Policial real

Eu cá acho que uma história ligada ao desaparecimento de editores e livreiros numa determinada cidade daria um bom policial, mesmo que não consiga dizer assim de repente quem poderia ser o responsável por essa «evaporação» (dependeria da cidade, claro). No entanto, a história não é nenhum enredo de um autor imaginativo , mas um facto infelizmente bem real. Uma editora de Hong Kong – até há pouco tempo um dos lugares mais «livres» e «a salvo» na China – especializou-se na publicação de livros provocadores sobre algumas figuras gradas de Pequim, denunciando, por exemplo, os gastos das elites no poder. E, como numa história policial, os seus donos e funcionários têm vindo a desaparecer de forma misteriosa. O primeiro – co-proprietário da editora – levantou a suspeita de que a sua ausência não fora voluntária ao deixar na mesa da cozinha uma caixinha com os remédios que tomava diariamente, já separados por refeições, e ao comprar nesse dia alimentos perecíveis, o que não faria sentido se fosse de viagem. A suspeita foi confirmada quando, depois dele, sumiram outros três responsáveis da editora em seis dias apenas, qualquer deles supostamente durante uma viagem à China continental. Entretanto, as famílias receberam telefonemas estranhos dos desaparecidos, que lhes explicaram, em termos muito vagos, que estão a ajudar numa investigação em Shenzhen; mas, como um deles falou mandarim em vez de cantonês, o que não é habitual, a mulher percebeu ser um sinal de que havia coisa, sobretudo porque o passe que permitiria ao marido viajar de Hong Kong para Shenzhen ficara lá em casa. Pois bem, em Hong Kong já perceberam o que aconteceu e milhares de pessoas manifestaram-se para pedir a libertação dos editores. Não está de fora a possibilidade de um conflito envolvendo mais países, até porque um dos desaparecidos é cidadão sueco e outro tem passaporte britânico. Veremos o que acontece. Parece de filme.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco20 de janeiro de 2016 às 02:26

    Não admira... os regimes totalitários agem assim, como bem se sabe!

    A China é uma ditadura comunista, travestida claro, em que a elite derivada da classe dirigente passou a ser aparentemente de homens de negócios, mais ou menos intocáveis enquanto trabalharem para o bem comum da elite, se se afastam dela, passam a ser corruptos e são presos, pelos outros que se mantêm sentados nas cadeiras do poder e acima de tudo e todos, beneficiando do esforço comum...

    Isto daria "folhas para livros" (versão literária do adágio "pano para mangas"), e claro que seria um tema Extraordinário para se romancear.

    Mas é perturbador saber que tais coisas acontecem e são possíveis, e pior: pela mão de governos! Todos sabemos coisas que a CIA ainda faz, (num país dito o modelo da democracia e liberdade) e por aí fora... ainda ontem estive a ver um excelente filme da série "Jason Bourne" inspirada nesses factos.

    Os livros são uma arma poderosa na expressão e divulgação do pensamento e do saber, eis mais uma vez a prova irrefutável.

    Saudações angustiadas da Cidade Morena

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  2. É uma notícia tenebrosa. Oxalá os cidadão de Hong-Kong se mantenham firmes !
    Tenebroso, mas sobretudo perverso, foi para mim ler no Babélia as declarações de um romancista chinês que retrata nas suas obras aspetos podres do regime e que por isso se vê marginalizado. E não só pelas autoridades políticas: os seus colegas não lhe falam porque escrevem romances delicodoces que são best-sellers apoiados pelo regime que promove a sua leitura e os torna ricos.
    E no final, o dinheirinho é que conta, não é ?
    É o regime consumocomunista mostrando o seu esplendor cultural ! Nas democracias ocidentais chega-se lá por outras vias, mais sofisticadas talvez, mas com os mesmos efeitos.

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  3. António Luiz Pacheco20 de janeiro de 2016 às 07:11

    Já aqui advoguei por diversas vezes a leitura de duas obras fundamentais para a compreensão e reflexão da questão chinesa (e não só...):

    O Último Europeu - Miguel Real
    A Pilhagem de África - Tom Burgiss

    Se o primeiro, brilhante pensador contemporâneo, ficciona com uma aproximação à realidade que arrepia, o segundo, credenciado jornalista que fez uma exaustiva investigação, chama os bois pelos nomes e explica como aparece a tal elite chinesa... o pior é o que eles andam a fazer!!!! Não serão os únicos, mas isso não serve de atenuante...

    Saudações de olhos em bico cá da Cidade Morena, invadida pelos filhos do celeste império!

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  4. Mas como não é filme, a mim parece-me muito grave. Mesmo.

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