Ler em grupo
Às vezes fico estupefacta com o facto de duas pessoas jantarem juntas ao meu lado e não trocarem uma palavra durante toda a refeição, mas não pararem de fotografar os pratos e de os divulgar no Facebook para os «amigos» saberem onde e o quê estão a comer. Tenho a sensação de que nunca estivemos tão perto de toda a gente (a Internet ajudou) e tão – apesar disso – sozinhos. Leio, porém, uma notícia em sentido contrário, de que os clubes de leitura e as comunidades de leitores nunca foram tão numerosos em todo o mundo e que só nos Estados Unidos se estima em cinco milhões o número dos que fazem parte de uma ou mais destas «agremiações». Em Portugal elas também são bastante populares – cada vez mais – e algumas contam já com orientadores experimentados e participantes fiéis e têm até temas específicos que são tratados através de obras literárias ao longo de um ano ou de um semestre. Porque será então que as pessoas jantam sozinhas estando acompanhadas, mas gostam de ler em grupo quando a leitura é uma actividade que implica solidão, silêncio, concentração, recato? Pois não sei. Tenho ideia de que muita gente detesta ir ao cinema sozinha por não ter com quem comentar o filme no final; e, se calhar, também sente falta de ter com quem discutir os livros que adorou ler. Será?
Não me parece que as pessoas que jantam "sozinhas" sejam as mesmas que frequentam grupos de leitura, mas...
ResponderEliminarO que é facto é que todas estas "maquinetas" que nos cercam têm o condão de nos roubar os assuntos de conversa (e devia ser o contrário, trocar e comentar notícias e outras coisas)...
Creio que não tem a ver com solidões, e, sim com uma ânsia de comunicar o que se está a ver, a fazer e a sentir!
ResponderEliminarHá quem escreva pela necessidade de contar coisas aos outros... não será?
Ou porque é que se escreve então? Penso que a razão maior é esse desejo de contar, de comunicar.
Os homens primitivos deixaram imagens, era portanto já a vontade de mostrar, de comunicar.
A narrativa, oral, é igualmente parte da nossa história da humanidade e faz parte de sermos humanos, pois os animais não o fazem. Os povos mais simples cultivam essa narrativa no Mundo inteiro, nas selvas, savanas, estepes, desertos, nos gelos e nas mais inóspitas paragens.
Portanto, parece-me a mim que há uma propensão natural e muito humana para comunicar, para contar aos outros e o assunto mais comum e mais cómodo somos nós mesmos, as nossas sensações ou feitos.
O que hoje se passa é que por força desse afã de comunicar, que levou ao desenvolvimento actual das formas de o fazer que é em tempo real, omnipresente e fácil, se use e abuse do brinquedo novo. Não será?
Porque isso não atinge apenas os jovens, mas também pessoas de meia-idade e veteranos, que se renderam inconscientemente a essa facilidade... tenho amigos sessentões, reformados ou com pouca ocupação que me bombardeiam e a outros amigos, com mails mandados lá dos seus qualquer-coisa-fhone dotado de câmera e internet, com fotos suas no restaurante ou dos percebes que estão a comer, da praia onde estão e até dos "chsipes" estendidos ao Sol... chega a ser ridículo e é maçador!
Não sou por isso assim tão, crítico digamos, se bem que no fundo critique e não pratique. Mas também eu tenho um passado a escrever nas revistas de caça e pesca submarina, muitas vezes sobre as minhas próprias aventuras... às vezes planto no facebook uma ou outra foto que não me livra dessa faceta exibicionista - afinal sou humano e imperfeito.
Todavia, sim... pode ser demasiado e muitas vezes é demasiado, quando se torna um vício inconsciente, o de estar a toda a hora a comunicar com quem está longe, quando há pessoas perto e é tão agradável conversar, coisa que aliás aqui fazemos neste blog.
A mim faz-me falta conversar, sobre tudo e mais alguma coisa, mas conversar olhando o outro nos olhos, ouvindo, pensando e comentando, respondendo, retrucando ou contrariando... faz muita falta!
Não me parece que esteja em perigo a conversação, o que a mata não são os aparatos electronónicos de comunicação mas sobretudo a convicção de que se tem razão e que qualquer idéia diferente é fruto da ignorância do outro, e , isso é o que mais acontece actualmente. E aí sim, os aparelhos têm muita culpa porque promovem e facilitam esse comportamento.
Desculpem esta minha longa comunicação e monólogo, mas espero bem que lhes suscite a vontade de me responder! Assim se conversa...
Saudações coloquiais cá da Cidade Morena.
