A melhor parte

 


Há histórias reais que davam mesmo bons romances – e, se forem histórias de romancistas, melhor. No ano passado, depois de anunciados os finalistas do Prémio LeYa, soube-se que dois deles eram namorados… Entre tantos originais a concurso, foi uma bela coincidência... Um desses escritores, o Paulo M. Morais, quis porém rever a sua novela e apresentar-me, em vez dela, um livro de não-ficção que tinha praticamente concluído. Era este Uma Parte Errada de Mim, de que hoje vos falo; e, quando iniciei a leitura, dei por mim, muitas horas depois, com mais de 150 páginas lidas sem ter feito uma pausa. Trata-de de um testemunho absolutamente notável (e nada lamechas nem sensacionalista, como às vezes acontece) sobre uma experiência terrível: no mesmo ano em que ficara sem emprego, se separara e tivera de voltar para casa de uma avó com quem vivera na infância, o Paulo descobriu de um dia para o outro que tinha um linfoma (a médica de família achava que era tudo uma depressão). Mas esta sua «parte errada», a cujo tratamento assistimos também neste livro, foi aquele desvio que o conduziu ao lugar certo e o ajudou não só a fazer um corajoso balanço de vida (o passado torna-se fulcral quando ignoramos se temos futuro) mas igualmente a corrigir muita coisa que lhe permitiu ir suportando os maus fantasmas e ir encontrando forças (e também alguém muito especial) para resistir. Uma Parte Errada de Mim, na tradição de livros como o de Rebecca Solnit de que aqui falei já (Esta Distante Proximidade), não é, pois, MAIS um livro sobre o cancro, mas uma reflexão magistral sobre a condição humana, que se lê com a fluência de um romance com final feliz. A não perder.


 


parte errada K5-3 3D.jpg


 

Comentários

  1. Parece-me interessante , o tema ...

    ResponderEliminar
  2. Depois do texto de apresentação, garantida a qualidade literária pela Maria do Rosário, vou ter que comprar e ler o livro do novo escritor Paulo M. Morais. E, quem sabe, farei o mesmo relativamente ao livro de Kalanithi "Antes de eu partir", apesar do seu trágico final em vez da cura. Para ir aprendendo a morrer seguindo o conselho de Cícero que escapou a doença debilitante e teve a sabedoria de expor as suas carótidas à lâmina do algoz que Roma lhe enviara.

    ResponderEliminar
  3. Cláudia da Silva Tomazi19 de setembro de 2016 às 05:45

    A melhor parte (assim) os são textos, creio ser facultativa. Independe de começo meio e fim.

    ResponderEliminar
  4. Já conhecia o Paulo das redes sociais e tinha-lhe admirado não só a escrita como a postura face à adversidade.
    Antes de escrever este livro o Paulo já tinha demonstrado entretanto merecer o conhecimento dos bons leitores.
    Que esta parte errada de si lhe permita outros voos.
    No fim de semana passado fui assistir no FIC (Feira internacional de cultura) a uma interessante conversa com quatro consagrados da escrita: Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Manuel Alegre e Francisco José Viegas.
    Queixaram-se os autores de não encontrarem nenhum autor dos recentemente lançados que os motivasse. Talvez desconhecimento!

    ResponderEliminar
  5. Gostei muito do romance sobre Abril. Tenho a certeza que vou gostar deste livro -ainda antes de o ler. É que eu e ele temos algumas coisas em comum- a nostalgia de uma avó de sonho é uma delas- e o Paulo é capaz de usar as palavras certas para dizer toda essa ternura .

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório