Leituras visuais

Quando vou a escolas falar sobre livros e leitura com crianças e adolescentes, não costumo apoucar nenhuma forma de arte em benefício da literatura; mas também é verdade que, uma ou outra vez, não resisto a dizer como ler pode, de facto, estimular a imaginação como nenhuma outra actividade. Num filme, a rapariga loira está lá para a vermos, tem a cara daquela actriz precisa que desempenha o seu papel. Num romance, no entanto, cada leitor vê a rapariga loira do texto com um rosto diferente, com características que o seu cérebro desenha e são diferentes das do seu melhor amigo, aquele com quem tem mais afinidades. Claro que, depois da popularidade do cinema, de vez em quando pomos caras de actores e actrizes em determinadas personagens de romances (uma vez, o próprio autor de um livro que publiquei e eu achávamos que Keira Knightley era mesmo a carinha de uma rapariga que entrava na história); mesmo assim, essa coincidência é menos vulgar do que se possa imaginar – e é muito bom termos a liberdade de «refazer» na nossa mente todos os protagonistas dos romances e contos que lemos. Recentemente, soube que Dostoievsky, enquanto escrevia, desenhava (rabiscava, pelo menos) as suas personagens; esses desenhos são, de resto, frequentes nos seus cadernos, nos quais os rascunhos de romances se fazem acompanhar de esboços de homens e mulheres, repetidos em poses diferentes ao longo das páginas. Li que talvez publiquem uma versão de Crime e Castigo com bonecos... Pois eu cá prefiro não ver tais figuras, agora que já fiz na minha cabecinha os retratos dos seus heróis. Tenho a sensação de que iria ficar desiludida, pensar que não correspondem ao que me lembro, exactamente como acho determinado actor mal escolhido para representar uma personagem que apenas conheço do «papel». Deixem-nos visualizar à nossa vontade.

Comentários

  1. Concordo.

    E sim, as imagens do cinema são facilmente transportáveis para os livros.

    Também dá jeito fazer o "retrato" da personagem, para não lhe mudarmos a cor dos olhos, a estatura ou a largura, a meio da história. :)

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  2. Recentemente, numa tertúlia da comunidade de leitores LERDOCELER , falou-se de O LEOPARDO e, claro, do filme do Visconti . Vários leitores declararam que, AGORA (depois da leitura e do debate), não queriam ver o filme para não apagarem e substituírem as imagens com que tinham ficado.

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  3. Engraçado... nunca dei figura precisa às personagens de romance. Acho que lhes salto sobre a parte mais física e me fixo nas manias e pormenores de personalidade a que encontro maior interesse.

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  4. Pois estou neste momento em leitura de Crime e Castigo e penso que de facto não gostaria de ver as personagens retratadas... mas os cenários dos quartos miseráveis e dos momentos apoteóticos do desenrolar da história dariam mais algum tempero a uma leitura bem condimentada.

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  5. António Luiz Pacheco6 de janeiro de 2016 às 07:14

    Extraordinário!

    Pois eu sou dos que "vêem", ou melhor desenham na imaginação tudo o que leio, sejam os personagens, sejam as casas e cómodos, as paisagens, objectos e demais detalhes descritos...

    É para mim um dos grandes encantos da leitura, dar-me essa possibilidade criativa que o cinema me rouba totalmente pois o que está na tela não me alimenta a imaginação!

    Mas isto cada um é como cada qual e ninguém é como evidentemente, segundo dizia o Parafuso.

    Acreditam que me ponho vezes sem conta a imaginar como serão físicamente os Extraordinários???? Ahahah!

    Saudações imaginativas cá do Bairro Ribatejano!

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  6. As imagens do cinema são sempre, para mim, uma enorme desilusão relativamente às que criara quando lera o livro.

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  7. Penso que todos nós que gostamos de ler, imaginamos cenários e damos corpo às personagens das histórias.
    Há uma obra de Peter Mendelsund que trata o tema, quanto a mim, de forma magistral: O QUE VEMOS QUANDO LEMOS.

    Boas leituras e Bom Ano para todos os extraordinários

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