que tenha sido o sr o autor. Claro que a sua voz literária é incomparável, no bom e no menos bom, e aí percebo o que quer dizer com " Se existem leitores que não compreendem que, de facto, não compram livros, mas uma voz autoral, seja ela mais fraca ou mais forte, mais comercial ou mais artística, então será legítimo que os escritores também os «mandem pastar», para usar as palavras de JML? ".

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  11. Quando gosto de um livro, vou procurar outros livros do mesmo autor e normalmente encontro nesses livros o que gostei no primeiro e terão de ser em princípio outras histórias. A capacidade de criar determinada historia e a forma como escreve serão únicas.
    Prefiro acreditar que no caso da escritora citada terá sido mesmo o amor pelos personagens que criou, até pela vida que ganharam na série, o que a levou a manifestar-se. E gostava que no final o escritor fantasma falhasse e tivessem de pedir à escritora para regressar.

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  12. "Prefiro acreditar que no caso da escritora citada terá sido mesmo o amor pelos personagens que criou, até pela vida que ganharam na série, o que a levou a manifestar-se. E gostava que no final o escritor fantasma falhasse e tivessem de pedir à escritora para regressar."
    (Sic Redonda)

    Ah!ah!ah! Não haja dúvida sobre quem são os frequentadores deste blog, ainda que constituam maioritáriamente um grupo de escritores falhados (sic) ou de bajuladores de MRP (sic)...

    Já está aí um romance, nesse comentário...

    Uma boa semana de trabalho para todos e para a Redonda em especial, a justiceira!

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    1. E com o comentário anterior a pilinha do Sr. Pacheco cresceu mais meio centímetro.

      Contente com mais uma inútil e desrespeitosa contribuição?

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