Desbocados e inteligentes
Chama-me a atenção o título de uma notícia publicada recentemente no Jornal de Notícias: «Dizer palavrões é sinal de inteligência.» Na verdade, como não conseguia encontrar nenhuma relação entre ser desbocado, insultuoso, agressivo e inteligente, lá tive de ler o artigo de fio a pavio para ficar a saber do que se tratava. E, bem, não era exactamente o que se vendia no título – como, afinal, acontece hoje tantas vezes nos nossos jornais, que apregoam o falso só para nos atrair para a leitura; o que se dizia era que, embora tendamos a associar o uso do palavrão a pessoas com baixo nível intelectual e mal-educadas, aquelas que têm o QI mais elevado são as que efectivamente conseguem dizer mais palavrões em sessenta segundos (o que não equivale a dizer que usar palavrões seja sinal de inteligência). Tanto quanto percebi, as pessoas mais inteligentes são as que conseguem, em sessenta segundos, dizer mais nomes comuns, mais nomes de animais e… mais palavrões, segundo um estudo sobre fluência vocabular realizado por dois psicólogos americanos. Portanto, talvez o título da notícia devesse ser a relação que existe entre inteligência e fluência vocabular – seria mais honesto, embora, claro, talvez não atraísse tantos leitores curiosos; e, quanto a esta conclusão dos psicólogos, tenho também muitas dúvidas sobre a sua validade: é que conheço muitos tímidos que, numa prova deste tipo, não seriam capazes dizer um monte de palavrões em sessenta segundos, embora seguramente os conhecessem. Os tímidos terão um QI inferior? Não me parece.
Bom dia. Desde há meses que leio religiosamente os seus textos ou artigos, enfim, as suas reflexões, que considero sempre muito interessantes. Inicialmente ainda as comentava, mas depois preferi remeter-me à condição do leitor anónimo e silencioso. Novo ano, novas práticas, talvez - veremos. De facto aborrece-me um bocado, para não dizer outra coisa e, porventura, deixar escapar um palavrão, que não faria de mim, estou certo, pessoa mais inteligente, esta propensão para o sensacionalismo que nos vendem porque, na verdade, compramos com um disfarçado entusiasmo. Talvez cada vez me interesse cada vez menos a perspectiva do Mundo que muitos nos dão e que eu prefiro ignorar. Prefiro olhar para ele, analisar e concluir por mim mesmo. Há muitas formas de dizer palavrões. Sinto-me insultado com a forma como me sinto tratado por tanta dessa gente inteligente que educadamente nos engana e nos vende mentiras. Embrulhadas em papel de rebuçado. Bem haja. Um abraço.
ResponderEliminarOutra vantagem da riqueza vocabular: diminui o nível de violência física nos conflitos interpessoais, demonstrou um estudo sociológico francês. A despropósito: comprei ontem à noite o "A de Açor" por ter lido o post da MRP e a crítica do "El País". Fiquei intrigado com a tradução do título: porque não "F de Falcão" ? Possivelmente estará explicado no interior do livro, que ainda não desfolhei, esta escolha tradutiva. Eu, açoriano, até gosto do título, mas...
ResponderEliminarAutor do comentário "Anónimo":
EliminarSe eu fosse a si, anónimo extraordinário, não desfolhava o livro.
EliminarConcordo com o inteligente conselho que dá o prudente Francisco.
EliminarÉ que – já que estamos numa de linguagem desbocada – desfolhando-o, o Artur f*** o livro todo.
Desfolhar, no sentido do "follar" castelhano ? Ou por qualquer outra razão ?
EliminarOs livros folheiam-se... As árvores desfolham-se...
EliminarMas é comum esta confusão.
Obrigado pela erudita lição, que reterei.
EliminarAhahahahah!
