Vestir e despir
Os livros dão motivo para que, a seu propósito, se escreva sobre quase tudo, e apanhei há tempos um artigo bem divertido que os Booktailors divulgaram na sua newsletter sobre a importância de vestir personagens. Por mim, sempre embirrei com longas descrições de fatiotas, sobretudo em certa literatura americana que não consegue fugir ao número de botões de uma farda ou às camadas de tecidos que cobrem algumas damas. Mas, de facto, como referia a autora do texto de que vos falo, a descrição da roupa de uma personagem não serve apenas para encher linhas e fazer crescer a obra; ou seja, a roupa não é apenas uma coisa que se veste para que a personagem deixe simplesmente de andar nua. Se forem «vestidas» da maneira certa, as roupas podem ser quase tudo, a forma de descrever classes sociais, gosto, imagem, personalidade, enfim, um largo espectro de características e tiques, pertença a um grupo e muitas outras coisas. O que pode, assim, parecer inicialmente fútil e dispensável, pode também, na verdade, acabar por se revelar fundamental para que o leitor compreenda melhor certas acções das personagens. Porém, é preciso cuidado com as vestimentas na literatura – elas podem ser anacrónicas (e nos romances históricos vê-se muito anacronismo) ou simplesmente desadequadas para algumas criaturas (a autora do artigo cita um ridículo vestido de tule azul numa princesa de um romance de Edward St-Aubyn que já tem sessenta anos e certamente não se vestiria assim). Há sempre pessoas que estão atentas a certos pormenores e, por isso, todo o cuidado é pouco.
Todo o cuidado é pouco quando se escreve um romance histórico...
ResponderEliminarNem mais...Quanto a outros acessórios já se viram gladiadores romanos com relógios de pulso...
ResponderEliminarTexto interessante e que nos faz estar mais atentos.
ResponderEliminarSão gostos - de leitor... mas eu aprecio ler as longas e minuciosas descrições, das personagens (incluindo o que vestem), dos ambientes, etc. Pois para mim, ler é ver. Nada me desagrada mais do que um romance despido, portanto, em que não consigo ver e logo não consigo o quadro completo. Não gosto desse género de escrita... e diria que os grandes Mestres da Pena são tão exímios na pintura dos sucessivos quadros quanto em desenvolverem a acção, que aliás se desenrola no enquadramento.
ResponderEliminarDo ponto de vista do escritor, depende do seu estilo ou da escola... mas acho que os que escrevem "despidamente" são pobres, pois que a literatura não são apenas os conceitos e as mensagens, há muito de pintura mental num bom romance!
Saudações vestidas cá da Cidade Morena.
Hum... ajudem-me lá, a escrever melhor e correctamente:
EliminarParece-me que saiu calinada!
... a literatura não são apenas os...
ou
... a literatura não É apenas (OS - não faz ali falta) conceitos e mensagens?
Bom... a bonequinha da figura parece-me bem mais apetecível em fato de banho...
ResponderEliminarMas é verdade que as roupas caracterizam a classe social e até revelam a pessoa. Mais ou menos. Há muita aparência que não é. E muita gente que não veste o que gosta mas o que pode. No entanto, é verdade, dentro do que se pode, por vezes, ainda há escolha.
Concordo. Embora uma personagem não seja feita somente de sentimentos, ideias, pensamentos, ações e outros quejandos, a descrição minuciosa e exaustiva de aspetos físicos também não me agrada, sobretudo quando a sua função é meramente ornadora. Digo o mesmo dos diálogos. É preciso ler com atenção e desconfiança, porque as descrições e os diálogos também podem desempenhar uma função narrativa, não serem completamente inocentes, simples ingredientes com os quais se enche papel em branco.
ResponderEliminarABC
Extraordinário Anónimo... mas isso é, em minha douta e pretensiosa opinião, justamente o que distingue uma Obra de um romance vulgar... a arte do escritor ou melhor a sua maestria em preencher todos esses quesitos, de nos pintar um quadro que faça ver aquilo que ele quer e como quer, repito que aí reside a arte do autor!
Eliminar"Encher chouriço" se me permite o termo, colocando diálogos da treta ou descrições meramente retóricas, desprovidas de sentido ou de enquadramento, isso não é a literatura da que falamos aqui. Também há peritos nisso, em encher páginas de nada!
Há autores, dos bons, que até chegam a maçar pelo seu amor à descrição detalhada, mas são quase sempre grandes autores, sempre na minha pouco humilde opinião e me ocorrem - como a todos vós - nomes de obras e de autores assim. Por vezes é até moda, é como nas decorações das salas que podem ser minimalistas ou cheias de balangandãs por toda a parte... às vezes o minimalismo é a solução por falta de recursos e nem por isso uma opção.
Porém é como tudo... uma escrita despida, minimalista, pode igualmente ser uma boa escrita se tiver conteúdo, mas repito, para mim não basta o conteúdo pois aquilo que considero Grande Escrita é um quadro completo e bem preenchido, como uma sala victoriana, cheia de móveis, tapetes e reposteiros, estantes, prateleiras, sofás, mesas, piano, uma salamandra, livros, fotos, quadros, bibelots, estatuetas, um gato...
Enfim, romantismos certamente.
Saudações românticas cá da Cidade Morena.
Vi e apreciei o quadro pictórico que fez com palavras. Ainda estou a imaginar as "balangandãs".
EliminarABC