Inacabados

Um dia destes falei aqui de autores que perdem os ficheiros dos livros que estão a escrever. Como se viu pelos comentários, alguns deles conseguem, mesmo assim, reescrevê-los e publicá-los mais tarde, outros não. Hoje falo de livros que os autores não conseguiram terminar, a maior parte deles por razões óbvias – ou seja, a morte atravessou-se-lhes no caminho. Mas, se pensavam que estes livros nunca seriam publicados (por não terem fim), pois digo-vos que muitos o foram, ou tal como estavam, ou – o que é mais estranho – terminados (ou editados) por outros. De qualquer modo, há obras-primas mesmo entre romances inacabados, como Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que é sempre citado como o melhor que o autor escreveu e um dos melhores da língua portuguesa (imaginem só se o tivesse acabado). Socorrendo-me de um artigo do Observador, avanço mais uns quantos: Amerika e O Desaparecido, ambos de Frank Kafka; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, de José Saramago; Answered Prayers, de Truman Capote; Billy Bud, o Marinheiro, de Melville; Bouvard e Pécuchet, de Flaubert (não sabia que não tinha sido terminado, e não dei por isso); O Primeiro Homem, de Camus – e muitos, muitos outros de vários autores como Jane Austen, Charles Dickens ou Scott Fitzgerald. O mais curioso é que, mesmo sem terem sido concluídos, muitos deles são extraordinários, melhores do que muita ficção acabadíssima que há por aí.

Comentários

  1. Também alguns podiam ter sido acabados, reescritos e se calhar ficavam pior. Mas há casos em que fica estranho quando são outros autores que os terminam e editam, parece que já não é o original.
    O último livro do Tintin (Alph-Art) que o Hergé não terminou, foi publicado com os esboços na maior parte do livro. Outro exemplo é o quarto livro da saga Millennium do Stieg Larsson - O livro é dele? Podia ter sido publicado apenas com as notas e observações do escritor.

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  2. António Luiz Pacheco21 de janeiro de 2016 às 04:08

    Não me admira, mesmo inacabados aquilo que tenha sido escrito por um mestre ou génio, é na mesma genial... penso eu.

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  3. Respostas
    1. Obrigado pela adição do "A Cidade e as Serras".
      De facto, eu desconhecia que o Eça não tinha revisto as provas tipográficas da parte final do seu romance e, por causa do seu post, fui folhear o livro e lá encontrei uma "Advertência" inicial onde se pode ler: "Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito póstumo de Eça de Queirós", mas declaração não está assinada.
      Por curiosidade, saberá quem terá sido o amigo do Eça que leu e fixou a segunda parte do romance?

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    2. Penso que não se sabe, Artur.
      Nem se sabe se ele realmente deixou a obra inacabada. Pelo fim incaracterístico (em Eça) dado à obra, julga-se que sim..

      A propósito: sabia que "O Crime do Padre Amaro", na sua primeira edição, tinha um fim diferente, que Eça modificou numa reedição, salvo erro, dez anos depois? E mesmo assim parece que não ficou satisfeito.

      Vida de escritor...

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    3. Cara Cristina, obrigado por ter o cuidado de enviar tão interessantes esclarecimentos sobre o Eça !

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  4. Toda a obra é imperfeita, o que, a ser verdade, nos pode levar a outra afirmação: é na sua incompletude que a obra se afirma, tal como o Homem, eternamente em busca da perfeição, inevitavelmente condenado a ser imperfeito... Mas sendo os defeitos que realçam as qualidades, não deixa, também de ser verdade, que qualquer defeito se procura recriar no reflexo que de si faz em todas as demais imagens produzidas. Assim, nada verdadeiramente se encontra completo; nada pode dar-se ao luxo de afirmar a sua completude...

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  5. Tive com a obra "Morrer", de Arthur Schnitzler a experiência oposta. A narrativa terminava mesmo no fundo de uma página, não parecia que devesse acabar assim (também podia acabar, tal como acabava aquela vida naquela forma anunciada de morrer), não inseria a palavra "fim". Eu perguntava-me: o autor não terá terminado?, terá falhado a impressão da parte final? acaba assim mesmo? Era mesmo o fim, genial, nunca mais o esqueci.

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  6. O do Capote é qualquer coisa do outro mundo!

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