Também gosto muito de ler na solidão e no silêncio mas participar numa Comunidade de Leitores é muito bom, é muito estimulante. É tão bom participar nas discussões muitas das vezes bem acaloradas. deixo-vos aqui o link do nosso blog da Comunidade de Leitores da Rede das Bibliotecas de Loures. Em breve recomeçará a nova edição desta vez dedicada aos Policiais.
ResponderEliminarhttp://bmjscomunidadeleitores.blogspot.pt/
Saudações literárias.
Rita Pitada
Confesso que a idéia de um clube de leitura também me parece por princípio, estranha! Mas, se pensar melhor e com mais clareza, tratando-se de leitura temática, faz todo o sentido...
ResponderEliminarFaz sentido ler e analisar em conjunto textos temáticos, e mais, deve ser extremamente interessante interpretá-los e discuti-los!
Já fiz parte de um clube de leitura da universidade sénior que frequento e cheguei a participar da análise e leitura da obra "O Anão" do nobel sueco Par Lagerkvist. Esse clube está suspenso por razões pessoais mas espero que ressurja no próximo ano lectivo. Quanto ao cinema depende. Já me aconteceu assistir a uma sessão de cinema no Corte Inglês e ser o único espectador a ver o filme " O Véu Pintado" baseado na obra de Sommerset Maugham e passado na China dos anos vinte; foi mesmo uma sessão privativa, adorei; sem pipocas e toques de tlms inoportunos. Já nas sessões da Cinemateca gosto de ver acompanhado especialmente os clássicos americanos. Em casa gosto de disfrutar os DVD sózinho e quanto à leitura a mesma coisa. No que respeita á incomunicabilidade é ver o que se passa nos transportes públicos (metro e bus); ninguém fala com ninguém, cada um entretido a ouvir música nos headphones, a jogar ou a escrever mensagens nos tlms; é raro ver uma pessoa a ler um livro. As novas tecnologias vieram agravar o problema ou a minha percepção está errada? O director da Porto Editora dizia há tempos que a juventude a partir de certa idade deixa de ler agarrada ás novas tecnologias, passa a ter outros interesses. Seria interessante saber, através de inquérito fiável, qual a média de livros anual que cada português lê. Os noruegueses parece que lêem 16 e nós? Eu tenho feito uma média de 35 e quero ver se chego aos 50 quando me reformar.Fica a sugestão.
ResponderEliminar" Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco."
ResponderEliminarMia Couto
Creio que será a ideia de ser ouvido e de partilhar ideias sobre o objecto de leitura. Tem contrapartidas positivas: treina a atenção dos ouvintes dado que a discussão depende do que se ouve. E torna-se interessante observar quanto um texto pode ser polissémico. E ensina a ouvir e respeitar os outros. Infelizmente, do que conheço, os membros não são muito jovens. Mas pode ser erro meu, que conheço poucos clubes do género - na verdade só dois.
ResponderEliminarTambém pode ter interesse discutir uma obra previamente lida. E mais vejo na discussão os leitores que o livro. É como se ele seja pretexto. O que, sem desprimor para as actividades, me faz pensar se não é uma forma de buscar ouvintes. Ou de conviver. Ou de ocupar tempo de forma mais salutar para a mente. Coisa de quem não se conhece e não se quer conhecer sob outros pontos de vista e quer ter assunto (também pode acontecer). E mais que devo ir ler nos outros comments.
Bom. Mas, se leva quem não lê ou lê pouco a ler mais, avante!
Ora bolas, não me agrada muito ser anónima. É nome pior que o meu.
ResponderEliminarBoa noite,
ResponderEliminarO tema de que hoje fala a Maria do Rosário Pedreira toca-me particularmente, uma vez que sou desde 2006 orientador de uma Comunidade de Leitores, neste caso na Biblioteca Municipal da Maia, função que exerço por prazer e paixão pela leitura, uma vez que o faço enquanto voluntário.
Este ano uma das formas de celebrarmos os dez anos de existência passa pela realização do Primeiro Encontro Nacional de Comunidades de Leitores de Bibliotecas Públicas, que decorrerá em 22 de Outubro de 2016 na Maia.
Deixo aqui o convite a todos os leitores, porque partilhar a nossa leitura individual com outros é, de certa forma, uma outra forma de ler, uma segunda leitura.
Pela minha experiência, aprendi muito com os leitores com quem partilhei leituras.
Bem hajam!
Jorge Silva
Boa noite
ResponderEliminarEu gosto de ler sozinha. Na minha calma, leio bem devagar, por vezes tenho que andar para trás um paragrafo ou outro. Mas quando o livro me preenche, adoraria ter alguém ao meu lado que já tivesse lido e assim partilhar histórias da "nossa história". Por isso gosto tanto de emprestar os livros que gostei de ler, espero sempre algo em troca.
Suzana Silva