Emoções e palavras

Leio uma entrevista bastante curiosa com a historiadora cultural Tiffany Watt Smith, autora de uma obra que quero ler: The Book of Human Emotions. Embora haja grandes dissensões a respeito da forma de definir as emoções, há, pelos vistos, também dois pontos consensuais: a de que uma emoção (tédio, raiva, angústia, etc.) é uma coisa puramente individual, mas a de que, por outro lado, as emoções são experimentadas colectivamente, partilhadas com os outros e, além disso, vividas de forma diferente se estivermos em Portugal (onde «saudade» é, segundo muitos, palavra intraduzível) ou na Coreia (onde «han» é um estado que representa tristeza e esperança simultaneamente, sem expressão noutras línguas). Mas os tempos também definem as emoções: no século XVIII ainda se morria de nostalgia (repare que «algia» quer dizer «dor»): as pessoas sentiam tanta saudade de casa que, além da melancolia, tinham febres, não eram capazes de comer e acabavam por definhar e morrer; há cem anos, porém, que nenhuma certidão de óbito regista esta causa de morte, talvez porque viajar (ir e voltar) se tornou muito mais fácil e, com telefone e computador à mão, podemos contactar aqueles que nos fazem falta. Nos dias de hoje, a obsessão com a felicidade, diz Tiffany Watt Smith, é quase a mesma que existia no século XVI com a tristeza que, na Renascença – pasme-se! –, chegou a estar associada ao génio e era talvez por isso procurada por muitos. Diz ainda a historiadora que ter palavras para o que sentimos é meio caminho andado para entendermos e resolvermos certas emoções – e dá o exemplo do jovem termo «homefulness» que quer dizer qualquer coisa como «virar a esquina e saber que se está perto de casa», ou seja, um misto de alívio e sentimento de pertença. Coisas interessantes que é bom saber.

Comentários

  1. Ainda que não goste do sentimento associado, gosto bastante da intraduzibilidade de Weltschmerz. Cada língua os seus sentimentos e sensações.

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    1. Mas então, ainda que não goste dele, diga-nos ao menos qual é o sentimento associado a "Weltschmerz". Só por curiosidade.

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  2. Ora, «conhecer» as emoções, saber explicá-las e entendê-las; perceber que a natureza de muitas delas é fugaz e nem sempre «palpável», mas sem dúvida nenhuma impressiva é algo que também se adquire lendo. Por isso, uma das coisas mais importantes, para mim, da leitura destes pequenos textos é, precisamente isso: a possibilidade de entender. Obrigado por isso.

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  3. Vão-me perdoar, mas desconhecia que houvesse historiadores culturais... já a antropologia, sim, divide-se em física (trata das características físicas que hoje se tentam apagar em nome de uma hipocrisia chamada anti-racismo, mas que diferenciam os seres humanos) e cultural, no sentido de estudar o que se faz no dia-a-dia e também permite conhecer o ser humano.
    O pior é que os estupores dos cientistas têm a mania de classificar e ordenar tudo, e a malta hoje quer ser toda igual...

    Suponho que o estudo das emoções tenha menos a ver com a história (embora não de uma forma absoluta) e mais com a antropologia em ligação à psicologia... se bem que a vertente histórica seja e como em tudo, fundamental para esse entendimento, no sentido de se enquadrar ou contextualizar.
    A antropologia e a história aliás cruzam-se constantemente, sobretudo quando se trata de eras mais remotas.

    Morria-se de nostalgia... ou de melancolia se preferirem, ora, e o que são as profundas depressões que levam as pessoas ao fundo de negros buracos, do suicídio, drogas, alcoolismo... e as mata também? Claro que não fica bem, não é moderno nem progressista morrer de tal causa, mas se for por um síndroma depressivo ou qualquer outra coisa sonante e nunca ouvida, isso é o máximo! Até apetece...

    Antigamente morria-se como hoje, "deu-lhe uma coisa", "de febres", "do coração"... apenas se morria!
    Hoje, como a ciência é muito mais, morre-se de doenças que há 100 anos já matavam mas nem se sabia delas...
    Todavia, morre-se na mesma!

    Como dizia o Compadre Pirêra ao Sr. Zacarias (José de Oliveira Cosme), "é um sinal dos tempos que correm, gente que nunca morreu, está morrendo agora!".

