Regresso ao passado
No ano do centenário de Vergílio Ferreira, decidi levar para férias, entre muitos outros livros, Até ao Fim, um romance publicado no final dos anos 1980 que, sei lá porquê, nunca tinha chegado a ler. Mas este meu reencontro com o autor de Aparição ou Manhã Submersa foi bastante estranho e não creio que isso tenha que ver com o facto de só ter lido Vergílio até aos vinte e tal anos e ter agora outra experiência de leitura e outra maturidade. Não. Até ao Fim (uma «conversa» entre um pai e o seu filho morto sobre a vida, as mulheres, a família…) é, se quisermos, um romance que terá sido moderno na sua época – arrojado, até – mas que hoje não consigo deixar de ler como qualquer coisa que inequivocamente passou de moda. Não me interpretem mal (Vergílio é sempre Vergílio e li-o «até ao fim»), mas, talvez porque tantos o tenham copiado (ainda hoje consigo ver aonde certos jovens escritores foram buscar meia dúzia de maneirismos), fica difícil apreciar a frase quebrada, a falta de pontuação, os tiques que na altura em que o livro foi publicado certamente seriam uma invenção prodigiosa, uma inovação estilística, mas que agora simplesmente me parecem um tudo-nada datados. Já me preparo, de resto, para um dia destes voltar a Aparição, uma obra mais clássica, para provar que o mestre é o mestre e que muitas das suas obras são realmente eternas. Até porque posso estar enganada nesta minha apreciação.
Por estranho que pareça, tenho-os e ainda não li nenhum.
ResponderEliminarTambém prefiro a "Aparição", sem dúvida! Parabéns por este espaço.
ResponderEliminarE eu gostei tanto do Até ao Fim, está mesmo entre os meus favoritos - e li quase todos os livros do Vergílio Ferreira.
ResponderEliminarJá foi há muitos anos, não sei o que vou sentir na releitura que tenciono fazer...
:-) Antonieta
Um regresso ao passado sem dúvida, com o qual me identifico pois também li Vergílio Ferreira na minha adolescência!
ResponderEliminarConfesso que me marcou, é claro, mesmo que na altura o não tenha percebido a não ser pela sensação e angústia provocada, aliás com toda a lógica. Gostaria de o voltar a ler, pois um encontro com um velho amigo como o são os romances lidos, é sempre pôr a conversa em dia!
Vergílio Ferreira é um escritor que para mim tem esse maravilhoso condão de conseguir colocar nos seus romances, a sua própria vivência e as experiências, talvez por isso seja tão bom, não apenas no estilo e na forma mas sobretudo pelo que transmite: fala à alma!
E consegue-o, sendo denso mas não pesado, sendo triste mas não soturno, sem nos dar aquela sensação de que está a exorcizar os seus fantasmas, nem depressivo, está apenas a usar e a jogar com as sensações e os sentimentos que conhece na primeira pessoa. Faz-nos sentir e pensar, não nos deprime!
A muitos escritores falta-lhes isso, e depois vão buscar aos Vergílios o que não têm, ficcionam, imaginam e até conseguem porque escrevem bem, editar obras de sucesso. Não é uma crítica, é apenas uma constatação que para mim faz a diferença.
Saudações Vergilianas e vividas cá da Cidade Morena!
EliminarPois eu prefiro a raiva!
A dor é um demónio que se permite obscenas promiscuidades com o humano, enquanto o consome e martiriza.
Quando nos decepam uma parte do corpo, ficamos ali, inertes á espera num lago de dor.
A dor não permite ação, só uma submissão absurda.
Prefiro a raiva e não peço desculpa!
Nestes tempos em que se usa afagar as depressões e tristezas em dolorosas obras literárias como signos de uma intelectualidade doentia.
Quiçá por tão insalubre gosto, não conseguimos obter os tão almejados prémios internacionais?
A dor iguala-nos, é bem verdade, mas tenho pena daquele que para sentir, tem e apenas, de sentir dor!
Tão verdade!!! Livros que foram tão importantes para nós quando os lemos em jovens, e anos depois...
ResponderEliminarA mim aconteceu-me isso há uns tempos quando reli "A Cidade das Flores" do Abelaira...
Não releias a "Aparição" .
Nunca voltes aos livros onde foste feliz.
Bjs
Este post da Rosário só demonstra como o parecer, até da modernidade, é tão relativo, tão pessoal, tão infinitamente difícil de definir. Assim, como é difícil o trabalho de quem necessita de perceber "em que pé anda o gosto" colectivo. Estando numa fase onde só cabe a leitura integral de Saramago, Cardoso Pires e outros "modernos", bem como estando à espera do Godot "especialista" que formatará o sentido de possibilidade da "minha" tese, dou por mim a pensar se a liberdade neste mundo não é uma quimera, apesar de todos os encómios e de todos os nomes que se dão aos tempos em que vivemos: modernidade!
ResponderEliminarEste post da Rosário só demonstra como o parecer, até da modernidade, é tão relativo, tão pessoal, tão infinitamente difícil de definir. Assim, como é difícil o trabalho de quem necessita de perceber "em que pé anda o gosto" colectivo. Estando numa fase onde só cabe a leitura integral de Saramago, Cardoso Pires e outros "modernos", bem como estando à espera do Godot "especialista" que formatará o sentido de possibilidade da "minha" tese, dou por mim a pensar se a liberdade neste mundo não é uma quimera, apesar de todos os encómios e de todos os nomes que se dão aos tempos em que vivemos: modernidade!
ResponderEliminarNão é dos meus favoritos. Li alguns como "Alegria Breve", "Para Sempre" e alguns volumes da Conta-Corrente. "Aparição" foi escalpelizado no ano passado na aula de Literatura Portuguesa da Universidade Sénior que frequento.
ResponderEliminarVergílio Ferreira será sempre o "meu" autor português. Concordo que se lê sempre de maneiras diferentes, mas são sempre obras arrojadas.
ResponderEliminarEnganadíssima, como sempre.
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