EliminarGostei desta curta troca de informação, e já agora em jeito de erudição continuada, não sendo embora especialista em altanaria, sei que o falcão e o açor são tidos como aves diferentes... o falcão é de alto vôo, paira no alto de onde detecta os alvos e apresando em queda (mata pelo choque) aves que vôam em espaço aberto! O açor pelo contrário, apresa aves/mamíferos que se encontram nas clareiras de zonas arborizadas, detecta-as estando poisado numa árvore ou ponto elevado e tem a capacidade de voar por entre os espaços para as seguir e apresar. Curiosamente não há açores neste belo arquipélago com o mesmo nome, mas sim milhafres!
O açor e o falcão são muito diferentes como se entende, sendo o primeiro considerado mais nobre e especializado e o segundo mais polivalente.
O uso das aves de presa na idade média esteve devidamente regulamentado consoante a classe social do seu dono, o falcão só podia ser usado pelos estatutos mais elevados...
Sabiam?
Saudações falcoeiras e passarescas cá do Bairro Ribatejano!
Obrigado, caro António Luís Pacheco ! Estou sempre a aprender. A partir de ontem passei a dizer folhear livros (em vez de desfolhar). Hoje aprendi consigo a diferença entre açor e milhafre (e também o estatuto de nobreza do falcão). Tem graça que na minha infância na ilhinha de Sta. Maria nós chamávamos às aves de rapina milhafres e nunca açores. Estávamos corretos (sem o sabermos).
EliminarMuito estudo se faz Santo Deus. Bolas, logo sou tão monocórdica quanto ao assunto! Mas não acredito que aos tímidos não salte a tampa como aos outros. E duvido que a riqueza vocabular seja proporcional ao número de palavrões que se conhece. Os poucos que sei já me chateiam o suficiente, não vejo que aumentar o naipe me possa salvar de alguma coisa. Pronto, mas são um escape quando estamos chateados. E uma vez ouvi um psiquiatra dizer na TV - não me lembro a que propósito - que podia sempre recorrer a uns palavrões (na altura não percebi para quê e achei a conversa meia esquisitóide). Mas vivemos aprendendo. Pode ter razão, o senhor.
ResponderEliminarEu, porque assim fui educado, detesto/abomino palavrões.
ResponderEliminarMas o que faz a nossa televisão senão "ensinar" diariamente aos portugueses senão palavrões? quando abro a televisão não oiço outra coisa que não sejam palavrões/asneiras. E atenção, infelizmente, a televisão tem o poder de educar um povo, daí a miséria intelectual em que o nosso vegeta.
Também fui educado a não dizer palavrões, aliás, era pecado. Mas depois estive internado num colégio e logo nas férias de Natal tinha que vigiar-me para não os dizer a propósito de tudo e de nada.
EliminarASeverino: Ainda vou no princípio d'"O Livro dos Peixes de Gould " e o que posso dizer-lhe é que é uma forma original de escrever sobre situações extremas de violência, opressão e humilhação que, para que se poder sobreviver, são apresentadas como "coisas que acontecem". Intercala trechos sarcásticos e críticas ferozes. Também o vou lendo como o processo do colonialismo inglês.
Quando calha digo um qualquer palavrão que me alivie, o que, reconheço, é mais nortenho.
ResponderEliminarBom, é então garantida a esperteza saloia, e a das peixeiras... ahahah! E de um modo geral todo o pessoal nortenho, tripeiros e minhotos, dado que o chamado palavrão é de uso corrente... nem de propósito, fui ontem a Braga ao jantar de início de ano da Confraria da Camama, e caramba, o pessoal de famalicence e bracarense tem de facto a língua ágil! Até numa volta que démos, deparei com o menu num snack bar, escrito a giz num quadro cá fora, anunciando logo como especialidade "tosta do caralho" ...
EliminarAhahahah!
Saudações vernáculas cá do Bairro Ribatejano.
É um bocado isso, amigo Pacheco, de meio Portugal para cima muitas dos palavrões não têm a carga que têm no sul e quando desci à capital, há umas décadas, dei por mim a ter de me refrear.
Eliminar