    Saudações vivas cá da Cidade Morena.

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  4. Depois de desenhar o contorno dos meus lábios numa folha de papel (liso para que os da F. nunca fiquem em branco), falei-lhe sobre uma ideia nova que me tinha aparecido a caminho de casa, enquanto dobrava a esquina de um aforismo. Não consigo controlar. Às vezes, acontece-me isto. É uma espécie de Big Bang em ponto pequeno que me dá na imaginação.
    -- Estou a trabalhar numa ideia nova. Chamei-lhe "Quantificador de emoções e sentimentos" -- disse eu.
    A F. virou para mim os seus olhos transparentes, daqueles que deixam ver a Primavera mesmo quando os dias são cinzentos, e respondeu:
    -- Ai sim? E como vais tu fazer isso?
    -- Vou começar pelo amor -- respondi, com a convicção serena de um rio a fugir para a foz. -- O nosso vai ser medido em universos.
    -- Em universos?!
    -- Em universos. Não há outra forma. Em universos. É a única ordem de grandeza capaz expandir um tamanho ao infinito -- disse-lhe, escondido atrás de um sorriso sem paredes. Desde esse dia, sempre que olho para a F., descubro um planeta novo.

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  5. Diz-nos a historiadora citada por Maria do Rosário que “ter palavras para o que sentimos é meio caminho andado para entendermos e resolvermos certas emoções”.

    Ora, a emoção que mais me perturba nos tempos que correm é a inquietação.
    Inquietação com o que se passa no mundo. Aos mais diversos níveis.
    Cada vez maiores desigualdades, cada vez menos solidariedade, fanatismos à solta, refugiados maltratados, os que não fogem para cá morrem lá, à bomba ou à fome...
    Acelerada destruição ambiental e imparável alteração climática, crescente tensão entre as potências com armas nucleares...
    Agora até já no desporto, que era suposto ser um factor de união e entendimento da humanidade, são desvendadas gigantescas fraudes – resultados combinados no ténis, doping em grande escala no atletismo, gigantescos e incontrolados negócios financeiros no futebol... Etc , etc ... para não me alongar.
    Em suma: para o caos total está meio caminho andado (para usar palavras da citada historiadora).

    Pois bem: como se vê, palavras não me faltam para exprimir o que sinto.
    Mas é bem certo: palavras leva-as o vento.
    O que me falta são aquelas outras palavras que, segundo a historiadora, na outra metade do caminho me permitiriam aliviar, resolver esta emoção.
    Talvez que o mais prático e cómodo fosse, como muita gente que eu conheço, usar as seguintes palavras: “Estou-me nas tintas”.
    Mas não consigo.

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    1. "Estou-me nas tintas" à partida não exprime qualquer emoção, Joaquim Jordão. :)

      Embora estas palavras possam ser um "alívio" para quem prefere ficar de contas voltadas para o mundo.

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  6. Sim, as emoções têm história e, até, história literária... Dizia o Camilo: «poupou-se à morte de vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no Fr. Luís de Sousa, e à morte de paixão, que é outra morte inventada pelos namorados nas cartas despeitosas...»

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  7. A entrevista de Watt Smith pode ser lida aqui:
    http://www.theatlantic.com/health/archive/2015/12/the-book-of-human-emotions-language-feelings/420978/?platform=hootsuite

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  8. Viram o filme Divertidamente? Vale a pena. Imaginar as ilhas das nossas emoções pode ser um exercício interessante.

    A última frase do texto acima fez-me lembrar de uma emoção (ou será sentimento) que sinto quando me estou a adaptar a uma casa nova: sinto-me realmente «em casa» quando consigo andar por ela à noite sem acender qualquer luz.

    Este texto fez-me lembrar também de uns exercícios de Mindfullness que basicamente consistem em tomar consciência do que nos passa pela mente, aceitar os pensamentos como tal. Parece que isso nos pode ajudar e perceber como é que eles influenciam as nossas emoções. Reconhecer as emoções também deve ajudar, sim. Mas isto soa tanto a controlo e tão pouco a vida. Perdia-se muita poesia, música, literatura e outras atividades artísticas, certamente. E seríamos felizes, sem isso?

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