Duplicidade

O escritor irlandês John Banville ganhou o prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias e esteve recentemente em Espanha para o lançamento do seu último romance, tendo sido entrevistado pelo El Pais. Falei dele aqui no blogue não há muito tempo por escrever romances literários com o seu nome e policiais com um pseudónimo (Benjamin Black), mas não sabia que a sua vida era dupla noutros sentidos. Pois bem, na entrevista ao El Pais, Banville revela que tem duas mulheres, uma com quem se casou há mais de quarenta anos e com quem vive metade da semana, outra que é sua companheira há mais de vinte e com quem vive o resto do tempo. Tem dois filhos de cada uma, os dois primeiros já nos quarentas, os mais novos com vinte e seis e dezanove. Ama ambas as mulheres e não parece ver necessidade de prescindir de qualquer delas. Elas não se conhecem – nem querem conhecer-se, ao que parece… Quanto à pergunta sobre o que distingue a literatura inglesa da irlandesa, Banville diz que é a língua; mesmo que muitos escritores irlandeses não escrevam nem falem já gaélico, a verdade é que a gramática está interiorizada, e o irlandês é uma língua muito mais poética, na qual não existe, por exemplo, a palavra «não» (mas apenas, citando Banville, «it is not so»), o que torna a literatura irlandesa também mais ambígua; Banville diz que os ingleses – que gostam de ser claros e directos – não pescam nada dessa ambiguidade e acham que os irlandeses escrevem assim porque não os conseguem imitar… A respeito da Europa, o romancista diz que a crise a destruiu, mas que, ao contrário de muita gente, ele não se importa de que seja governada por burocratas, gente que trabalha das 9 às 5 e vai depois para casa comer, ver um filme ou ler um livro. Cito-o: «Sempre que alguém tem uma grande ideia, quer matar judeus, ou muçulmanos. Essa é que é a gente perigosa. Os burocratas são os que melhor governam, e a Europa estava perfeitamente burocratizada. Os burocratas não fazem guerras, é a gente com grandes ideias que faz as guerras.»

Comentários

  1. Estou neste momento a ler um livro dele "Imagens de Praga" e começa logo com um viagem à dita cidade antes da queda do muro de Berlim, na companhia de 2 mulheres.
    Com mais esta informação fiquei a gostar do escritor. A opção de 2 mulheres é com eles, ele parece muito em paz com a situação, mas gosto bastante da forma como ele defende a "língua" irlandesa e como resume os perigos do mundo. Burocratas ao poder e podemos-nos dedicar às Artes e Cultura.
    Se o tipo fôr muito chato em casa, pelo menos cada mulher descansa das suas atitudes metade da semana. Um personagem!

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    1. Essa de Banville visitar Praga na companhia de duas mulheres deve ser criação literária do autor porque, como a Maria do Rosário refere, e eu também li no El País, a mulher "de papel passado" odeia "a outra" e não convivem. A não ser que o Banville tenha visitado Praga acompanhado um dia por uma e no outro dia acompanhada pela outra.

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  2. (o "Anónimo" sou eu, abaixo identificado)
    Parece-me que o Banville ao falar das duas mulheres está a vender livros. Adorei "O Mar" e também vários dos policiais de Benjamin Black. Quase que estou também de acordo com ele sobre a vantagem de a nossa vida pública ser gerida por burocratas em vez de por ideólogos (e, afinal de contas em Portugal, os governantes pouco mudam a nossa vida pública). É provável que compre este último romance do Banville quando sair em Portugal.
    Gostei muito de uma citação que o Banville faz nesta entrevista do El País de um seu amigo escritor, cujo nome não retive, que diz que a criação literária se divide em prosa e verso, podendo (ou não) haver poesia em ambos os géneros. Que bem apanhado !

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    1. No livro de Praga ele encontra-se em Trieste com a J. e a G. Calculo que a J. será a Janet, a primeira mulher. E depois partem para Praga.
      Ainda estou no início, não sei se as 2 se irão chatear ou acabar sozinho na cidade.
      E concordo consigo sobre os ideólogos.
      Agora até o "Mein Kampf" saíu para venda e a dar algumas ideias a alguns. Veremos o futuro próximo.

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    2. Mein Kumpf e O Manifesto Comunista. Vantagens e desvantagens do Domínio Público, em que as obras passam a estar disponíveis, sem Direitos de Autor.
      O problema não são as ideias, mas as ideologias...

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  3. O grande Banville! Essa situação das duas mulheres e outras "cenas" relacionadas, por acaso e por mero acaso eu já sabia há muito, pois sou amiga do amigo de infância dele, o único amigo de infância que conserva. Esse senhor convive connosco quando está em Portugal. Vive ao pé de nós.
    O mundo é pequeno.
    Isto que eu disse foi só uma curiosidade pois, na realidade, não tem o menor interesse.
    Quando J. Banville jantar lá em casa, eu aviso.

    Cristina Carvalho

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  4. António Luiz Pacheco14 de janeiro de 2016 às 05:52

    Nunca tinha pensado nisso, mas é Extraordinário!

    Os burocratas não fazem guerras, mas sim quem tem as grandes ideias!

    Parece-me ser inteiramente verdade... só que se calhar quem idéias e faz guerras também cria e faz muitas outras coisas boas, ou não será?
    Se ficarmos entregues aos burocratas não passamos a viver na pasmaceira? No desinteresse de que se falava ontem relativamente aos jovens?

    Afinal é esse o desejo dos políticos, burocratizar, manter o status quo e ter toda a gente mansinha, desinteressada e arrumadinha a viver casa-trabalho das 9 às 5, sem haver problemas... é o paraíso!

    Já agora, uma observação que me espantou:

    Romances literários e romances policiais?
    Vejamos, o género policial não é literário? Creio que o autor referido prova o contrário, que policial é igualmente literatura...

    Saudações anti-burocráticas e literárias cá da Cidade Morena!

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  5. Nunca liguei a Banville, mas vou ficar atento e não será por causa das mulheres. Achei curiosa a visão sobre os burocratas, gente que aparentemente não se mete em guerras. É errada, no entanto, e basta lembrar Hanna Arendt e Eichmann: o nazismo estava cheio de burocratas. Outra coisa que me atraiu foi o "irlandês" como "língua" distinta face ao inglês propriamente dito, pois sempre me espantou como os irlandeses, tão distintos e senhores do que é seu, deixaram cair a sua língua. Nisso, honra aos catalães, ou aos galeses.

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