O difícil

Um dia destes, estava a pensar que, com a idade, nos tornamos mais preguiçosos, até para pensar. Quando andava na faculdade, passava a vida a ver filmes alemães estranhíssimos e espectáculos de teatro e dança excessivamente crus – e hoje dou por mim a pensar que já não tenho estofo para aguentar hermetismos ou violência, por mais estéticos que possam ser (quando devia ser ao contrário, pois só agora possuo maturidade para os apreciar e compreender). A minha mãe – que está com 86 anos, mas sempre leu muito – também diz amiúde, quando me pede livros emprestados, que não lhe leve nada de muito complicado... Ora, recentemente, a Casa Fernando Pessoa inaugurou uma sequência de intervenções sobre Livros Difíceis – e a primeira dedica-se a Proust e tem como orador Pedro Tamen, que é também o tradutor de Em busca do Tempo Perdido. A ideia parece-me belíssima e, como tal, «convido» todos os jovens que lêem este blogue a irem ouvir os experts e a deixarem-se encantar depois pelas tais obras difíceis – se ainda as não conhecerem, claro – que hão-de parecer certamente mais fáceis com essa ajudinha dos especialistas. É que, quando chegarem à minha idade, já não vão ter provavelmente coragem de se atirar a elas...

Comentários

  1. Hum... Preguiçosos? Ou selectivos?

    Talvez porque já nos conheçamos melhor e tendo melhor noção daquilo de que gostamos, haja a tendência para evitar o que não nos diz nada.
    Por outro lado, me parece que a capacidade para recolher/absorver coisas novas, essa sim diminui. Talvez porque o espaço disponível seja cada vez menos.
    De facto noto nas pessoas de idade, falo de 70
    e por aí fora, uma dificuldade cada vez maior em ouvir, o que não lhes interessa de modo geral.
    Em compensação preferem contar e recordar,
    tendo mais vivas as memórias antigas. Creio ser um processo normal ao envelhecimento nas pessoas comuns e para ser franco, dos velhos quero mesmo é ouvir coisas antigas!

    Quanto à proposta deste post , pois creio que os mais novos devem tentar alargar as suas áreas
    de interesse e os horizontes intelectuais, mesmo e sobretudo quando lhes parece desinteressante ou difícil... e terão gratas surpresas!
    Irão descobrindo que aquilo que lhes pareceu chato ou incompreensível, afinal não é assim... creio que se chama a isso crescer ou ser adulto!
    É formação se quiserem... e nos dá cada vez melhor entendimento e por conseguinte uma coisa chamada tolerância, porque abrimos os nossos horizontes a outras idéias e passamos a entender ou pelo menos aceitar outros pontos de vista e os porquês de tanta coisa, crescendo como pessoas.
    Quem se mantenha fechado nas suas idéias e não saia delas, alargando os campos do saber e do entendimento, fica limitado e daí nascem os fanatismos e extremismos que têm sido a maior causa do mau relacionamento humano e até o obstáculo ao conhecimento, e de tantos crimes contra eles, motivados por ideais!

    Aos jovens tem de lhes ser explicado isto, penso que sobretudo nas universidades onde deveria haver essa abertura (daí o nome universidade...) e os professores deviam possuir e praticar essa abertura e largueza de espírito. Será que a têm?

    O contacto dos jovens com pessoas mais velhas e experientes ajuda-os a abrir mente e idéias, eles é que ainda não o sabem... sabemo-lo nós os de meia-idade.

    Além de Proust , espero que haja outras leituras difíceis, como Aquilino. Como para tudo, há um tempo para ler uns e outros!

    Um dia bom e proveitoso a todos, como já foi para mim pela leitura deste post e a possibilidade de discorrer um pouco. Me desculpem como sempre eventuais tolices ou estar enganado.

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  2. Sabe que senti um espécie de alívio bom quando li este seu texto?...
    Ainda antes de entrar para a Faculdade de Letras eu lia (enormes) clássicos russos e afins, depois andava pelo Quarteto e outros locais do estilo...
    Vinte e tal anos depois, morando fora de Lisboa, e a dar aulas ao segundo ciclo, sinto uma espécie de complexo de inferioridade por não falar, escrever ou ler "tão bem" como nessa época.

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  3. Será que as intervenções não poderiam ter também lugar no Porto?



    Houve livros que só com mais idade consegui apreciar e desconfio que haverá livros (sobretudo infantis) que poderão ter perdido a magia.
    Gostei do que li do Tempo Perdido, mas ainda não consegui ler o Ulisses de James Joyce.

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  4. A minha grande malapata é, ainda é, com Versículos Satânicos; tendo em conta a relação biunívoca que tenho com os livros, já me passou pela cabeça que há alguns que nada querem connosco, e a este, provavelmente, eu não agrado.

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  5. Engraçado... quando eu era alemã desdenhava os filmes alemães (havia um, Der Besuch der alten Dame, que me dava particular náusea entediante), agora que sou portuguesa ando com vontades revivalistas. Para livros difíceis... pois... eu sou alemã e sou portuguesa, dêem-me os anglo-saxónicos que acho os alemães e os portugueses particularmente difíceis...

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  6. "...com essa ajudinha dos especialistas..."

    Não percebi, importa-se de explicar melhor.

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